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CAPÍTULO XXXVII

Julho chegara e com ele a canícula. O sol estava abrasador. Parecia estar a atmosfera repleta de setinhas incandescentes cujas centelhas eram projetadas em todos os sentidos dando a sensação de calor intenso e insuportável. Os pássaros, apáticos e exaustos, se escondiam sob as densas folhagens das árvores. Somente as moscas, os pernilongos e microscópicos mosquitos se esbaldavam nesta fornalha. Eram grupos de milhões e milhões que atazanavam a vida de qualquer ser humano. Zumbindo e zunindo, introduziam-se em tudo que encontravam: boca se estivesse aberta, narinas e orelhas. Além disso, sugavam o sangue do pobre mortal ou atormentavam-no com suas picadas envenenadas.

Uma cena incomum se apresentava diante dos olhos da velha cidade de Vaghachabard. Para qualquer lado que olhasse via uma imensa multidão aglutinados uns aos outros. Mulheres e moças, velhos e jovens, todos em estado lastimável, seminus estavam aí. As ruas estavam abarrotadas de mendigos. Dentro e fora de Etchmiadzin até o lago Nercês circundado de árvores, o panorama era o mesmo. Esses infelizes provinham de Alachguerd.

Eram aproximadamente trezentas famílias que, deixando suas terras, suas casas, seus pertences, tinham escapado à fúria sanguinárias dos Turcos, refugiando-se ao redor de Etchmiadzin. Não havia uma casa em Vaghachabard onde não se amontoassem dez a vinte famílias. Pátios, palheiros, estábulos estavam superlotados. Mas era preciso também alimentar esse povo, cuidar de seus ferimentos. Abandonando precipitadamente o planalto de Alachguerd com seu clima ameno, tinham alcançado a planície de Ararat em pleno julho, mês de clima tórrido, ficando assim sujeitos a diversos tipos de doenças.

Era meio-dia, hora na qual, no verão, os camponeses paravam de trabalhar procurando sombra para descansar. Os mais abastados iam para casa e após um régio almoço faziam a sesta. Era também a hora na qual os infelizes refugiados iam de porta em porta mendigar um pouco de comida. Uma pessoa em particular chamava a atenção. Era uma adolescente de mais ou menos dezesseis anos. Seu rosto magro e abatido tinha perdido a tez original e se aproximava do amarelado. Apesar de se perceber o resto de uma certa beleza, parecia uma rosa que estava murchando cada vez mais. Uma tristeza infinita se lia nos seus olhos. Os lábios, quase sem cor, revelavam que estava ainda em convalescença. Apesar do rosto pesaroso deveria ter sido muito bonita. E mesmo magérrima como estava, ainda atraía os olhares dos homens. Parecia que o capeta, anjo do mal dos infelizes, quisera pregar uma peça, vestindo-a de trapos a fim de aviltá-la ao os olhos dos homens. Mas talvez por isso tornava-se mais atraente e mais digna de compaixão. Seu vestido todo remendado mal cobria seu corpo. Era composto de retalhos de todas as cores e de todos os tamanhos, revelando que tinham sido presenteados por pessoas caridosas. Andava no meio da rua, lentamente, com muita dificuldade no asfalto encandecido que lhe queimava os pés. Duas crianças tais quais anjos seguravam sua mãos. Caminhava cabisbaixo, sem falar, parando diante das casas sem ousar entrar, durante horas e horas, até que a dona da casa reparando nela lhe desse um pedaço de pão. Notava-se que a sua formação não lhe permitia pedir esmolas. Percebia-se que provinha de família abastada e que nunca havia passado uma situação igual a essa. A miséria, a humilhação, a perda de tudo que lhe era caro enchia seu coração de amargura e lhe desgastava mais do que a sua dor física.

Ia de porta em porta em porta, mas ninguém reparava nela. Por fim, refreando seu orgulho disse com voz trêmula:

-“Um pedaço de pão, por favor.”

Toda a amargura de seu coração estava contida nesta frase.

A dona da casa respondeu-lhe com aspereza:

-“Sai daqui! para qual de vocês devo dar?”

     A moça olhou em sua volta e de fato constatou que a rua estava repleta de pedintes. Apesar de estar morrendo de fome o seu primeiro impulso foi de afastar-se, mas pensou nas duas crianças famintas e na mãe deles, doente, acamada, esfomeada. Enxugou os olhos e se propôs a repetir o pedido. Neste ínterim, surgiu da casa um pequeno cachorro que se atirou na moça e arrancou-lhe um pedaço da saia. Ela se pôs a correr e as crianças, apavoradas, gritavam de medo. Resolveu voltar para o convento enquanto tentava remendar o vestido em farrapo. Assim que divisaram a casca de uma melancia jogada no meio da rua as duas crianças soltaram gritos de alegria e um deles correu apanhar o naco, limpou-o na roupa e o mordeu com avidez. O irmão tentou arrancá-lo das mãos gritando:

-“Me dá um pedaço, estou com fome também!”

A moça os separou e dividiu o naco em duas partes iguais.

Entrementes, um moço ia passando e reconhecendo a moça com as duas crianças e aproximou:

_ “Recomendei terminantemente para que você não saísse da cama. Você não está curada ainda e não está me obedecendo.”

A moça, confusa, não sabia o que dizer. De fato ela não estava bem e mal e mal conseguia ficar de pé. O moço, reparando as duas crianças comendo a casca da melancia, arrancou-a das mãos deles e jogou-a longe.

-“Como pode-se comer algo assim?”

As crianças mais atrevida do que a moça disseram com lágrimas nos olhos:

-“Estamos com fome!” 

-“Não lhes dão comida no convento?”

A moça em vez de responder à pergunta, baixou seus lindos olhos e disse ofegante:

-“Se fosse possível, gostaria de mudar do convento.”

-Parece que aquele padre safado não dá a mínima para vocês.”

A moça não respondeu e manteve a cabeça abaixada na esperança que o moço não percebesse no seu olhar o que se passava no seu coração.

-“Entendo, continuou o moço bastante irritado. Agora volta para o convento, esse calor não é bom para você; você está ainda muito fraca; você está doente e poderá piorar. Daqui uma hora estarei no convento e farei o necessário para que vocês sejam bem tratados. E sua cunhada, como vai?”

-“Não está muito bem; passou mal esta noite”.

E olhando timidamente para o moço, disse:

-“O Sr. vai tira-nos do convento, não é?”

_”Está bem. Vou ver se arrumo um outro lugar”, disse o jovem e afastou-se rapidamente dizendo a si mesmo:”Coitada, com que rapidez o convento conseguiu tornar-se tão detestável”. O moço era médico, filho de um rico fazendeiro da região. Era recém formado e como um verdadeiro cavalheiro dos tempos antigos, queria demonstrar seu heroísmo e sua abnegação neste mundo afora. Para ele os foragidos de Alachguerd, sejam eles exauridos ou enfermos, vieram a calhar e abriram para ele um vasto campo de trabalho. Apesar de sua pouca experiência entrou com entusiasmo nesse empreendimento. Predominava nele um misto do médico e do misericordioso. Não somente ia visitá-los sem cobrar nada e dando-lhes remédios de graça, mas também se preocupava com suas moradias e alimentação. É por isso que a moça lhe pediu um lugar decente para morar.

Vendo o médico partir, dirigiu-se lentamente para o convento. Às vezes vacilava, parece que ia cair. Parava de vez em quando cansada, sentava e a seguir continuava sua caminhada. Do bar, vizinho do convento, ouvia-se gritos:

“Ei você aí!, vem que te dou dinheiro!”

Essa gente é pior que os curdos e continuou andando.

Adentrou o jardim, passou pela entrada principal, contornou o muro lateral e saiu pela porta lateral que dava para o lago e a floresta chegando em Gharazabad. Esta parte do convento acolhia nos dias de festas, os peregrinos que vinham que vinham de várias partes do país em romaria. Mas agora estava lotado de doentes, todos de Alachguerd. Entrou numa das celas situada no porão. Neste lugar sem ar, sem luz jazia o corpo de uma mulher. Não havia nem um catre, e muito menos uma cama, mas sim um feixe de palha no qual ela estava estendida coberta com um pano grosseiro. As duas crianças, largando a mão da jovem, correram para abraçar e beijar com sofreguidão as mãos descarnadas da mãe.  Mas ela não correspondia a todo esse amor pois estava dormindo ou melhor dizer estava quase em estado de coma. A moça interrompeu o entusiasmo dos meninos dizendo que a mãe estava descansando e era melhor que saíssem e brincassem lá fora. Obedecendo, os dois saíram, sentaram no chão perto da porta e com pedrinhas, pedacinhos de madeira e um pouco de terra construíram pequenos objetos com os quais brincavam. Por seu turno, a jovem deitou no azulejo do chão e seu braço servindo de travesseiro ficou olhando com muito pesar o rosto da doente. Estava tão exausta, tão extenuada, tão transtornada que desejava ardentemente dormir um pouco. Mas estava tão angustiada que não conseguia fechar seus lindos olhos. Na verdade queria fechá-los para sempre a fim de não mais ver esse mundo cruel. Quantas desgraças, quantos sofrimentos tinha aturado até aí. Perdera o pai, os irmãos, a sua bela casa, todos os seus parentes, tudo que lhe era mais caro, mais precioso. E agora em terras estranhas, sem ninguém para protegê-la , vítima de um destino cruel, vagava de casa em casa. Sua única defensora, sua única protetora estava ali deitada na sua frente, doente a ponto de não passar de um ou dois dias. A partir daí quem ia cuidar das crianças? Se ainda ela estivesse em boa saúde, se pudesse trabalhar, enfrentaria qualquer tipo de trabalho e assim continuaria cuidando dos dois órfãos. Mas ela também estava muito doente e a cada dia que passava sentia-se mais fraca, mais mirrada. Esperava impacientemente que a morte a levasse, acabando assim com seus sofrimentos. Estava mergulhada nestes tristes pensamentos quando ouviu gritos de crianças acompanhados de uma voz forte que a perturbou mais ainda. As duas crianças estavam construindo pequenas casinhas e brincavam com elas. De repente, apareceu um padre de batina preta, capuz preto, barba preta: não existia nada de branco nele. Vendo as crianças, começou a berrar:

-“Já para dentro, seus moleques! estão estragando o chão do convento!

Tremendo de medo os meninos levantaram-se e como se moviam mui lentamente, o padre vociferando avançou neles e os teria espancado se os dois não tivessem corrido para dentro da cela atirando-se nos braços da mãe. O grito das crianças conseguiu tira a mãe de se sono profundo. Ela os abraçou e os acalmou sem perceber de que se tratava. Naquele instante apareceu na soleira da cela o vulto ameaçador do padre:

-“Quero que saiam imediatamente daqui!” gritou com uma voz raivosa.”Quantas vezes vou repetir a mesma coisa? Vocês não entendem?”

Para quem estava dirigindo essas palavras? A pobre mãe não ouvia nada. Ela só amparava os filhos e parecia que era a primeira vez que os via. Fazia dois dias que estava num coma profundo e agora ouvia somente os soluços de seus filhos. Com quem o padre estava a esbravejar? Na cela ninguém ouvia nem entendia o que o padre queria dizer. A moça, ao ouvir essa voz feito trovão, desmaiara. E as crianças aconchegadas no colo da mãe, tremiam de medo.

Porém, uma outra voz veio interromper o berreiro:

-“Que barulho é esse, padre?”

=”Olá doutor, como vai? O Sr. vai bem?” disse o padre com voz mansa, mudando repentinamente de atitude.

-“Não interessa se vou bem ou não” respondeu o médico fixando o padre bem nos olhos.”Quero somente saber qual é a queixa que o Sr.tem contra essas pobres criaturas? O que fizeram de ma|?”

-“Não fizeram nada de mal. Estava lhes dizendo simplesmente para sair daqui e procurar um outro lugar para morar. O Sr. sabe que pelo regulamento do convento, não podemos guardar ninguém mais do que dois dias dentro do convento. Todos os dias estão chegando mais e mais gente. Devemos tirar os que vieiram antes e dar lugar aos novos.”

-“E onde o Sr. quer que eles vão? Não está vendo que estão morrendo?”

-“Obedeço ordens” respondeu o eclesiástico.

O padre era o supervisor do convento, um fanfarrão ridicularizado por todo mundo, especialmente pelo médico.

_”Não vai me enganar com essa sua conversa mole, não é padre. Diga-me a verdade? O que está lhe perturbando? São os lindos olhos da moça?”

-“Me deixe em paz. Isso é coisa que se diz!”

_”Sai daqui, padre. Cai fora!” disse o médico e adentrou a cela. Distribuindo medicamentos adequados, trouxe um certo alívio à pobre família. Disse-lhes que tinha arrumado uma moradia para eles, que estariam lá bem confortável e com bastante comida.

A mãe, agitada, disse quase gritando:

-“Vamos embora bem depressa,depressa!”

-“Calma!” cortou o médico.”Daqui a pouco virei buscar vocês e iremos embora“e saiu da cela para visitar outros enfermos que se encontravam no convento.

-“Está vendo minha querida Lalai”,disse a moribunda voltando-se para a moça que soluçava tapando os olhos com as mãos.”No momento de maior aflição Deus manda um anjo para consolar e salvar-nos. Não chore, filha. Virá um dia no qual você reencontrará a felicidade. Como diz o ditado: Após a tempestade, a bonança.

-“Depois de tudo que passamos, querida Sara, depois de tanta desgraças, desejo somente uma coisa: a morte.”

Interrompendo a conversação das duas mulheres, dois homens adentraram a cela. Eram empregados do médico e traziam pão e comida, assim como vestidos para as mulheres e roupinhas para os meninos. Sara e Lalai não se aproximaram da comida, não conseguindo comer nada. Em contrapartida as duas crianças atiraram-se encima dos pratos e começaram a comer com avidez. Os criados esperaram pacientemente fora da cela a comilança acabar.Enquanto isso as mulheres se vestiram e trajaram os meninos. A seguir saíram do convento deixando para trás o seu ar pestilento e rumaram para a moradia que o médico tinha providenciado para eles.