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CAPÍTULO XXIX

 Vartan, Hairabed e Abô não tinham retornado ainda. Ignoravam o acontecido na fazenda. Não estavam a par das falcatruas de Tomás Efendi, das buscas promovidas pelo sargento, nem dos modos grosseiros dos guardas.

Procuraram  Salman em várias aldeias, perguntando por ele, aqui e acolá e finalmente chegaram ao vilarejo onde Salman pousara na última noite. O dono da casa parecia ser bom homem. Não sabia o que acontecera com o pobre moço. Só podia dizer que ficara até meia-noite, cercado dos jovens da aldeia, e não parara de discursar. Quando os jovens se retiraram, dera um pouco de comida a Salman e providenciara uma cama. No dia seguinte Salman desaparecera. Onde teria ido? Isso não sabia.

Vartan e seus companheiros entraram na humilde moradia para procurar algo esclarecedor. Acharam no chão um pedaço de papel rasgado no qual estava escrito apressadamente: ”estão me levando preso” assinado com duas letras maiúsculas: L.S.

Vartan leu e passou o papel a Hairabed dizendo:

¾ “Eu esperava por isso.”

Os três estavam estarrecidos e angustiados. Pressentiam o terrível castigo ao qual Salman seria submetido, fruto da sua inexperiência e ingenuidade. Imaginavam o seu desapontamento ao ver o esvaecer todos seus esforços em prol da realização de um ideal de justiça, ao qual os três tinham aderido de corpo e alma.

O dono da casa, atônito, olhava essas três pessoas que ficaram tão impressionadas com simples pedaço de papel rasgado.

O sol estava se pondo quando saíram da casa. Levantando uma densa poeira, os rebanhos voltavam para os estábulos, entremeando balido das ovelhas e mugido das vacas. Os camponeses regressavam de dura jornada, debochando uns dos outros, dando risadas à toa. Ninguém se interessava com o acontecido na véspera neste mesmo lugar. Ninguém queria saber dos dois fatos trágicos ocorridos: a prisão do jovem patriota idealista e a violência sofrida por pobre e linda donzela, ambos obra de cidadão cujo nome era armênio e temido por todos.

¾”O nosso camponês em geral” disse Vartan dirigindo-se aos amigos, “mais parece criança; cresce só no tamanho . Preste atenção numa criança: ela pula, da cambalhotas, cai, se machuca e começa a chorar. Logo que para de doer, começa tudo de novo. É muito difícil lidar com esse tipo de criança. Há séculos nosso camponês vem apanhando. Batem a cabeça deles sempre na mesma parede, jogam-nos sempre na mesma lama e eles não ligam. O acontecido hoje, amanhã será esquecido. Irão de novo trabalhar sem se preocupar com nada, sem parar para pensar para que estão trabalhando ou porquê estão tão alegres. Tomás Efendi conhece muito bem esse povo. Chama-o de burro e àqueles que o defendem, de loucos. Experimente contar a eles que o moço que lhes explicava, ontem a noite, o significado de Cidadania, e lhes ensinava a maneira de livrar-se desse trabalho forçado, está sendo enforcado neste mesmo momento. Todos vão responder a mesma coisa: aquele era um louco. “

Por alguns instantes Vartan permaneceu silencioso.

¾”Pensando bem” continuou ele, “Tomás Efendi tem algo a ver com tudo isso.”

¾”Também  penso assim ”acrescentou Hairabed.

¾”Temos que averiguar”, disse Vartan.

Estava escurecendo. Os habitantes que estavam nas casas, a maioria idosos, saiam para aproveitar o frescor do entardecer. Vartan e seus companheiros sairam rapidamente da aldeia.

¾”Boas agulhas...linhas de todas as cores...lindas argolas...”

Era a voz do mascate manco.

Vinha em sentido contrário, sempre manquitolando, carregando a mesma arca nas costas, o mesmo bastão que mais parecia a clava de Hercules. Reconhecendo Vartan disse:

¾”Meus bons amigos, comprem alguma coisa, já é tarde, faço um preço bom, baratinho.”

 ¾”O que tem para vender” perguntou Vartan.

¾”Tenho de tudo” respondeu o mascate colocando a arca no chão.

Vartan fingindo estar interessado em alguma mercadoria estendeu imperceptivelmente a mão e passou furtivamente o pedaço de papel rasgado que tinha achado na casa do camponês.

O mascate mal olhou e disse com voz pouco audível:

¾”Já sabia.”

¾”O que fazer?”

¾”Mais tarde eu digo.”

¾”Onde?”

¾”Vão embora, eu acho vocês”.

Ninguém notou a conversa. Os próprios companheiros, Hairabed e Abô, a alguns passos, nada repararam. O mascate colocou novamente a arca nos ombros e afastou-se enquanto monologava:”Chega para hoje, preciso descansar.”

Vartan e seus amigos continuaram a andar. Já algumas luzes se acendiam em diversas choupanas. Passaram em frente da casa de Mestre Prado. Na soleira estava o vizinho Ohô.

Ao chegar o crepúsculo, os camponeses armênios, vendo um forasteiro passar em frente a sua porta costumam convida-lo a entrar. Os três foram convidados por Ohô. Eles agradeceram e prosseguiram andando. Mas logo se detiveram, não pela insistência de Ohô, mas pelas lamentações e gritos de  socorro no interior da casa. Imediatamente, entraram no casebre. Os gritos provinham do estábulo que se encontrava em escuridão total. Abô correu para trazer o lampião que estava na sala e os três adentraram o curral. Depararam-se com uma cena chocante. Uma mulher segurava as pernas de uma moça pendurada pelo pescoço em uma corda grossa presa ao teto. Tentava com toda sua força levantá-la para não sufocar. A moça soltava gemidos pungentes:”me solta, me solta” enquanto a mulher chorava dizendo:”Varvará, Varvará...” .

Incontinenti, cortaram a corda e deitaram no chão a pobre moça semi-asfixiada. Um minuto a mais e tudo estaria acabado. A mulher esgotada e sem força, não poderia mais sustentar o peso da moça se enforcando. Carregaram a jovem até a cama. No rosto, ligeiramente azulado, por vezes via-se os lábios estremecerem enquanto repetia com voz débil: “me solta, me solta”... Sussan chorava e amaldiçoava alguém cujo nome não se lembrava. Por fim aproximou-se da moça e acariciando-lhe o lindo rosto disse:

“Varvará querida, por quê se matar? De que você é culpada? Que Deus castigue aquele desgraçado!”

Vartan, assim como seus companheiros, percebeu algo grave ter acontecido naquela casa, mas não conseguia imaginar o que se tratava. Sussan só se lamentava, não se podia tirar nada dela e, a não ser duas crianças, não havia mais ninguém na casa. O marido de Susssan, Mestre Pedro, era velho conhecido de Hairabed pois vinha às vezes à fazenda do Velho Khatchô consertar as peças avariadas. Mas era a primeira vez que se encontrava com a esposa dele. E mesmo se a tivesse visto antes, ela não lhe teria dirigido a palavra pois não fazia parte dos  costumes das camponesas armênias falar com estranhos. Portanto limitou-se a agradecer-lhes do fundo do coração e pediu-lhes para avisar seu marido.

¾”Onde está ele agora?” perguntou Hairabed.

¾”Na aldeia vizinha, foi ao trabalho”, respondeu a mulher.

Naquele mesmo instante Varvará abriu os olhos e pediu água. Sussan atendeu ao seu pedido apressadamente.Ao tomar a água, a cor azulada do rosto tornou-se cinzenta. O branco dos olhos estava avermelhado por efeito do estrangulamento. Deixou a cabeça descansar no travesseiro e puxou o lençol sobre o rosto. Ouviram-se os seus soluços abafados. Esse choro pungente, cortando o coração dos presentes, provocava ao mesmo tempo um imenso alívio, pois Vartan e seus companheiros entenderam ter a vida salva.

Ao sair da casinha, avistaram um menino, o qual, por algumas moedas, prontificou-se a avisar o Mestre Pedro. O vizinho Ohô, ainda de pé na soleira da sua casinha, convidou-os novamente a entrar. Diante da recusa disse:

¾"Onde estão indo nesta noite escura?”

E sem esperar a resposta acrescentou:

¾"Se soubessem que farra fizemos ontem a noite!”

¾"Que farra?” perguntou Hairabed

O vizinho Ohô, todo animado, começou a contar que Tomás Efendi escolhera a casa de Mestre Prado para passar a noite; que ele próprio fora convidado; que havia também músicos e as mulheres tinham dançado; que havia muita comida e muita bebida e por fim terminou sua história com essas palavras:

¾”Por Deus! Tomás Efendi é um homem formidável. Mandou vir tanto arak que se podia encher uma banheira!”

¾”Então todos ficaram bêbados, não é?” perguntou Vartan.

¾”E quem não fica bêbado com tanto arak?retrucou Ohô gargalhando. “O bom é ficar bêbado”.

¾”E o Mestre Prado estava aqui?”

¾”Não. Eu fui chamado para ficar no lugar dele.”

¾”Mas quando você ficou bêbado foi Tomás Efendi que te substituiu, não é?”

¾”Não me lembro de nada. Me levaram para casa completamente bêbado.”

Despediram-se de Ohô e seguiram seu caminho. Vartan dirigiu-se a Hairabed e disse:

¾”Agora estou começando a entender o porquê daquela pobre moça querer se enforcar”.

¾”E eu, quem delatou Salman”, acrescentou Hairabed.

¾”Não há mais dúvida. Foi Tomás Efendi quem delatou. É maldoso. E, esperto como ele é, percebeu facilmente as intenções de Salman. E para demonstrar a sua subserviência ao Governo Turco, não hesitou em denunciar Salman. Como ele se encontrava neste mesmo lugarejo onde também Salman estava, é mais do que provável ter mandado prendê-lo. Nós que conhecemos a alma perversa de Tomás Efendi, essas conclusões são mais do que plausíveis.”

Os três continuavam a andar lentamente, cada qual imaginando como libertar Salman.

¾”Vartan, tudo o que disse está certo” disse Hairabed,” mas o quê fazer agora?”

¾”Conheço bem a mentalidade dos Turcos. Em geral são relaxados, irresponsáveis e omissos. Por isso acredito que libertar Salman não será tão difícil assim. Vocês conhecem meus dois companheiros. São rapazes corajosos. Hoje a noite vou convocá-los e iremos a cavalo procurar onde Salman está encarcerado. E conto com a covardia das sentinelas turcas para libertar o nosso amigo.”

¾”Também queremos ir com você. Não vamos deixá-lo sozinho”, exclamaram Hairabed e Abo."

¾”Agradeço muito, Não é preciso que vocês venham. É perigoso” respondeu Vartan.

E lembrando-se das palavras do mascate, resolveu esperá-lo por um momento.

¾”Vamos procurar lugar para sentar e descansar um pouco.        Andando depressa é difícil conversar e raciocinar.”

Vartan parecia cansado, desgostoso e triste. Uma emoção forte, aumentando cada vez mais, o transtornava.

Sairam da rua principal e encontraram uma cabana desocupada no meio de uma plantação de melões. Ninguém havia por perto para vigiar a plantação, pois os melões estavam ainda verdes e impróprios para o consumo. Essas cabanas são muito práticas. Servem para o camponês descansar durante o dia quando o sol está a pique ou para se proteger da chuva.

 A noite estava serena apesar da lua não aparecer. Ao longe viam-se as luzes das casinhas da aldeia de O... e de tempo em tempo ouvia-se o latido dos cachorros.

Vartan voltou a falar. Disse novamente que deveriam empenhar-se ao máximo para libertar Salman, pois certamente seria condenado a morte. Não queria Hairabed e Abo participando pois achava ser muito perigoso e as chances de sairem-se bem eram poucas. De qualquer maneira seriam perseguidos pela polícia turca. Com certeza, numa empreitada dessa natureza haveria muita luta e talvez mortes. Logo a polícia turca estaria nos seus encalços e eles, como cidadãos do Império Otomano, seriam perseguidos e suas esposas e filhos molestados assim como o velho Khatchô. Ele, Vartan, como cidadão de outro país seria considerado estrangeiro, e como tal, poderia defender-se, contando-lhes a sua própria versão dos fatos e ser solto. Ou poderia fugir, pois conhecia todos os caminhos que levam para seu país de origem. Os irmãos escutaram atentamente os argumentos do valente companheiro e responderam ao mesmo tempo:

¾”Trocaremos de roupa e os Turcos não nos reconhecerão!”

¾”Nada vai adiantar. Não faltarão indivíduos iguais a Tomás Efendi para denunciá-los. A fim de agradar os Turcos, os Armênios daqui farão qualquer coisa, não levando em conta estar prejudicando seus próprios compatriotas. Infelizmente, o maior inimigo do Armênio é o próprio Armênio.”

Foi com voz pungente que Vartan pronunciou essas últimas palavras. Os acontecimentos do dia abalaram seus nervos. A angústia apertava seu coração. De um lado a prisão do jovem Salman, do outro a indiferença do povo; de um lado a tentativa de suicídio de Várvara, do outro as tramas diabólicas de Tomás Efendi. E ainda ele desconhecia as barbaridades cometidas na casa do velho Khatchô. Com todas essas preocupações esquecera de Lalai, a qual ele amava com todo seu coração. De repente, visualizou o rosto tristonho e suplicante de sua amada que lhe parecia dizer:”Onde você está? por que me abandonou? Você me deixou para salvar seu amigo querido? Eu também sou sua querida! Não é verdade que você  prometeu me  tirar daqui, me levar para bem longe? Estou com medo, com muito medo dos Kurdos e dos Turcos...

Terrível duelo irrompeu na mente de Vartan. Dois entes queridos estavam na sua frente; a mulher amada e o amigo tão especial. Ambos pediam ajuda. A vida dos dois, em perigo.

Vartan ignorava por completo as intenções do Bei Fattah para com Lalai. Em contrapartida, conhecia os propósitos torpes de Tomás Efendi e sabia que para alcançar o almejado, sempre sorrateiramente, não recuaria diante de obstáculo algum.

O silêncio se estabeleceu na pequena cabana. Pensamentos remoíam a mente de Hairabed. Ele sabia dos sentimentos entre Vartan e Lalai. Vartan queria salvar seu amigo. Poderia morrer ou ter êxito. Nos dois casos perderia Lalai, pois nesse ínterim Fattah Bei poderia raptar e levar Lalai para bem longe. Por quê não contar a realidade para Vartan? Mas como tocar nesse assunto se nem na casa do velho Khatchô suspeitavam do romance entre o jovem e Lalai, a não ser sua esposa Soná que descobrira por acaso? Os sucessivos acontecimentos haviam impedido Vartan revelar seus sentimentos. E agora empreendera tarefa deveras perigosa que o fazia esquecer até de Lalai. Todos esses pensamentos levavam Hairabed ao desânimo, ele que sonhava Vartan levando sua irmã para bem longe, fora do alcance de Fattah Bei.

De outro lado, o destino de Salman o atormentava. Gostara desse jovem destemido que sacrificava sua vida . Considerava-o tanto quanto Vartan. Deixá-lo nas mãos dos Turcos era condená-lo a apodrecer nas masmorras, a sofrer torturas desumanas e inimagináveis, até morrer. Seria falta de compaixão sacrificar Salman. Isso aconteceria se ele revelasse para Vartan as intenções de Fattah Bei e o perigo que ela corria. Na verdade tanto Lalai como Salman precisavam de ajuda urgentemente. A quem acudir primeiro? Aí estava o busílis.

Mas e Abô? o filho destemido da família do velho Khatchô, o que pensava de tudo isso naquele exato momento? Nada. Era o tipo de homem que se deixa conduzir desde que não seja no caminho da maldade. Era elemento precioso para cumprir qualquer missão por mais perigosa que fosse.

Por fim, Vartan revelou seu segredo aos dois irmãos. Contou-lhes, sem rodeios, o amor pela irmã deles. Disse-lhes ter prometido raptá-la e levá-la para longe dali, com o consentimento dela, é claro. Era obrigado a agir dessa maneira pois percebera que o Velho Khatchô negaria a mão da sua filha pois estava visivelmente interessado em concedê-la a Tomás Efendi.

―"Não vou lhes falar do caráter desse indivíduo, pois vocês o conhecem muito bem e viram hoje do que ele é capaz. Entregar a filha a Tomás Efendi é o mesmo que entregá-la a um cachorro. Porém a libertação de Salman tornou-se para mim idéia fixa. Gosto dele mais do que a um irmão. Além disso sinto-me responsável. Eu o encorajei nesse seu empreendimento. Vocês viram o entusiasmo dele e eu ainda o incentivei. Sinto-me responsável pela sua detenção e meu dever é salvá-lo. De outro lado" continuou ele "como abandonar Lalai? O safado de Tomás Efendi é capaz de obrigá-la a casar com ele amanhã mesmo. E aí, coitada da Lalai!"

Haraibed respondeu já saber de tudo isso. Sua esposa lhe contara tudo, inclusive o grande amor de                     um pelo outro. E ele próprio almejava ardentemente que Vartan raptasse Lalai e a levasse para longe e tinha certeza de seus irmãos pensarem da mesma forma.

¾"Não somente por causa de Tomás Efendi" acrescentou ele "mas também por um perigo muito maior".

¾"Que perigo?" perguntou Vartan

Hairabed contou tudo a respeito de Fattah Bei. Da sua intenção de raptar Lalai. Da intervenção de sua esposa, Khurchit, que mandara um recado para Sara a fim de afastar Lalai para o mais longe possível. Enfim contou tudo aquilo que Vartan desconhecia.

Vartan escutava com amargura e cada palavra lhe traspassava o coração, qual flecha envenenada.

¾"E vocês sabendo tudo isso nada me disseram ", disse ele bastante alterado. "Sem dúvida, estavam esperando que o Curdo seqüestrasse vossa irmã. E iam assistir a tudo com os olhos arregalados e somente então iriam perceber o tamanho da infâmia."

Neste momento Vartan compreendeu o sentido das palavras tão tristes e desesperadoras de Lalai, pois até agora não entendera o porquê de tanta tristeza. Lembrou da primeira noite que passaram juntos no jardim do pai dela quando, em vez de palavras de amor e esperança de uma perene felicidade, vertera lágrimas de seus lindos olhos e com desespero dissera:” não quero ir perto de Soná ...tenho pavor de cemitérios...me salve e me leve daqui para bem longe” . Portanto ela sabia da ameaça pairando no ar e, por isso, contara com tanto pesar a história de Narkis, da maneira como fora raptada e levada pelos Kurdos e da existência infeliz e penosa que estava vivendo.

Há momentos quando o Homem diante do desespero, do infortúnio e da desventura, reúne forças inesperadas e torna-se mais frio, mais determinado e até consegue menosprezar os golpes desferidos pelo destino mesmo quando o infortúnio chega ao extremo. É neste estado que se encontrava Vartan. Não se incomodava mais com seus próprios ideais , sua sensibilidade, sua agitação espiritual. Deixara de torturar sua mente. Agora estava tudo claro e sabia o que deveria ser feito. A amizade vencera o amor. A perda do amigo significaria o desmoronamento de todo um ideal, da defesa do camponês contra o opressor. E isso abrangia não somente a salvação de Lalai mas também de milhares de moças e mulheres. Nessas circunstâncias por quê se preocupar somente com Lalai e abandonar o amigo?

¾”Resumindo”, disse Vartan,”Vou fazer de tudo para salvar  Salman e em seguida pensar como salvar Lalai. Eis meu plano...

¾”Não precisa de plano algum!” disse uma voz vindo do fundo da cabana. E a descomunal silhueta do mascate apareceu.

Ao vê-lo Vartan sentiu uma imensa alegria, enquanto Hairabed e Abô demonstravam surpresa ao perceber que um estranho ouvira toda a conversa. Nada sabiam a respeito deste último, mas tranqüilizaram-se quando viram Vartan o abraçando, dizendo:

¾”Não tenham medo, é dos nossos!”

Mas Melik-Mansur não se parecia nada com aquele mascate maltrapilho. Vartan mal o reconheceu trajado com belo uniforme e devidamente armado.

¾”Não posso me demorar muito”,disse ele,”vocês perceberam que  nosso amigo caiu numa armadilha.”

¾”Estávamos justamente falando disso”, respondeu Vartan.

¾”Vocês podem ficar sossegados, daqui a um ou dois dias ele será libertado. Vocês só pensem em nossa causa”, disse Melik-Mansur, afastando-se.

¾”O Sr. está sozinho?” perguntaram.

¾”Não. Meus amigos estão me esperando”, respondeu Melik-Mansur, mostrando a montanha, onde na escuridão da noite, no meio de denso nevoeiro, distinguiam-se silhuetas de vários cavaleiros.

¾”Quem são eles?” perguntou Vartan.

¾”São moços que moram nas montanhas” respondeu Melik-Mansur afastando-se.”Até logo”.

Vartan gostaria de fazer-lhe algumas perguntas mais, mas Melik-Mansur já se fora.

Hairabed e Abô estavam pasmos, pois nada sabiam sobre a verdadeira identidade do mascate. Vartan lhes deu todos os esclarecimentos e os dois se convenceram que Melik Mansur, com certeza, salvaria Salman. Por fim os três se levantaram e tomaram o rumo de casa.

Enquanto isso, Sakô e Yeghô, os fiéis companheiros de Vartan, tinham cavalgado o dia inteiro à procura do chefe, a fim de preveni-lo do perigo de entrar na fazenda do velho Khatchô. Mas até então, sem êxito.

¾”O negócio vai mal”, disse Yeghô ao seu companheiro. “Temos de tomar cuidado para não sermos presos também. É aí que não vamos poder prevenir o chefe”.

¾Eu também acho, respondeu Sakô.

Os dois postaram-se nas imediações da fazenda do velho Khatchô, a espera de Vartan.