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CAPÍTULO XXII

 Um mês antes da chegada de Levon Salman à região de Bagravant, Hadji Missak, natural de Erzerum, carregou suas mulas para ir até sua cidade natal. Tinham-lhe dado esse apelido de “Hadji” por ele ter ido duas vezes até Jerusalém cumprir promessa, e talvez fosse a vontade de Deus retornar uma terceira vez. Missak era bom cristão e sua devoção beirava os limites do fanatismo.

Em todas pousadas, vilarejos e cidades onde passava era cumprimentado, pois todos o conheciam. Fazia vinte anos que ele levava malas carregadas de mercadorias através de toda a Ásia Menor e da Armênia. Hadji Missak era homem corpulento, vigoroso, de meia idade e muito ativo. É praticamente impossível descrever seu rosto, visto ter barba vasta e cerrada. Apenas despontavam seu enorme nariz de Armênio e olhos penetrantes revelando um coração de ouro.

Era só alegria quando a caravana de Hadji Missak aparecia. Quem não esperava algo de Hadji Missak? Os comerciantes esperavam as mercadorias encomendadas. As mulheres, carta do marido que fora trabalhar em outras plagas. Mesmo os funcionários, do alto ou baixo escalão, o esperavam a fim de receber esse ou aquele artigo almejado: uns confeitos, bebida ou roupa. Muitas vezes, um forasteiro armênio, exausto e adoentado, o esperava com ansiedade para ser socorrido e levado ao seu destino. Por ele ser muito amável e serviçal merecia a consideração de todos que o conheciam. Assim ouvia-se de toda parte:

¾” Hadji Missak! ao voltar traz um pouco de algodão para mim!”

¾ “Hadji Missak! o meu azeite acabou. Você traz para mim?”

E ele trazia com prazer tudo que lhe pediam, sem cobrar nada e, às vezes, pagando do próprio bolso. Por esses motivos, os guardas não o molestavam durante suas viagens, e mesmo quando passava de um país para o outro, a alfândega o deixava em paz.

O mascate, principalmente o conhecido, é muito respeitado no Oriente Médio. As pessoas têm absoluta confiança nele. Confiam-lhe os mais diversos objetos, dinheiro, ouro, prata, sem necessidade de recibo, pois sabem que serão religiosamente entregues.

Cada vilarejo sabia o dia exato em que Hadjia Missak apareceria. As viagens eram tão bem organizadas e nada especial acontecendo durante o trajeto, ele chegava no dia estipulado.

Desta vez a caravana de Hadji Missak estava mais lenta. Os volumes do carregamento, apesar de não serem muito grandes, pareciam mais pesados. A maioria era caixas compridas amarradas com fios de arame. Nelas, escrita em letras maiúsculas, a palavra “PÉRSIA”. A caravana transitava somente à noite, pois Hadji Missak supunha que as mulas iam cansar muito durante o dia, naquele calor sufocante.

Acompanhando a caravana, havia outro personagem chamado Melik-Mansur, comerciante, o qual dizia ser Armênio da Pérsia.

Os últimos vinte ou trinta anos, o governo persa investira na modernização de seus fuzis, espingardas e outras carabinas, abrindo assim mercado promissor para comerciantes em geral e Armênios em particular, os quais providenciavam a importação desses produtos. Melik Mansur era um desses comerciantes e o carregamento lhe pertencia. Os fiscais não prestavam muita atenção, pois a mercadoria ia rumo à Pérsia. Naquela época esse tipo de trânsito era muito comum;  passava por Trebizonda, Erzerum ou Bayazid.

Melik Mansur era homem, nos seus 36 anos, simpático e alegre. Adorava contar, para Hadji Missak, alguns episódios das suas inúmeras viagens, recheados de anedotas, principalmente do exterior. Quebrava assim a monotonia da viagem. A história mais interessante desse Armênio “Judeu Errante” era da sua viagem à Índia onde perdera três dedos ao lutar com selvagens.

Melik Mansur falava vários idiomas, tanto do Ocidente como do Oriente e aprendera a lidar com toda sorte de gente; conhecia todas as artimanhas ou artifícios possíveis e imagináveis. Assim, sob ares de brincalhão possuía profunda perspicácia. Hadji Missak o respeitava muito, não somente porque lhe dava serviços e o pagava muito bem, mas por merecer. Em cada pousada onde a caravana parava Melik Mansur era bem recebido. Todos ficavam contentes em hospedá-lo. Por seu turno, era mão aberta e dava gorjetas com generosidade.

¾”O Sr. está inflacionando o mercado” se queixava Hadji Missak. “Na próxima vez, esses mercenários nem um copo de água vão me servir”.

A caravana passou sem problema por Erzerum e uma semana mais tarde entrou na província de Bayazid. Aqui, conforme transitavam, várias caixas eram trocadas por outras. Essas trocas eram efetuadas sempre a noite em pousada de aldeia povoada somente por Armênios. Às vezes, nessas paradas, aparecia um cidadão para conversar com Melik Mansur, num linguajar absolutamente incompreensível, logo em seguida desaparecendo.

Por fim, a caravana alcançou a fronteira persa. Ao adentrar o solo persa, não havia mais caixas com a inscrição “Pérsia” no lombo das mulas, e Melik Mansur,  falso negociante, desaparecera.