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CAPÍTULO XXXII

 Voltando à sala Zulô percebeu nada haver mudado. Os três homens estavam alí sentados e o padre começara a cantar acompanhado pelo genro que estava se passando. Zulô pensou se devia ou não avisá-los a fim de conseguir pequena ajuda que fosse, e por fim, não agüentando mais, pois sentia muita dó dos vizinhos, aproximou-se do padre e cochichou tudo que tinha visto. Só não mencionou os nomes de Sara e Stepanig. Instintivamente, achou não dever tocar nesse assunto.

Conforme costume dos camponeses armênios, mulher não pode dirigir a palavra à estranhos. Conseqüentemente, nenhum dos dois convidados prestou atenção ao que se passava e nem se interessaram pelo que estava sendo cochichado ao padre. Somente quando perceberam a palidez tomar conta do rosto do padre e um tremor involuntário sacudir seu corpo, que notaram então algo estranho estar acontecendo.

_ “ O que foi, padre?”

_ “ Malditos sejam!  Aqueles assassinos! Que a maldição dos doze apóstolos e dos trezentos e sessenta e seis patriarcas recaiam nas suas cabeças” esbravejou o padre levantando os braços para o céu.

_ “ Mas o que aconteceu?” voltou a perguntar Tomas Efendi.

O padre contou o que acabara de ouvir e pediu a Tomas Efendi  intervir e ajudar os infelizes.

Há pessoas quando diante da desgraça alheia, ao invés de buscar solução rápida, procuram argumentos para justificar os acontecimentos e permanecer com a consciência tranqüila. É verdade ser esses argumentos dependentes do ponto de vista de cada um. Tomas Efendi, homem perverso e desalmado, aprovava de corpo e alma essas iniqüidades e justificava todos os seus argumentos com frases rebuscadas, na realidade apenas sofismas.

_ “ Diga-me, padre, uma pessoa ajuizada faria o que o velho Khatchô fez? Afinal acolheu na sua casa um agitador que tentava encher a cabeça dos pobres camponeses com baboseiras. Não acha isso insensatez?”

_ “ É verdade! É insensatez, enorme insensatez”, respondeu o padre, “ Mas castigar dessa maneira os pobres camponeses que nada têm a ver com isso? Nosso vizinho Zakô é um bom homem, humilde e submisso. Nunca fez mal a ninguém e tem medo até da própria sombra. Então, porque castigá-lo desta maneira, ele e a sua família?”

_ “ Quando há incêndio na floresta, plantas viçosas e ervas daninhas queimam da mesma maneira. Não há possibilidade de separá-las”, respondeu Tomas Efendi  admirado por ter proferido frase de tanta sabedoria “ Quando Deus manda uma praga para castigar os homens a fim de purificá-los de seu pecados, não separa crianças dos velhos, bons dos maus. O mesmo acontece com a ira dos nossos governantes.”

Diante de argumento tão convincente, o padre ficou calado, atônito e esqueceu até do vizinho Zakô. Pois era verdade. Quando Deus castigava os homens com praga como  peste ou  cólera, não fazia distinção entre bons e maus. E, de repente, uma dúvida veio atormentá-lo.

_ “ Se os Turcos matarem e incendiarem todas as casas dos camponeses armênios, como vou receber aquilo que me devem?”

_ “ Não se todo o devido. Mas, voltando ao velho Khatchô, o Sr. não acha ele culpado?  Não merece castigo?”

As atenções de toda a aldeia estavam voltadas para a fazenda do Velho Khatchô e, apesar de não estarem a par do que estava acontecendo, todos o condenavam e a maioria pensava assim :”Para que por arma na mão de um Armênio: não saberá usá-la. É como por caixa de fósforos  na mão de criança: certamente queimará os dedos.” O padre apesar de pensar mais ou menos da mesma maneira, não quis responder à pergunta de Tomás Efendi e disse:

¾”Só sei de uma coisa, filho. Quando os Judeus, armados com espadas e lanças, vieram para prender o Nosso Senhor Jesus-Cristo, o apóstolo Pedro puxou  sua espada e golpeou o servo do grande Rabino, cortando-lhe a orelha. Incontinenti, Jesus repreendeu Pedro dizendo-lhe para  recolher a espada pois”quem com ferro fere com ferro será ferido”. Não podemos ignorar este dito se quisermos permanecer Cristãos.

¾ “ Meus parabéns, padre. O Sr. entendeu tudo. Mas, leu os livretos de Salman?”

¾ “ Li. Por acaso um deles caiu nas mãos de meu genro que logo o trouxe aqui para lermos juntos. E lemos, lemos, lemos e nada entendemos. Eu sempre digo: filhos de Deus, se vocês vão escrever, que seja algo legível, fazendo bem ao corpo e à alma, e purificando seus pecados, e não elucubrações vazias que servem para nada. Está aqui meu genro para confirmar o que lhe digo, não é Simão?”

O genro todo envaidecido em mostrar sua cultura disse:

¾ “Tudo aquilo é coisa do diabo. Eles podiam ter escrito algo sobre a vida dos apóstolos para o povo  conhecer melhor esses Santos Mártires. Mas assim mesmo estou muito contente por Vartan estar preso. Um dia teve o topete de entrar na minha sala de aula gritando:”Quem é você para ensinar algo? Você está estragando as crianças! Vai levar os burros para pastar, vai!” Isso é coisa que se diz? Parece que ele sabe mais do que eu!”

¾”O coice do burro machuca mais que o do cavalo” disse Tomás Efendi.”Aquele Vartan ofendeu a mim também, várias vezes.”

Assim, padre, professor e funcionário do Governo expunham seus pareceres a respeito dos lamentáveis acontecimentos da tarde, ninguém se importando com que se passava na casa do vizinho Zacô, tampouco com o acontecido ao velho Khatchô e sua família. Este homem que sempre protegera e ajudara todos os camponeses de sua cidadezinha, estava sendo criticado por esses últimos julgando-o culpado. É preciso dizer: estavam apavorados, esperando o pior. Somente Tomás Efendi, autor de todas essas urdiduras diabólicas, estava contente e orgulhoso, pois estava vendo frutificar o que plantara .

¾”Repito para vocês,” continuou Tomás Efendi como se fora importante tecnocrata do Governo,”os camponeses vão sofrer muito. Os tempos mudaram. Em todo lugar há preparativos de guerra. E em tempo de guerra, qualquer movimento suspeito é castigado com extremo rigor”.

Ao ouvir a palavra “guerra”, o padre começou a tremer, não pelo sofrimento dos camponeses, mas pelo dinheiro que deixaria de receber.

¾”Se realmente a guerra for declarada”, disse o padre, “o Governo vai aumentar tanto os impostos e os camponeses não vão conseguir pagar e aí poderei dizer adeus ao dinheiro que me devem.”

¾”Não se amofine, padre!” disse Tomás Efendi “o Sr. receberá  seu dinheiro antes da declaração de guerra.”

Nesse momento o professor Simão levantou-se  e aproximando-se do sogro cochichou. Estava novamente falando do dinheiro a receber dos alunos, mas o padre pediu-lhe paciência.

¾” Padre”, prosseguiu Tomás Efendi “o burro em si não vale nada, mas sua crina pode servir de escova. Sem dúvida o Sr. conhece esse provérbio. Pois é, o camponês também é assim. Pode andar vestido de trapos, descalço, mas se for comprar uma roupa, comprará o melhor com o suor de seu trabalho. Pode não ter nem um pedaço de pão para comer, mas oferecerá mesa farta para qualquer pessoa, se for rica ou importante. Mas o senhor, padre, não sabe lidar com eles. Se soubesse, hoje não faltaria  mezê para acompanhar o arak”.

Esta última frase atingiu o padre que respondeu com amargura:

―”O que o Sr. quer? Nós, padres, temos as mãos atadas. Não possuímos, como o Sr., um bastão para surrá-los ou pelo menos amedrontá-los. As nossas armas são pueris. O que O Sr. quer que eu faça? Muitas vezes fico com tanta raiva que começo amaldiçoá-los. Mas eles não se importam. Perderam o temor a Deus. E além disso, quais armas tenho? Mas eles também não têm culpa. Pois além dos impostos e taxas, têm ainda os Curdos, esses ladrões sem vergonha. Eles chegam e roubam o pouco que os camponeses têm. Malditos sejam! Não fossem eles, eu poderia receber alguma coisa e pouca gente me estaria devendo. E agora a guerra começando vão virar verdadeiros animais.”

"―”O burro será sempre um burro, mas a mula é má” sentenciou Tomás Efendi naquele seu jeito de filósofo.”Os Curdos são tão ruins como as mulas pois são gente sem eira nem beira.”

Na concepção, não somente de Tomás Efendi mas também dos Armênios, os Curdos são maldosos e perversos pois tais como as mulas, são bastardos. Na verdade , se os Curdos não mantiveram as raízes de sua raça, criaram, em compensação, uma raça mais robusta e mais bonita ao se mesclar com os Armênios. Durante séculos raptaram moços e as moças Armênios, sempre os mais garbosos, as mais bonitas e as mais esbeltas (os Curdos apreciam muito mulheres de estatura alta). Em contrapartida, os Armênios perdendo pouco a pouco o que tinham de mais bonito, tornaram-se mais feios. Aquele que se der ao trabalho de pesquisar a evolução das raças curdas e armênias (na Turquia), vai notar a forte semelhança entre ambas. O Curdo é nada mais nada menos, um povo elaborado a partir da população Armênia.

Já passava da meia noite. Zulô estava sentada ao lado da cama de seu filho doente, longe dos homens cuja conversação ela ouvia sem prestar atenção e a aborrecia. Estava esperando com impaciência que fossem embora para poder ir perto da Sarah e de Stepanig e ver como estavam.

Mas Tomás Efendi não manifestava intenção de ir embora, pois tinha ainda muita coisa a discutir com o padre e a presença do professor o impedia. Por isso pretextou dever se retirar visto ter de levantar bem cedo no dia seguinte para cuidar de seus afazeres. O professor Simão, caindo de sono, aproveitou a deixa e se despediu.

O padre voltou-se para Tomás Efendi e disse:

¾”Coitado. É mais culto que sete padres juntos, mas infelizmente gosta de beber. Percebeu com leu direitinho a lista dos devedores?”

¾”Está falando do professor Simão?” perguntou Tomás Efendi “sim, sim, leu muito bem.”

O fiscal não estava interessado no professor Simão e nem no seu alto grau de instrução. Viera especialmente para falar sobre assunto que lhe interessava sobremaneira.

Nesse ínterim o padre, talvez por efeito da bebida ou do calor, tirou o paletó. A manga ficou presa num prego e rasgou.

"―Padre” disse Tomás Efendi “esse casaco está muito velho , por quê não manda fazer outro?”

"―Que Deus o abençoe, meu filho. Mas como mandar fazer outro? O Sr. viu a lista dos devedores. Este paletó pertenceu ao finado Garabed Efendi. Fui rezar no seu enterro e em pagamento me deram este paletó. Já se vão sete anos. Desde então, estou pagando meus pecados pois não morreu mais nenhum rico.

"―Vou lhe presentear novo casaco. O Sr. é bom homem, padre. Assim ao vesti-lo o Sr. lembrará de mim e me abençoará.

"―Que a benção dos trezentos e sessenta e seis patriarcas se derrame na sua cabeça!” exclamou o padre e iniciou uma oração. Ao terminar acrescentou:

"―Porém tenho um pedido a lhe fazer. Para nós, Armênios, o Sr. é uma sumidade. Somos todos orgulhosos e damos graças a Deus todos os dias por termos em nosso seio pessoa tão importante como o Sr. que tem a possibilidade de falar a qualquer hora com prefeito, governador ou ministro. Portanto lhe suplico pelo amor que o Sr. tem ao nosso povo, à nossa fé cristã, intervir perante as autoridades e  poupar o Velho Khatchô e sua família. Se o Sr. quiser consegue que o culpem. Mas são uns inocentes, boa gente, Armênios cristãos como nós. Seja quais forem seus pecados, temos a obrigação moral de encobri-los, pois são nosso sangue. Não aprovo o que fizeram mas “que jogue a primeira pedra aquele que não tem pecado”.

As palavras do padre não sensibilizaram o coração de Tomás Efunde, porém serviram de pretexto para entrar no assunto para o qual viera. Sendo assim respondeu ao padre ter condições de salvar a família do Velho Khatchô e nunca deixar tocar um fio de seu cabelo, mas somente se o ancião, por seu turno, atendesse ao seu pedido. Lembrou o padre das confidências feitas no ano anterior a respeito de Lalai e confessou que a partir de então se apaixonara perdidamente pela moça a ponto de  querer ela se tornar sua esposa. Se o Velho Khatchô aceitasse sua proposta, ele certamente os ajudaria. Caso contrário se desinteressaria completamente pelo sucedido e deixaria tudo transcorrer dentro da lei. O que significaria, sem dúvida alguma, a ruína dele. Portanto pedia ao padre para ir à fazenda do ancião e formalizar o pedido de casamento, antes de ser tarde demais.

Um sentimento imenso de alegria encheu o coração do padre que respondeu:

"― Amanhã mesmo, bem cedo, irei à fazenda do Velho Khatchô e transmitirei seu pedido. Tenho certeza que dará mil graças a Deus e acenderá inúmeras velas por ter a felicidade de conseguir genro igual ao senhor.”

Um sorriso diabólico apareceu nos lábios de Tomás Efendi que respondeu com certa ironia:

"― Se conseguir o que lhe pedi, eu lhe darei o novo casaco.”

"― E o dinheiro dos devedores?”

"―Não se preocupe com isso, padre.”