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CAPÍTULO XXIII

A rotina na casa do velho Khatchô se modificara substancialmente após a chegada de Salman ainda chamado de Düdükjian pelos moradores da fazenda. Vartan e ele se ausentavam freqüentemente durante dias. Hairabed e Abô pareciam mais preocupados e reservados do que de costume. Os outros irmãos não conseguiam esconder a aversão com os dois forasteiros, suas “loucuras” e fantasias. O velho Khatcho estava ocupado com os assuntos da aldeia, dia a dia se avolumando. Assim as discussões em volta da mesa após jantar, cessaram.

A rotina das mulheres prosseguia a mesma. Há séculos sempre a mesma. Nas famílias armênias, elas não tomam parte de discussões, não estão a par do que se passa e não se metem nos assuntos dos homens. Além de seus afazeres nada deve lhes interessar.

_ “Temos que tirá-las dessas quatro paredes” dizia Düdükjian. “Precisamos delas. Elas representam força que não podemos negligenciar.”

_”É muito cedo ainda”, respondia Vartan. “Primeiro, precisamos prepará-las”.

_”Nada é possível modificar, sem participação das mulheres. Se nosso povo está nesta situação, neste marasmo, é porque nunca deixou as mulheres participarem de nossas discussões. Deixamos essa força, essa energia, aprisionada entre quatro paredes. Se realmente quisermos educar e instruir nosso povo, devemos absolutamente começar pelas mulheres. Nas minhas andanças pela Armênia, observei atentamente o comportamento da mulher armênia e fiquei agradavelmente surpreso. Rapazes armênios perderam sua identidade sob a influência nefasta dos Turcos. Ao contrário, a mulher Armênia conservou, contra tudo e contra todos, a sua pureza. Não existe o mal sem o bem. Mesmo presa entre quatro paredes de um harém, desprezada e espezinhada, conserva  sua alma armênia. Isso é fantástico. Enquanto nossos moços, em contato permanente com o povo turco, tendem a esquecer a sua identidade, nossas moças, enclausuradas, fazem questão de conservar a sua “armenidade”. Assim, sem se perceber, permanece um certo equilíbrio. A perda do elemento masculino é compensada pelas mulheres. A repugnância da mulher com o maometanismo beira o fanatismo. Para ela, tudo o relacionado a muçulmano é nojento; não come carne coalhada ou pão elaborados por eles. Já os moços não ligam para essas coisas. Já soube de centenas e centenas de mulheres raptadas pelos turcos. Fizeram de tudo para fugir e não alcançando o seu intento, preferiram suicidar-se. É muito raro ouvir algo semelhante  em vemos, principalmente nas grandes cidades, nossos patrícios usando mais a língua turca que a armênia. Até hoje, não encontrei uma só mulher falando essa língua mesmo a conhecendo. Quem faz questão de falar armênio em casa, principalmente com os filhos, é a mulher. Até aos estrangeiros, ela ensina. Todos os empregados domésticos, curdos ou curdas, o falam perfeitamente. Portanto, a mulher salvaguarda nossa língua, nossa nacionalidade, e conseqüentemente, nossa família. É um terreno fértil, inculto, para ser desenvolvido. Com elas poderemos alcançar magnífico resultado.”

Era sempre sobre esses assuntos que Salman dissertava ultimamente antes de suas despedida da casa do velho Khatcho. Apesar dessa imensa admiração pela mulher armênia, as que moravam na casa do velho Khatcho não simpatizavam  com ele. É compreensível, pois não conheciam suas qualidades morais e intelectuais. Salman era capaz de chamar a atenção de muitas mulheres, fisicamente também, pois era bem apessoado. A mulher, dependendo de sua classe social ou nível intelectual, poderá enamorar-se por esse ou aquele indivíduo. Por isso não era de se estranhar se as mulheres da casa do velho Khacho achavam Vartan bem mais atraente.

Um dia, após o almoço, durante a sesta, as noras se ocupavam com trabalhos manuais: uma, desfiava a lã com a carda, a segunda a enrolava na roca de fiar, a terceira trabalhava no gobelin e a quarta confeccionava roupas para as crianças, em suma, cada qual na sua própria ocupação. A conversação rolava solta e o assunto era o Salman.

_” Sará”, perguntou Parichán, a menor das cunhadas, “o que esse fulano veio fazer aqui?”

_” Dizem que  quer abrir uma escola”, respondeu Sará.

_”Mas ele nem entende de coral de igreja!” (pensavam que para abrir uma escola era preciso ser maestro de coral.)

_”Mas ele é maestro, lá em Constantinopla.”

_” Então, porque não vai à igreja cantar com os outros?”

Sará não achando outra resposta, disse simplesmente:

_”Ele é outro tipo de maestro.”

A linda Marô, esposa de Abô, entrou na conversação:

_ "Dizem que até as meninas irão à escola".

Essas palavras provocaram uma sonora gargalhada.

_ "Porque as meninas deveriam ir à escola, se não podem ser padres"? responderam em coro.

Uma das noras voltou-se para a pequena Nazlu e disse:

─ "Está vendo Nazlu! Com essa tua idade você vai ter que ir à escola para aprender a ler".

Nazlu, filha de Hairabed, respondeu com firmeza:

─ "O que que tem? Vou aprender e depois irei à igreja para rezar e cantar com os rapazes".

─ "Coitada!"exclamaram as cunhadas.

Parichán, causa dessa polêmica, levantou mais uma questão:

─ "Nós já temos o professor Simão que dá aula aos nossos filhos. Para que um novo professor que não sabe nada de nós?"

─ "Você tem razão, não entendo grande coisa, mas o professor Simão tem também seus defeitos", emendou Sará."Primeiro, está quase sempre bêbado e segundo, costuma bater nas crianças. Você se lembra do filho do nosso vizinho Gaspar? Levou tamanha surra, que foram obrigados a trazê-lo para casa de maca. E depois de dois dias o coitado morreu"!

─ "Por que culpar o professor Simão? Sem surra as crianças não se esforçam."

Não era por acaso que as noras tinham tocado nesse assunto. É porque Salman fazia de tudo para convencer os camponeses a abrir duas escolas, uma para meninos, outra para meninas. Assegurava-lhes mandar vir vários professores, o ensino seria absolutamente de graça e até livros e cadernos seriam oferecidos aos alunos. Para os aldeões, tudo que é grátis é suspeito, por isso é muito difícil convencê-los. E sobretudo, o fato de abrir escola para meninas os irritava profundamente. Para o povo, um professor que não fosse da terra, não freqüentasse a igreja, cantasse no coro, e não ficasse em jejum durante a Quaresma, não prestava. Porém o velho Khatchô mesmo não compartilhando as idéias de Salman, concordou com essa última proposta. Como pessoa mais respeitada e prefeito da aldeia, conseguiu convencer seus conterrâneos da utilidade das escolas e ofereceu a Salman uma área para começar a construção. Iniciaram as obras e cavaram as fundações. Mas após uma terrível tempestade, os camponeses se reuniram e fecharam o enorme buraco das fundações. No dia seguinte, ninguém foi trabalhar apesar dos apelos de Salman que até chegou a lhes propor um aumento.

Pela conversação das mulheres, ficou patente existir na aldeia uma pessoa chamada Simão exercendo a profissão de professor e também sacristão. No inverno, juntava todos os meninos do vilarejo num estábulo, e lá ensinava a ler salmos, catecismo e outras obras religiosas. Logo nos primeiros dias da primavera, quando começava o trabalho no campo, dava férias coletivas até o fim do outono. Conseqüentemente, na volta à escola no ano seguinte, ninguém se lembrava de mais nada. Simão era genro do pároco[1] da igreja, padre Maruk, grande apreciador de bebidas alcoólicas e de temperamento irascível. Simão, percebendo que ia ter prejuízo com a abertura das duas escolas, incitou o sogro a fazer um sermão denegrindo a construção das escolas e pedir ao povo para tampar o enorme buraco das fundações. No sermão, o padre expondo as grandes desvantagens das novas escolas, acrescentou ser Salman “Maçom”, personagem que não acreditava em Deus, e tudo mundo sabia que “mandar meninas à escola” era pecado mortal. O Rei Salomão e São João Batista amaldiçoaram as mulheres, e fizeram muito bem, pois foi uma delas que mandou degolar São João Batista. A seguir, referiu-se à Bíblia, para provar ter sido o profeta (sic) Sansão morto, traído por uma mulher. E Eva enganando Adão, provocara a ira de Deus que os expulsara do Paraíso, e por fim completou seu sermão acrescentando mais alguns exemplos dessa espécie, conseguindo provar que mandar meninas para a escola era muito perigoso, pois aprenderiam muitas coisas e se tornariam, mais tarde, verdadeiros demônios. 

O sacristão Simão tinha grande influência sobre as mulheres. Para elas, inventara frases, como existem em horóscopos, encantando-as e assim conseguira conquistar suas simpatias. Logo, as esposas incitaram seus maridos a apoiar o sacristão para ele não perder seu emprego.

O sacerdote e seu genro acharam um aliado de peso na pessoa de Tomás Efendi o qual sentia uma profunda ojeriza pelas palavras: escola, instrução e educação. Além disso, o sacristão trabalhava de graça para Tomás Efendi. Fazia papel de guarda-livro, tomando minuciosamente nota de todos os impostos recolhidos.

O velho Khatchó se sentiu muito dividido e angustiado, mas Salman estava determinado. Não haveria obstáculos para ele. À noitinha, encontrou Vartan e disse:

─ "Vou tratar esses palhaços como fazem os missionários. À chegada de um missionário, as primeiras pessoas a demonstrar animosidade são os intelectuais e os padres. Mas logo , são os primeiros a apoiá-lo. O missionário lhes confia de vez em quando algumas tarefas fáceis, mas sempre os paga bem. E com isso, aquele considerado Judas se torna santo, e eles se tornam seus melhores defensores."

─ "Isso é verdade", respondeu Vartan,"mas o que vai fazer?

─ "Temos que ser práticos", disse Salman, "É preciso conhecer o ponto fraco das pessoas. Preciso saber quanto, esse imbecil de sacristão ganha por mês e oferecer-lhe um cargo insignificante na nova escola, pagando-lhe o dobro. Tenho certeza que após essa oferta, ele será o primeiro a pegar na picareta e  a chamar os outros, para a construção da escola.

─ "Você está certo", disse Vartan, "mas precisa agradar o padre também.

─ Claro!

Apesar do desagradável acontecimento da manhã, Salman estava mais alegre do que os outros dias. Este fato inesperado mexera com seu brio, e ele estava mais do que nunca disposto a realizar seu sonho.

─"Vartan, pense bem no que a escola vai proporcionar de bom para toda essa gente! Vamos realizar aquilo que almejávamos. Somente ela poderá ajudar a fechar  nossas feridas e  preparar novas gerações. É verdade que a falta de iniciativa de nossos antepassados resultou para nós esforço redobrado. Não previram nossas atuais preocupações; mas não faz mal! Podemos ainda ter esperança e dizer: o futuro nos pertence. Mas precisamos trabalhar, e muito! E, na minha opinião, não podemos somente cuidar da mente das crianças, mas também do corpo. Vartan! Você já reparou como essas crianças são lerdas e vagarosas? É preciso enrijecer seus músculos, dar-lhes vitalidade. Portanto, nossas escolas terão necessariamente aulas de ginástica para lhes dar ânimo e coragem.

E olha aí Vartan! Vou te contar uma história que me deixou muito feliz. Encontrei hoje alguns Curdos e contei-lhes a respeito das nossas escolas. Fiquei espantado com o entusiasmo deles. Disseram-me ser o ensino  uma coisa muito boa e mandariam seus filhos de muito bom grado. Percebia-se não estarem gostando de ver seus filhos tornarem-se bandidos. E de fato, como culpar esse povo mantido em estado selvagem e vivendo exclusivamente de banditismo? Somos nós os culpados de não ter-lhes dado até hoje oportunidade;  e no fundo, é de nosso próprio interesse. Se quisermos nos livrar definitivamente de suas selvagerias, precisamos amansá-los, domesticá-los e acostumá-los a viver pacificamente. O governo não se preocupa com eles. E isso é compreensível, pois preferem os Curdos na ignorância. Mas nós, devemos preocupar-nos com eles, pois somos as suas eternas vítimas. Não vamos questionar a religião deles, somente a educação. E assim tudo entrará nos eixos”.


[1] Na Igreja Católica Apostólica Armênia, Só pode ser padre quem está casado. Se for solteiro será ordenado Vartabed (Monsenhor), e poderá subir todos os escalões da hierarquia eclesástica.