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CAPÍTULO XXX

A noite estava bem avançada quando Vartan, Hairabed e Abô voltaram à fazenda. Ignoravam o acontecido durante suas ausências. Entraram na residência sem nada suspeitar. Imediatamente a porta cerrou-se atrás deles e duas sentinelas postaram-se diante dela. A maioria dos guardas e o sargento, estava dentro da casa. Às vezes alguns deles voltavam ao pátio e tais cães farejadores procuravam algo mais para roubar. Todas as mulheres e crianças refugiaram-se nas casas de vizinhos ou parentes. Isso já se tornara um hábito, pois tão logo uma casa estivesse sob suspeita e na iminência de ser invadida por guardas turcos, as mulheres fugiam e se refugiavam nas casas vizinhas.

Mesmo estranhando o ambiente, Vartan não atinou pois era comum os guardas acamparem na fazenda quando seus chefes vinham visitar o dono da propriedade. E quando um camponês recebia esse tipo de visita mandava sem demora esposa, filhas e noras para as casas adjacentes pretendo preservá-las da cobiça de seus convidados turcos, caso estes fossem bastante compreensivos. Quando não o Turco encostava a ponta da espada na garganta do infeliz Armênio, obrigando-o a retê-las para satisfazer seus baixos instintos.

Um dos irmãos de Hairabed, encontrando-o gritou raivoso:

¾ “Está vendo a dor de cabeça que arrumou com o seu “engraçadinho”? Agora, diga-me...! O que vamos fazer? Desde o primeiro dia eu queria pegar aquele vagabundo pelos colarinhos e enxotá-lo fora de casa. Mas você, como defensor do diabo, sempre o protegeu. Agora responda!... Fala alguma coisa!

Hairabed, vendo o irmão se referir a Salman não respondeu. Foi Vartan que interveio dando risada:

¾”Escuta aí! nos também caímos na armadilha.”

Logo alguns guardas aproximaram-se e levaram os três para sargento, no odá. Tomás Efendi já fora embora, atender ao convite de Padre Maruk, após ter deixado suas últimas recomendações ao sargento. Encontravam-se somente o sargento, o velho Khatchô e dois guardas em cada lado da porta do odá. Vartan, sem esperar a ordem do graduado, foi sentar-se perto do fazendeiro, enquanto Hairabed e Abô permaneciam de pé.

A desenvoltura de Vartan desagradou o Turco que o interpelou de modo ríspido:

¾ ”De onde você é, seu Armênio?"

Pronunciou a palavra " Armênio", como xingação”.

¾ ”Sou Russo”, retorquiu Vartan, contendo-se.

¾ ”Para que fim você está aqui?”

¾ ”Faço negócios por estas bandas.”

¾ ”Tem passaporte?”

¾ ”Tenho, mais o perdi.”

¾ ”É fácil verificar. É só dizer por onde e quando atravessou a fronteira. Tudo deve estar registrado.”

¾ ”Nós, contrabandistas não costumamos freqüentar as alfândegas. E sabe de uma coisa, eu nunca tive passaporte.”

¾ ”Fosse somente o fato de ser contrabandista você já estaria solto. Há algo muito mais grave.”

¾ ”O quê por exemplo?”

¾ ”Você é espião!”

¾ ”É verdade. Parece que Tomás Efendi lhe encheu a cabeça: é pessoa fidedigna” respondeu Vartan com um sorriso irônico.

¾ ”Não faz diferença se foi esse ou aquele que nos preveniu” retorquiu o sargento esforçando-se para manter seu sangue frio. “Não queremos, em nosso país, pessoas suspeitas, ainda mais agora que estamos em guerra. E basta! Vamos trancá-los aqui por esta noite e amanhã de manhã levaremos vocês ao Quartel General”.

¾ ”Se era para me levar ao Quartel General, por que todas essas perguntas? Se forem eles que vão me julgar, vocês podiam me prender e só. Mas vocês são assim. Até o último dos guardas quando prende um cidadão qualquer, faz questão de interrogá-lo, como se fosse juiz de tribunal”.

O sargento não gostou da resposta, mas não deixou transparecer. Chamou os guardas e mandou levar o preso. Vartan deixou-se acorrentar e levar sem protestar. A seguir o sargento voltou-se para Hairabed e Abô:

¾ “Vocês são culpados de antemão. Não precisam nem ser interrogados. Levem e trancafiem esses dois idiotas.”

O velho Khatchô parecia anestesiado. Assistia a tudo sem distinguir o real do fictício. Por quê Tomás Efendi mentira para ele? Seria simples comédia montada como assegurara?

Levaram os três inculpados a uma espécie de silo que servia para guardar trigo, e os encarceraram. Era construção sólida. O chão e as paredes constituídos de enormes paralelepípedos colados uns aos outros de tal maneira que nem camundongo poderia passar por eventual buraco. As clarabóias estreitas e protegidas com grade, para evitar a entrada de passarinhos. Assim o trigo estava devidamente protegido. Era local ideal para encarcerar presos por uma noite. Num canto havia uma lamparina difundindo tênue luz.

Hairabed e Abô se mantinham em silêncio. A consternação e o medo estavam estampados em seus rostos. Tinham ouvido falar da crueldade dos policiais turcos quando prendiam uma pessoa qualquer, cristão de preferência, e o culpavam por crime não cometido ou por motivo insignificante. Na prisão era torturado até a morte, sobretudo se fosse Armênio e suficientemente rico. E agora havia provas suficientes para incriminá-los. Como souberam? Quem os tinha delatado? Ainda não tinham chegado a uma conclusão.

Em contrapartida Vartan parecia calmo. Aquela mesma calmaria do mar, que antecede a uma terrível tempestade.

¾ ”Vou lhes contar uma pequena história que, talvez, explicará tudo que está se passando: Os súditos do Rei das Árvores informaram-lhe haver surgido uma ferramenta nova que estava arrebentando tudo impiedosamente." "Qual o nome dessa ferramenta?" perguntou o Rei "Machado" responderam as árvores."Como é feito?" quis saber o Rei."A cabeça é de ferro e o cabo de madeira.” “Então é ferramenta muito perigosa,pois o cabo é nosso.”

¾ ”O cabo é nosso...” repetiu Vartan, dando ênfase à palavra “cabo”. Estamos sendo oprimidos, atormentados, torturados e massacrados. E o maior culpado é o Armênio! Há muitos Tomás Efendis entre nós, de simples coletores de impostos a ilustres “Amirás[1]” prestigiados pela Sublime Porta, prontos para nos prejudicar. Infelizmente, tivemos sempre “cabos” assim na História da Armênia. Por exemplo quando se fala de traição, há sempre um Armênio envolvido. Quando aprendemos que um dos nossos reis foi destronado e fomos submetidos por outra potência, há de novo um Armênio no meio. Quando um rei é obrigado a abrir as portas de sua capital e entregar as chaves de seu reinado, de novo um Armênio está presente. Quando o solo pátrio fica coberto de sangue de nossos compatriotas e suas casas são incendiadas, lá está ele outra vez. Em resumo, todas as barbaridades perpetradas pelos nossos inimigos, os massacres as perseguições são sempre cometidos com o auxílio  de um Armênio. Foi ele que destruiu com as próprias mãos nossas instituições. Então por que achar ruim dos estrangeiros?”

Abo e Hairabed estavam tristes e abatidos. Por fim este último perguntou:

¾”Então, tudo acabou? Nem começamos a concretizar o nosso sonho e já está tudo por terra?”

¾”Já estava prevendo tudo isso que está acontecendo, e seria idiotice da minha parte esperar outro desfecho a não ser este” respondeu Vartan. ”Mesmo Salman, com todo seu entusiasmo, duvidava do êxito do empreendimento. Me lembro até hoje, palavra por palavra, ele me dizer:”Quando um movimento de emancipação se assemelha para alguns a simples devaneio, e não se alastra pelo povo, é muito fácil acabar com ele: basta eliminar o cabeça, o instigador. Mas se ao contrário, se propagou pelo povo e criou raízes, aí é uma outra história: é impossível detê-lo. Nós, agora, estamos semeando e não colhendo. Vamos deixar a colheita para a próxima geração.” “É com esse propósito que ele insistiu para abrir escolas. Mas não vão pensar ter ele alguma intenção de rebelião. Ele queria mudança. Um dia, ele sempre tão sisudo, disse sorrindo:”Veja bem Vartan! Nós nos propusemos a educar o povo, apesar de não sermos tão instruídos assim, vamos aprender muita coisa com ele. O povo é grande professor. Em quase todos seus ditos há muita filosofia. Veja este por exemplo referindo-se ao relacionamento com o Turco:” Tente ser amigo do cão, mas sempre com uma pedra na mão” Este dito contêm tudo para convivermos com os Muçulmanos, verdadeiros cães. E para se desvencilhar de suas presas, é preciso ter sempre uma pedra na mão.” Por isso Salman queria que o povo se armasse para poder se defender.”

Hairabed e Abô prestavam muita atenção ao que Vartan dizia. Tinham esquecido onde estavam e o terrível castigo que iriam receber ao entrar na prisão. Eles se concentravam nas palavras de Vartan explanando as misérias do povo. Muitas vezes escutaram os discursos do Salman, mas nunca entenderam tão claramente como agora.

Vartan parecia revigorado com a idéia de ir para a prisão: não conseguia parar de falar. Preso várias vezes,  sempre saíra do xadrez bastante deprimido. Mas agora se sentia bem. Assemelhava-se àquele condenado a morte olhando com profundo desprezo esse mundo injusto e zomba da tolice dos homens dizendo para si mesmo:"Eis aí tudo do que são capazes! O que podem fazer mais do que isso? Podem destruir  nosso corpo, jamais a nossa mente!"

―"Faça o possível para conviver com os cães, mas nunca deixa de ter um pedra na mão!" continuou Vartan. "Que frase mais a propósito! É a partir daqueles pensando desse modo que a Mãe Natureza criou os monstros, monstro igual a mim. Vocês, meus amigos, ainda não me conhecem direito. Mas como esta noite pode ser a última que passaremos juntos, prestem bem atenção ao que vou lhes dizer. Sou daqueles que, bem cedo, aplicaram ao pé da letra a máxima: "Olho por olho".  Muitas vezes fui obrigado a matar, mas nunca derramei o sangue de inocente. Eu era eclesiástico e a única coisa que conservei do Velho Testamento foi justamente essa máxima:”Olho por olho”. E quando ao ler a Bíblia, soube que Moisés, profeta de Jeová, imbuído de patriotismo, matou o Egípcio que perseguia o Judeu e enterrou o corpo nas areias das margens do rio Nilo, meu coração se encheu de ódio. Comecei a execrar aqueles que perseguiam os Armênios.Quando soube que Moisés, profeta de Jeová, conseguiu aniquilar vários povos, tomar posse de Jerusalém e instalar o seu povo no lugar dos que ali habitavam, cheguei à conclusão que nós também deveríamos pensar da mesma forma para com os Turcos e os Curdos que se apossaram das nossas terras, herança dos nossos antepassados. Isso é a própria lei da Natureza que Salman tentava nos explicar tomando como exemplo as plantas. Há espécies de plantas que oprimem, sufocam e destroem outras, para tomar o lugar delas. É exatamente a mesma coisa acontecendo para nós. Se não quisermos ser varridos da face da terra, precisamos estar preparados para enfrentá-los. A isso se chama sobrevivência. É justamente isso que Salman estava pregando. Eu, pessoalmente, rezo de corpo e alma por essa cartilha. É possível moralistas e clérigos me chamem de criminoso, facínora ou bárbaro. Não me importo. Seguirei o caminho que a Natureza traçou. Mas, se por ventura os homens cessarem de ser maus, a paz reinar e todos se amarem conforme os ensinamentos de Cristo, serei o primeiro a abraçar meus inimigos.”

E Vartan continuou falando assim até a luz da lamparina empalidecer, vacilar e por fim desaparecer.

A escuridão tomou conta da cadeia improvisada.


 


[1] AMIRÀ: Grande dignitário, Armênio e cristão, do Império Otomano, tendo uma enorme influência sobre o Sultão, do início do século XVIII até o meado do XIX.