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CAPÍTULO XXXIV

Voltemos ao início da nossa história.

O leitor agora identificou quem durante o terrível período do sítio ao forte de Bayazid, aceitou levar a carta que salvaria a vida de seus companheiros, e que atravessando incólume o cerco dos Turcos, entregou após alguns dias a carta ao general russo Der Ghussakov. O leitor também deve se lembrar que o moço se recusou a permanecer no exército russo apesar de lhe terem oferecido funções de guarda costa do General, com alta patente. Alegou dever partir para salvar a vida de pessoa querida em perigo, e seguiu seu caminho.

Após ter matado um Curdo e ter-se apossado de seu cavalo rumou direto para a região de Alachguerd. É lá que se encontravam as pessoas as quais ele mais gostava. Era a fazenda do velho Khatchô onde passava os melhores momentos da sua vida, a linda Lalai para a qual tinha entregue o seu coração e os seus melhores amigos com os quais, além de passar bons momentos, tinham jurado sacrificar-se pela boa causa.

Mas o que sobrara de tudo isso após a detenção de Vartan que saíra da fazenda acorrentado? O velho Khatchô e seus filhos estavam na cadeia. O resto da família estava espalhada, cada qual escondido nas casas dos vizinhos. A sorte de Lalai poderia estar nas mãos de dois abutres: Tomás Effendi e o Bei Fattah. Salman estava encarcerado. Melik-Mansur prometera salvá-lo. Teria conseguido? Vartan não sabia. Tantas coisas aconteceram durante esses últimos quarenta cinco dias! Os Russos tinham declarado a guerra aos Turcos. O general Der Ghussakov conquistara a cidade de Bayazid e a província de Alachguerd e se aproximava de Erzerum. A população armênia, oprimida e tiranizada pelos Turcos, ao ficar sob o domínio dos Russos começou a respirar. Mas, de repente, a sorte mudou. O general Der Ghussakov teve que se retirar das províncias conquistadas e voltar às fronteiras da Rússia. E Bayazid, conquistada no dia 18 de abril, voltou ao domínio turco no dia 27 de junho. Vartan ignorava o acontecido após a retirada dos Russos.

Dois meses antes, Vartan estava acorrentado, montado num cavalo, cercado de guarda turcos, para ser levado ao cárcere. Mas antes de chegar lá, os dois guarda-costas de Vartan, ou melhor dizendo os dois capangas, interceptaram o comboio e num feito audacioso conseguiram livrar o seu chefe. Porém, este último saiu ferido. Levaram-no do outro lado da fronteira turca, na Rússia. Assim ao estar mais ou menos restabelecido passou novamente a fronteira e entrou na milícia armênia, acompanhado pelos seus dois capangas. Foram então parar no forte de Bayazid onde Sakô e Yeghô foram mortos. O resto da história já sabemos.

Agora triste e solitário, Vartan voltava ao lindo vale onde se situava o vilarejo. Que linda paisagem se desfrutava do vale algumas semanas antes! Que lindo panorama aqueles campos e colinas verdejantes apresentavam. O vale inteiro ficava coberto das hastes do trigo amadurecido que a brisa agitava: parecia um mar de ouro. Via-se nas encostas, o rebanho de ovelhas espalhado qual formigas. Ouvia-se de longe o som das flautas, lindas melodias, ás vezes até inventadas pelos pastores. A Natureza pródiga e o Homem com seu trabalho, mancomunados, realizavam o milagre da terra. Mas agora tudo mudara. O vale inteiro transformara-se num deserto enlutado. O fogo devorara todas as plantações cobrindo a totalidade do vale com cinzas enegrecidas. Quem causara tanta maldade? Quem aniquilara tudo aquilo, fruto de tanta dedicação e de tanto amor? Vartan não conseguia entender. Procurava vislumbrar qualquer lugarejo de outrora que hoje se tornara um monte de cinzas. Não havia mais vida. Não se ouvia mais o canto alegre do camponês arando as suas terras. O gado desaparecera. Tudo era silêncio. Parecia que o Anjo da Morte passara por ali, destruindo tudo que o homem elaborara com tanto suor e esforço. O que teria acontecido?

O sol de Julho estava escaldante. Era pouco mais do meio dia quando Vartan adentrou em O ..... A aldeia se assemelhava às cidades lendárias onde a maldição de uma bruxa transformara tudo em ruínas. As casas onde as pessoas moravam e trabalhavam tinham se transformado em cemitério. Tudo desaparecera sob os escombros. Vartan qual zumbi, vagueava pelas ruas desertas. Aqui e acolá subsistiam restos de cadáveres. Na verdade, terrível catástrofe se abatera sobre a aldeia. Mesmo o lugar da igreja se confundia com o resto dos destroços.

Continuou andando e chegou à casa do Velho Khatchô. Sobravam apenas as quatro paredes e mesmo nelas, havia enormes buracos. Adentrou e deparou com uma cena desoladora. Aquele lindo pomar onde nos dias de sol abrasador sentava debaixo das árvores cuja sombra o protegia dos raios de sol, onde namorara Lalai, não existia mais. E ela onde estaria agora? É por ela que chegara até aqui. Viera busca-la. Será que Fattah Bei a raptara? Ou os guardas turcos a tinham levado para estuprá-la? De repente, ficou todo arrepiado ao imaginar tudo que poderia ter acontecido. Aquele moço forte e destemido desmoronou como se fora atingido por raio. Sua vista escureceu e seu coração disparou. Deixou-se prostrar suas mãos na cabeça e mergulhou em profunda letargia. Sonhou com o rosto do ente querido, aquele rosto triste e desesperado com olhos cheios de lágrimas. Rememorou aquela noite em que se encontraram no pomar. Ela o abraçara e dissera, aflita: "Me leva daqui, me tira deste país. Tenho medo dos Curdos e dos Turcos.” Por que Vartan não a levara? Por que a deixara ali? Vartan não conseguia raciocinar direito. Tudo se confundia na sua mente.

Mas quantas lindas lembranças lhe proporcionavam estas paredes em ruínas. Não fazia muito tempo que elas estavam aprumadas, sólidas, e dentro delas vivia uma grande família, trabalhadeira e feliz. O que teria acontecido? Onde estava toda essa gente? Olhava para a imensa sala onde as noras, as filhas e os netos do velho Khatchô se movimentavam, as mulheres atarefadas em seus afazeres diários, as crianças correndo para cá e para lá, num ambiente feliz e alegre. Não se ouviam mais a gritaria das crianças e nem admoestações das mães. As paredes da sala estavam enegrecidas pela fumaça e o teto desabara.

A seguir, olhou para o ¨odᨠdo velho Khatchô que estava totalmente destruído e lembrou das reuniões com Salman, os filhos do fazendeiro e o velho Khatchô, discutindo sobre o sofrimento dos camponeses e sobre a maneira de aliviar seus tormentos e poder proporcionar-lhes vida melhor. E agora, nada restava de tudo isso.

De repente, Vartan avistou, ao longe, uns vultos. Até então não encontrara viva alma. Contente por encontrar, enfim, umas pessoas vivas Vartan foi ao encontro deles. Eram uns pobres Curdos, os quais, no meio das ruínas, picaretas na mão, procuravam o que sobrara do incêndio. Eram os pastores de ovelhas do velho Khatchô, acompanhados das esposas e filhos. Os homens cavavam o solo e as mulheres recolhiam qualquer objeto que fosse, pois muita coisa não havia sido queimada pelo incêndio.

¾"Que Deus lhes dê forças", gritou Vartan, saudando-os conforme os usos e costumes da região.

¾"Seja bem-vindo" responderam eles.

¾"O que estão procurando?"

¾"O Sr. está vendo com seus próprios olhos", responderam eles continuando a cavar.

Vartan voltando-se para um deles, lançou:

¾"Lembra de mim, Khelô?”

¾”Como poderia não lembrar, Agha? O Sr. era um dos melhores amigos do nosso patrão, o velho Khatchô. O Sr. costumava trazer mercadorias para vender e nunca esqueceu de presentear meus filhos com um brinquedo, Olhe para o vestido da minha mulher, foi também o Sr que deu o tecido. Vartan aproveitou-se da cordialidade do Curdo perguntando-lhe o que tinha acontecido, por que a casa estava neste estado lastimável, por que a aldeia estava em ruínas e o que acontecera com os moradores.

O pastor jogou a picareta no chão, limpou o suor que pingava da testa e sentou-se. Parecia que a narrativa seria longa.

¾”Não desejo ao meu pior inimigo o que aconteceu aqui”, começou com uma voz pesarosa."Não sabemos exatamente o que aconteceu. Estávamos com nossas ovelhas a pastarem, longe daqui. Ao escurecer voltamos com o gado e de repente apareceu um bando de Curdos que começaram a roubar nossas ovelhas. E, engraçado, minha mulher tinha tido um pesadelo na noite passada e eu esperava algo de ruim acontecer. Eu e meus companheiros corremos até a aldeia para pedir ajuda. Ao chegar deparamos com enorme incêndio: a aldeia estava em chamas! Os Curdos estavam em toda parte. Corremos para a fazenda do velho Khatchô: também estava em chamas.”

¾”O que aconteceu com os moradores da fazenda?”

¾”Tomara que não tenha acontecido nada! O velho Khatchô e seus dois filhos, Hairabed e Abô, foram detidos e encarcerados há alguns dias. Não sobrou nenhuma mulher por aqui. Não sabemos também dos outros irmãos. Ao chegarmos aqui, tudo estava em chamas. Nosso patrão era um bom homem. Temia tanto a Deus que era incapaz de matar uma mosca. Aliás, todos eram bons nesta fazenda. Malditos sejam os "Echirates" (tribos selvagens curdos que não respeitam ninguém, nem mesmo os da sua própria raça). Vieram e destruíram tudo."

¾"O que aconteceu com os aldeões?"

¾"Mataram uma boa parte, outros foram levados e servirão de escravos, alguns conseguiram escapar"

Para aquele que se afoga, até uma pequena tabua é possibilidade de salvação. Na narrativa do Curdo Vartan vislumbrou tênue réstia de esperança. "Ainda nem tudo está perdido" pensou Vartan. Cogitava que o velho Khatchô e seus dois filhos Hairabed e Abô, presos nos calabouços da casa de detenção deviam ter escapado do massacre perpetrado pelos Curdos , isto naturalmente se não tivessem sido antes executados pelos Turcos. Lembrava com uma leve esperança que quando as autoridades tinham colocado a fazenda do velho Khatchô sob vigilância, o ancião tinha enviado as mulheres e as crianças para as casas de parentes e amigos. Sem dúvida, Lalai estava entre elas. "Mas, pensou ele, e se essas casas tiverem sido incendiadas e seus ocupantes massacrados?". Porém uma frase do pastor curdo o deixava esperançoso : "Mataram uma boa parte, outros foram levados e servirão de escravos, alguns conseguiram escapar". Ansiava que a família do velho Khatchô tivesse escapado e naturalmente com Lalai. Mas para onde teriam ido? Para qual lado teriam fugido? Estas perguntas torturavam Vartan Os pastores não conseguiam esclarecer esse ponto. Tudo teria acontecido repentinamente, de noite, em total escuridão. Mas Vartan tinha reparado que os Armênios haviam desaparecido em toda a província de Alachguerd. Era impossível que tivessem massacrado ou levado todos eles para a escravidão. Isto significava que parte fugira. Mas para onde?