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CAPÍTULO XXV

Mesmo grandes vultos têm pontos fracos. Tomás Efendi, apesar de não ser personagem de alto gabarito era muito considerado na região de Alachguerd. Dizem: na falta do leão a raposa manda. E esse homem, tão trabalhador e astuto, tinha seu ponto fraco. Após executar com afinco todas as suas tarefas durante o dia, gostava de uma boa farra à noite. Seguindo o exemplo dos funcionários turcos, bebia muito, pedia aos moços e moças que dançassem, sempre acompanhados de vários músicos. Ao chegar a uma aldeia, todas as portas abriam-se para recebê-lo. Quem recusaria hospitalidade a esse grande homem? Pelo contrário, o aldeão sentia enorme satisfação ao receber em sua casa pessoa tão ilustre. Dava-lhe de comer, de beber, do bom e do melhor sem lucrar nada por isso; mas a partir daquele dia era visto com bons olhos.

Uma noite, ao chegar a um lugarejo paupérrimo, Tomás Efendi mandou o kiris à casa de um dos mais pobre camponês para avisa-lo que queria ser convidado por ele. O dono da casa não estava. O trabalho dele consistia em ir de aldeia em aldeia para consertar arados, carroças, carrinhos de mão, eventualmente avariados. A dona da casa respondeu aflita que seu marido estando ausente não poderia receber o Efendi.

_ ”Se teu marido não está, a casa está aqui”, disse o ajudante insolentemente.

Esses kiris[1] representavam o flagelo das aldeias. Obedeciam cegamente a qualquer representante do Governo. Eram como cães de caça, tinham o mesmo faro e sabiam seguir qualquer pessoa pelo rastro.

A esposa do ferreiro ficou sem voz, sem saber o que responder. Este, dado o recado, afastou-se, não sem antes acrescentar:

_ ”O Efendi estará aqui ao acender das luzes”.

A pobre mulher ficou por um momento petrificada na soleira de sua casa sem saber o que fazer. O marido estava ausente e não ficava bem receber um homem durante sua ausência. Por fim, lembrou-se do vizinho Ohô e foi até a casa dele.

_ “Amigo Ohô, o kiris veio em casa e disse que Tomás Efendi virá hoje a noite. Meu marido não está. Pelo amor de Deus, venha em casa para ajudar-me a recebê-lo”.

_ ”O que é isso? Não podia escolher outra casa?”

_ “Eu também não entendi”, disse a mulher com voz angustiada, “Foi o kiris que me avisou.”

Ohô prometeu estar presente para receber o ilustre visitante e não deixá-la sozinha.

Tomás Efendi conhecia bem todas as casas, choupanas e casebres da região. Sabia exatamente onde pernoitar e tinha gosto apurado para este tipo de escolha. Dava sempre preferência de dono fosse pobre e ignorante, e se não fosse ignorante, pelo menos deveria ser beberrão, particularidades difíceis de discernir uma da outra. Mas, acima de tudo era preciso a presença de um lindo rosto de mulher para poder deliciar-se a cada vez que o olhasse. A casa escolhida não preenchia rigorosamente os devidos requisitos. Contudo, Tomás Efendi fizera questão de pousar naquela residência, pois a dona da casa tinha um rosto agradável e a cunhada, recém saída da adolescência, era tida como a moça mais linda da aldeia.

Acenderam-se os lampiões dentro das casas. Sassuna, a dona da casa pusera em cima do tonir[2] a comida a ser servida, e a cunhada Várvara, fritava pedaços de frango. Ohô, o vizinho, cuidava dos preparativos, para tudo estar em ordem para receber o ilustre visitante. Tudo estava pronto quando apareceu Tomás Efendi precedido do kiris. Os guardas, excepcionalmente não o acompanhavam, estavam hospedados em outras casas escolhidas pelo coletor.

O vizinho Ohô recebeu-o com muita deferência e este, todo empolado foi sentar-se na almofada especialmente preparada para ele.

_ “Onde está Mestre Bedrós? não o estou vendo “, disse ele olhando em sua volta. “Queria tanto vê-lo, tenho ótimo negócio para lhe propor”.

         O vizinho Ohô respondeu dizendo que Mestre Bedrós tinha ido a vilarejos vizinhos a serviço.

_ “Que pena! pena mesmo que não vou poder me encontrar com ele. Tinha um negócio muito importante a propor-lhe”, repetiu Tomás Efendi.

 E começou a explicar que as forças do Império iriam precisar de muitas carroças para transportar mantimentos de um regimento para o outro e não havia pessoa mais indicada do que ele para seguir com as carroças e, eventualmente, consertá-las quando preciso assim teria trabalho durante muito tempo.

Tomás Efendi sabia perfeitamente que Mestre Bedrós não estaria em casa. Na verdade, nem precisava dos préstimos do artesão. Para o transporte dos alimentos ele requisitava carroças dos camponeses sem pagar um tostão e, se quebrassem, obrigava-os a consertá-las gratuitamente. 

Tomás Efendi, proferindo esse pequeno discurso tinha segundas intenções. Suas palavras tiveram o dom de encher de alegria o coração de Sassuna, esposa de Mestre Bedrós. Apesar de, no princípio, não ter gostado muito de ser a anfitriã desse famoso coletor de impostos, agora o via com outros olhos. Calculava poder se beneficiar com a amizade de homem de tal gabarito. E o Efendi, sabia que com suas palavras conquistaria a confiança de sua anfitriã.

Tomás Efendi estava sentado, sozinho. O vizinho Ohô, de pé, esperava o hóspede lhe dar a permissão para sentar. O que lhe foi concedido. Somente o kiris permaneceu em pé para poder servir o convidado, pois não havia criados na casa e nem adolescentes para ajudar no serviço. Mestre Bedrós tinha ajudantes morando perto, mas os levara com ele. Como manda a tradição, nem a dona de casa e nem a cunhada de Mestre Bedrós eram visíveis. Elas estavam sentadas atrás de uma espécie de biombo onde podiam ouvir tudo que se passava.

Contudo era preciso demonstrar certo respeito para com o ilustre hóspede. Então, Sassuna e Várvara, saíram do esconderijo e vieram saudar Tomás Efendi, cruzando os braços no peito e inclinando a cabeça. Queriam dizer-lhe: “Seja bem vindo”.

_ “Deus lhes dê longa vida”, disse Tomás Efendi.

A dona da casa tinha o rosto coberto por véu. O da sua cunhada estava descoberto. A seguir, afastaram-se e começaram a por a mesa. O silêncio reinava na choupana. Ninguém falava. Todos esperavam o Efendi falar primeiro:

_ ”O que você está fazendo atualmente?” perguntou o coletor de impostos ao vizinho Ohô.

_ “Estou desempregado, aghá[3]. Respondeu Ohô, esfregando a nuca. “Deus me castigou. Várias desgraças se abateram sobre mim neste último ano. Meu filho mais velho, o diabo[4] levou, muitas vacas morreram e meu arado esta quebrado. Estou sem fazer nada.”

_ “Que pena! muita pena mesmo!” disse Tomás Efendi com pesar. “Você é bom homem. Conheço você há muito tempo e não vou deixar você sem trabalho. Vou te arrumar serviço. Atualmente, estou precisando de gente para trabalhar”.

Ohô queria pular de alegria.

_ ”É só me arrumar algum serviço, aghá, e o senhor verá de que Ohô é capaz!”

_ “Mais o burro trabalha, mais terá o que comer...”

_ “É verdade, Efendi, é assim mesmo.”

Tomás Efendi pertencia àquela classe de indivíduos os quais, quando querem, ou se valorizam demais a ponto de não conseguir passar por uma porta de tão “inchado” que ficam, ou se rebaixam tanto a ponto de poder passar pelo buraco de uma agulha.

No momento, era preciso cativar a confiança de Ohô, que estava exercendo o papel de dono da casa. E o pobre camponês, ingênuo de todo, acreditava piamente em tudo que Tomás Efendi dizia. Agradeceu humildemente, dizendo:

_ ”Que Deus lhe dê longa vida, aghá, e faça com que sempre nos proteja.”

Era a hora da janta. A graciosa Várvara apareceu, trazendo tigela com água e toalha para Tomás Efendi lavar as mãos. A seguir colocou a comida na mesa. Eram vários pratos muito bem elaborados. Colocou todos eles de uma só vez, em volta da mesa, muito bem arrumados. Percebia-se nela timidez e pudicícia indisfarçáveis, proveniente de uma formação rígida e falta de contato com moços de sua idade.

_ ”Qual é o seu nome?” perguntou Tomás Efendi. 

Ela corou, engasgou e ficou olhando em sua volta para ver se alguém poderia responder em seu lugar. O vizinho Ohô respondeu e disse ser Várvara o nome dela.

_ “Que lindo nome! lindo mesmo!” disse o convidado com admiração, “tenho uma cunhada com esse mesmo nome.”

Leve sorriso apareceu no rosto de Várvara, feliz ao ouvir personagem tão importante ter uma cunhada chamada como ela. Naturalmente, Tomás Efendi nem tinha cunhada, mas precisava conquistar a confiança da moça com lindas palavras.

Somente o coletor e Ohô estavam sentados à mesa. As mulheres não sentavam à mesa com os homens e nem podiam abrir a boca para falar.

_ ”Moinho sem água, não produz farinha”, ponderou Tomás Efendi.

Ele queria dizer que precisava de bebida e ordenou ao kiris providenciar o araque[5]. O vizinho Ohô desculpou-se e diz não ter pensado nisso e a dona da casa fez entender com gestos que mandaria buscar a bebida solicitada incontinenti:

_ “Não, não”, respondeu Tomás Efendi, “em todas as casas onde sou convidado, a bebida está por minha conta”.

Era pura verdade Sempre ao ir numa dessas choupanas como convidado, mandava o kiris buscar a bebida, mas a conta ele contornava, aumentando ligeiramente o valor dos impostos. Além disso, ele podia assim beber a vontade sem constrangimento.

Imediatamente o kiris saiu e trouxe um garrafão de “araque”.

_ “Agora você pode se sentar”, disse Tomás Efendi dirigindo-se ao kiris, “e encher nossos copos”.

O kiris sentou-se e pôs o garrafão ao seu lado. Conhecia de antemão os desejos do Efendi e principalmente que “quando alguém é convidado numa casa e quer fazer uma farra, é preciso em primeiro lugar  tentar embebedar o dono da casa". Neste caso, na ausência do dono da casa, o alvo era o vizinho Ohô cujo copo nunca deveria ficar vazio.

O vizinho Ohô gostava de beber de vez em quando.Mas após a morte repentina de seu primogênito e a perda de algumas cabeças de boi, como consolo, se pôs a beber em demasia. Sob efeito do álcool e as promessas de Tomás Efendi de lhe arranjar serviço, ficou tão eufórico que, sem ninguém pedir se pôs a cantar em altos brados canções da terra de preferência turcas.

─"Muito bem! mas não é o suficiente para nos divertir. Chame os músicos!" ordenou o coletor.

Os músicos, jovens ainda, tocavam e cantavam várias canções do Oriente. Inseparáveis, acompanhavam sempre o Efendi, pois sabiam que ele adorava uma farra e com isso ganhavam algum dinheiro.

Assim logo acudiram e se puseram em volta da mesa. A dona da casa se viu na obrigação de servi-los também.

Tomás Efendi se dignou a dirigir a palavra aos músicos perguntando-lhes se estavam em boa saúde.

─ "Graças ao Sr., estamos todos muito bem", responderam eles em coro.

A seguir sentaram-se, comeram e beberam até não poder mais. Várvara teve que sair da sua toca para tirar a mesa, menos o garrafão de araque que permaneceu no seu lugar. Já esvaziara várias vezes, pois todos bebiam com entusiasmo. Até os músicos estavam um pouco "altos".

─ "Vamos! comecem a tocar!" ordenou Tomás Efendi.

A choupana vibrava ao som da música, tocada com animação. Era disso que Tomás Efendi mais gostava.

Logo os tetos da vizinhança ficaram repletos de gente, a casa de Mestre Bedrós ficou cercada pelos vizinhos, todos se empenharam em olhar pelas frestas e clarabóias da choupana.

Pouco a pouco o ambiente começou a esquentar. Sob o efeito do araque e da música cada vez mais alucinante, tudo se transformou. Como dizem por aqui "até o cão não reconhece mais o seu dono". Todos os homens estavam mais para lá do que para cá. Somente Tomãs Efendi se mantinha sóbrio, sabia se controlar. Paulatinamente, as moças e as mulheres que permaneciam fora da casa, criaram coragem e, devagarzinho, adentraram a choupana e sentaram-se ao lado de Sassuna e Várvara.

─ "Vamos! quero todo mundo dançando!" gritou Tomás Efendi batendo palmas. 

No mesmo instante, o vizinho Ohô que mal e mal se mantinha em pé, pegando as mãos de duas mocinhas, puxou-as no meio da sala. Os músicos encetaram um trecho muito popular na região. As mocinhas envergonhadas coraram um pouco, murmurando “não sabemos”, mas por fim começaram a dançar.

─ “ Dinheiro! Dinheiro! Gritavam os músicos, tocando com mais vigor.”

E Tomás Efendi colocava uma moeda de prata na mão de cada dançarino os quais a remetiam aos músicos.

A dança, como mandava a tradição, começava com as duas moças mais jovens e se estendia pouco a pouco para as mais velhas. Quando cansavam entregavam o lenço que agitavam para duas outras. Era a vez destas últimas dançarem. E assim cada par se revezava. Tomás Efendi distribuía as gorjetas sem pestanejar e os músicos tocavam cada vez com mais ardor.

E chegou a vez de Várvara. A linda moça levantou-se e começou a dançar, premiando a assistência com um desempenho feito de graça, beleza e sedução.

─ “Na minha região”, disse Tomás Efendi, “existe uma linda tradição. Quando a moça termina de dançar, ela se aproxima do convidado mais ilustre, ajoelha-se e coloca a cabeça nas pernas dele, permanecendo assim até o convidado lhe dar uma boa gratificação[6].”

─ “Isso realmente é uma bela tradição”, clamaram os músicos , uníssonos.”Devemos introduzi-la aqui também.”

  ─ Várvara, você será a primeira, venha minha filha”, disse Tomás Efendi.

Várvara, envergonhada, ficou estarrecida e não conseguiu se mexer. Ela preferiria mil vezes que a terra se abrisse e a engolisse do que colocar sua cabeça nas pernas de um homem. Mas de todos os lados começaram a gritar e incentivá-la dizendo “vai lá, não seja tímida, vai ter dar um bom dinheiro”. Empurrando-a levaram-na até o coletor de impostos, obrigando-a a ajoelhar-se, e a colocar sua linda cabeça no colo dele. Tomás Efendi acariciou longamente os lindos cabelos da moça e por fim colocou duas moedas de ouro na sua mão.

Enquanto o Efendi se divertia, um guarda entrou e aproximando-se dele sussurrou-lhe no ouvido.

 ─ “Achamos a pessoa que o Sr. procurava.”

 ─ Prendam-no e vigiam-no sem que ninguém o veja. Amanhã de manhã, eu cuido dele” respondeu Tomás Efendi com uma voz quase inaudível. O guarda se afastou.

Já se fazia tarde e pouco a pouco a choupana de Mestre Bedrós se esvaziou. Os músicos se retiraram carregando o vizinho Ohô completamente bêbado. Na choupana sobraram somente o ilustre convidado e o kiris, tão inebriado que não podia abrir os olhos.

Dona Sassuna arrumou a cama de Tomás Efendi, apagou as luzes e foi se deitar.

O que aconteceu de incomum naquela noite? Só Deus sabe.

Mas no dia seguinte Várvara tinha os olhos cheios de lágrimas e durante vários dias não conseguiu esconder a sua tristeza.

Na madrugada do mesmo dia aconteceu algo que ninguém percebeu: um moço andava, arrastando os pés, algemado, entre dois guardas. Levavam-no até o quartel onde um coronel recém chegado cuidava dos registros, preparando-se para a guerra.

Ninguém o viu na escuridão a não ser Tomás Efendi que o acompanhou com os olhos enquanto um sorriso diabólico brotava nos seus lábios. “ Agora pode tocar teu düdük[7] o quanto quiser” disse ele para si mesmo.

O moço era Düdükdjian aliás Salman.

1] Espécie de factótum.

[2] Cavidade funda aberta no meio da sala que servia de forno.

[3] Título honorífico semelhante a " doutor" no Brasil

[4] Ele quer dizer que Deus jamais levaria seu filho. Somente um ente mau faria tal coisa.

[5] No Oriente Médio, equivalente a nossa cachaça.

[6] Nunca existiu na Armênia tal tradição. São as Ciganas do interior da Turquia que ao dançar fazem

contorções lascivas a fim de obter algum dinheiro. 

[7] Pequena flauta muito tocada na Armênia.