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CAPÍTULO XXXV

Vartan montou no seu cavalo e seguiu sem rumo. Não sabia para onde ir. As informações dadas pelos pastores eram tão confusas que não conseguia chegar a uma conclusão. O crepúsculo avançava e a noite estendia paulatinamente suas asas  negras em toda a região. Cenas, sempre as mesmas, não paravam de desfilar diante os olhos de Vartan: ruínas, casas desertas, lavouras arrasadas. Será que não sobrou nenhum Armênio em toda essa região, pensou ele. De repente, avistou, lá longe, um vulto humano. Locomovia-se lentamente na encosta da montanha, trôpego, parando, olhando ao seu redor e ás vezes agarrando-se a umas saliências para evitar de rolar para baixo. Por fim, alcançou de um penhasco que dominava o vale. A sua silhueta franzina delineava-se nitidamente naquela hora do crepúsculo. Estava lá, ereto, tal uma estátua, fixando o extenso vale, onde tinham acontecido os terríveis massacres, espalhando o terror e as ruínas. Parecia absorto a tentar resolver um assunto muito grave. Vartan não conseguir tirar os olhos dessa cena cujo desfecho pressentia. Puxou os freios do cavalo e parou para poder observar melhor.

O personagem, até aí petrificado começou a fazer gestos de desespero, fixou de novo intensamente as ruínas do vale, tapou os olhos com as mãos e a seguir atirou-se no abismo. Aquele corpo macilento, rolou encosta abaixo cada vez mais depressa, tal uma bola, ricocheteando nas pedras que encontrava no seu caminho, mas não conseguindo deter-se. Vartan esporeou o cavalo e partiu em socorro do infeliz. Em alguns instantes alcançou a base da montanha. As saliências, as pedras, as raízes tinham diminuído a velocidade da queda. Vartan, na esperança de salvar o suicída, esboçou um sorriso de contentamento. O corpo estava imobilizado a uns quinze metros e Vartan conjeturava sobre a maneira mais fácil de descer com ele. Apeou-se e procurou achar um caminho que o levasse perto dele. Mas não havia. O encosto estava coberto com pedras e raízes. O vulto continuava imóvel, inanimado. Qual seria o motivo desse infeliz em querer suicidar-se? Vartan estava transtornado com que vira e ansioso em descobrir o real motivo dessa desgraça.

Por fim chegou à conclusão que não poderia alcançar o local desejado onde as pessoa talvez estivesse ainda viva, sem arriscar a sua própria vida. O sentimento de compaixão o fez esquecer o perigo que ia enfrentar. Calculou que se as raízes e as saliências agüentassem o seu peso,. Poderia chegar lá. Vartan, tal uma cobra começou a rastejar. Agarrou-se à primeira saliência de pedra e avançou. Percorrera alguns metros apenas quando a raiz à qual se agarrara cedeu e ele rolou encosta abaixo. "Este não é um bom caminho" pensou ele, sem se importar com as escoriações sofridas e as mãos ensangüentadas.

Vartan era desse tipo de homem que ao encontrar alguma dificuldade , redobrava de esforço sem jamais esmorecer. Tinha pressa. O sol estava se pondo. Em alguns instantes a noite ia cair e seu empreendimento seria grandemente prejudicado. De repente, surgiu-lhe uma idéia. Pegou uma corda grossa pendurada na sela do seu cavalo. Servia-lhe também  de arma, pois numa das suas pontas havia uma bola maciça de metal. Jogou a corda para cima em direção a um arbusto que se encontrava perto do corpo. A bola de metal se enganchou entre dois galhos. Puxou-a com toda força e quando verificou que a corda estava bem esticada, começou a trepar com a rapidez de uma aranha na sua teia. Em poucos minutos estava perto do suicida. Mas qual foi seu espanto ao constatar que o homem que estava carregando era Tomás Efendi. Uma onda de ódio invadiu seu coração. O ódio, o nojo e um terrível sentimento de vingança se misturavam. O seu primeiro impulso foi de atirá-lo no abismo para que os urubus e os chacais acabassem com ele. Mas como poderia agir desta forma sendo ele homem de bem? Amarrou o corpo ao dele próprio e começou a descer encosta abaixo.

Chegando ao pé da montanha, a primeira providência de Vartan foi de averiguar se Tomás Efendi estava vivo. Observou a presença de algumas fraturas; o rosto estava ensangüentado pelo fato de ter sido arranhado pelas pedras e raízes da encosta. Mas estava respirando. Estava simplesmente desmaiado. Aquele homem mau que era a causa de tantas desgraças, que tinha feito de tudo para prejudicar Vartan, que era a causa de todas essas ruínas, tornara-se agora objeto de compaixão. Se Tomás Efendi estivesse com a plenitude de sua saúde e encontrasse Varta, este último o teria matado sem hesitar. Mas agora estava na presença de um semi-cadáver que estava precisando de ajuda.Vartan estava acostumado a tratar de feridos e ferimentos, inclusive dos seus. Na bolsa pendurada na sela havia sempre medicamentos de primeiro socorro. Primeiro, tratou de enfaixar a cabeça do ferido e de estancar o sangue que brotava das feridas.

Era noite e a escuridão encobria todo o vale. Nuvens negras prenunciavam a chegada de uma tempestade. Agora o problema de Vartan era arranjar um abrigo. Levantou o corpo, amarrou-o encima do cavalo e segurando as rédeas começou a andar. Mas para ir aonde? Em toda a redondeza os Armênios haviam sumido das suas casas. Pensou um pouco e chegou à conclusão que deveria ter algum lugarejo curdo por perto e rumou para lá. Somente agora Vartan realizava o gesto suicida de Tomás Efendi cuja consciência, sem dúvida, não o havia deixado em paz. Tinha ele se arrependido de todas as maldades que tinha feito? que era a causa de tantas ruínas, de tanto sangue derramado?

Vartan não se enganara. Lá longe, avistou umas luzes que pareciam piscar. A chuva aumentara de intensidade. Vartan tirou o seu capote e com todo cuidado cobriu o corpo do ferido.

Era bem tarde quando chegou no vilarejo e bateu na porta do primeiro casebre que apareceu. A porta não estava trancada e Vartan pensou:"Que povo de sorte! Nem tem medo de ladrões e dormem sem trancar a porta". A casa estava mergulhada na escuridão. Todos estavam dormindo. Vartan bateu na porta com mais força. Daí a pouco ouviu-se a voz de uma mulher:

¾"Quem está aí?"

¾"Um convidado [1]de Deus!"

Ao ouvir a palavra "convidado", a mulher acendeu o lampião e deixou Vartan entrar. Devia estar dormindo pois trajava somente uma camisola vermelha que lhe chegava aos joelhos. Ajudou vartan a carregar Tomás Efendi até o sofá.

¾"Está doente?"

¾"Não, está ferido."

A mulher, que mais parecia uma adolescente, foi imediatamente buscar uma caixa que continha umas ataduras, uma ungüentos e o necessário para os primeiros socorros.

¾"Sou o médico da casa. Quando meu marido volta, após ter participado a uma rixa, sou eu quem cuida dos seus ferimentos. Antes era minha sogra que se encarregava disso, mas agora está velha e eu, aprendi tudo com ela."

Vartan agradeceu e disse que ele também tinha uma certa experiência nesse campo e que se antecipara fazendo alguns curativos. A anfitriã ficou um pouco frustrada com a resposta pois queria mostrar o que sabia fazer. Mas quando viu como a testa do ferido estava tão bem enfaixada, conformou-se.

¾"Então, vou cuidar do seu cavalo."

¾"Não quero incomodar" disse o jovem, "É só me mostrar onde poderei amarrá-lo.

A moça pegou o lampião e mostrou o caminho. Vartan olhou ao seu redor e constatou que o pátio estava rodeado de uma cerca muito baixa.

¾"Não tem medo de assalto?" disse Vartan.

¾"Que assalto?" respondeu a moça gargalhando,"Ladrão não rouba ladrão!"

¾"Sorte sua", disse Vartan

Ao voltar, Vartan constatou que não havia ninguém dentro da casa a não ser umas crianças que dormiam no chão de terra batida. Não percebeu a presença da sogra que estava dormindo num canto escuro e que acordou ao ouvir os passos.Levantou a cabeça e disse:

¾"É você Sarô?"

¾"Não é o Sarô, é um convidado".

Ao ouvir que não era seu filho, a velha pôs de novo a cabeça no travesseiro e votou a dormir.

¾"Ela não enxerga direito; pensa sempre que é o filho dela, meu marido."

¾"Onde está o seu marido agora?" perguntou Vartan curioso.

¾"Do lado de Bayazid. Foi lá para combater os Russos. Todos os homens da nossa aldeia foram para lá. Eu mesma, faz dois dias que voltei de lá. Trouxe alguma coisa dos saques que praticamos."

¾ " Trouxe muita coisa?"

¾" Não é tão pouco assim. Me contento com que Deus me dá. Pode ser muito ou pouco."

"Moça livre de um povo livre, pensou Vartan. Que vida simples você leva. É censurável de ela achar que é absolutamente normal participar a pilhagens? Com todas essas dádivas que Deus lhe deu, se você tivesse tido uma educação adequada, você seria uma mulher maravilhosa".

Vatan votou-se para Tomás Efendi. O corpo já estava mais quente. A respiração voltara ao normal. Ás vezes soltava uns gemidos. A curda insistiu novamente: queria examinar o ferido. Vartan acedeu. Sabia que essa raça entendia muito bem de ferimentos, pois o sangue e a ferida eram coisas naturais para eles e curá-los passara a ser uma prioridade vital.

¾"Não há nada de grave", disse a curda após ter examinado o corpo, "as feridas são superficiais, mas tem alguns ossos quebrados. É obvio que ele caiu de uma certa altura."

Vartan não respondeu.

¾"Vou preparar alguma coisa para você comer." disse a moça.

Foi aí que Vartan percebeu que não tinha comida nada desde de manhã. Há momentos na vida que as pessoas sentem fome mas não conseguem comer. Todas essas peripécias tinham lhe cortado o apetite.

¾"Não precisa se incomodar" disse ele, " um pedaço de pão com queijo será suficiente."

A resposta do rapaz mexeu com o brio da curda que queria oferecer um prato quente ao seu hóspede.

¾"Não se acanhe" respondeu a mpça,"não somos tão pobre como dantes.

¾"Claro! Bayazid enriqueceu vocês.

¾"Além de Bayazid tivemos muita sorte este ano. Ano passado uma epidemia arrasou todos nossos animais. Chegamos a passar fome. Mas este ano Deus compensou. Todos os Armênios da região foram embora e deixaram tudo que tinham para nós."

¾"Para onde foram?"

¾"Não sei. Fugiram tão depressa que não tiveram de levar os seus bens com eles, com medo de ser massacrado pelos Turcos."

¾"E estão a salvo?

¾"Quem não conseguiu fugir foi trucidado."

Pouco a pouco, a terrível realidade se desvendava diante dos olhos de Vartan. Mas para onde tinham se dirigido os sobreviventes? Isso, a moça não soube explicar. Vartan mergulhou em pensamentos e dolorosos. Esqueceu de todo a sua fome e nem reparou na linda moça que tendo acendido a estufa, estava a preparar uma suculenta omelete.

Em outros tempos, com a mente desanuviada, teria prestado atenção à beleza da jovem Curda que, apesar de trajar uma simples camisola, era muito bonita. Tendo saído de repente da cama não tinha tido tempo de colocar uma toca e seus longos cabelos negros formavam em volta da cabeça uma linda coroa de tranças. Somente as ninfas semi-nuas, contemplando-se nas águas límpidas dos mananciais tinham cabelos tão lindos, semblante tão gracioso e olhos tão bonitos.                             


 

[1] No Oriente Médio, os muçulmanos costumam tratar com muita cortesia e muito carinho os seus hóspedes