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CAPÍTULO XXXIX

Os aposentos de Dom Hovannés situavam-se no último andar do Convento. Vartan sentiu aperto no coração quando passou pelo portão principal do mosteiro. Há dez anos saíra deste mesmo lugar e agora retornava mercê desses tristes acontecimentos. Por que este centro de oração e devoção confrangia a alma do infeliz visitante? Lembrou-se das safadezas e vilezas de sua juventude. Lembrou-se desse passado do qual restava gravado na sua mente somente horrores e desgostos.

Dom Hovannés notou a perturbação de Vartan e perguntou:

_ “O que há? Por que tanto pesar?”

_”Não é nada não. Às vezes fico assim triste e pensativo.”

O bispo e Vartan estavam sentados numa cama em um canto do quarto. No meio, numa mesa de madeira ordinária vacilava a luz de uma vela. Num samovar fervia o chá. O sacerdote levantou-se e encheu duas xícaras. Deu uma ao moço e ficou sorvendo o chá fervente na outra. O líquido aquecido acalmou os nervos de Vartan. Ambos ficaram em silêncio por um bom tempo até que Vartan o rompeu para falar do assunto que mais lhe interessava.

_ “E aqui, qual a situação atualmente?”

_ “Vou tentar resumir para você. Veio da Turquia um padre para ser aqui ordenado bispo. Você vai deparar com ele sem dúvida. Está sempre por aqui. Ao chegar contou a situação trágica dos armênios na Turquia, das barbaridades cometidas pelos curdos, dos crimes perpetrados pelos turcos que matavam, estupravam e incendiavam a rodo. Era impossível duvidar pois trazia provas irrefutáveis. Mas após entrevistar-se com os “Superiores”, mudou o linguajar. Começou a elogiar o lado humano do Turco, o seu senso de justiça e a enaltecer a generosidade e nobreza de seu coração. O que poderia fazer o coitado. Não mudasse de tom e continuasse a falar dos que mais odiava, perderia sem dúvida a oportunidade de se tornar bispo.

Vou contar mais uma história. Apareceu aqui um outro padre cuja igreja fora saqueada pelos turcos. Sua história era ainda mais pungente do que a anterior. Contava todas as maldades cometidas pelo governo turco. Quando estas denúncias chegaram aos ouvidos dos “Superiores”, não somente ignoraram, mas determinaram que deixasse o mosteiro o mais depressa possível. O infeliz, de imediato, teve de mudar sua fala e assim foi admitido prazerosamente. Daí em diante, esqueceu de sua igreja, do sofrimento de seus fiéis e sempre se referia aos turcos e aos curdos com lisonjas. Foi mais longe ainda. Numa das festividades, no convento, chegou a beber “arak” fazendo um brinde desejando muita saúde e longa vida ao Sultão enquanto os turcos incendiavam as casas dos armênios, matavam e estupravam em Bayazid até não poder mais. Você pode agora entender a filosofia dos “Superiores” deste convento.”

Vartan não acreditava no que estava ouvindo. Tinha a impressão estar sonhando. Não imaginava existir tanta desumanidade e tanta deslealdade numa pessoa só. Num dos piores momentos vividos pela Nação, quando sua existência e seu futuro estavam por um fio que podia se romper a qualquer momento e precipitá-la num abismo sem fundo, neste momento crucial em que o povo inteiro voltava-se para  Ararat esperando a salvação, a Nação encontrava no seu clero, indiferença, insensibilidade e além disso uma profunda simpatia para com os inimigos e os assassinos.

_”Todos aqui pensam assim?” perguntou Vartan bastante perturbado.”

_”Não, somente os “Superiores”. Eles enaltecem o governo turco, considerando-o justo e perfeito em todos os sentidos. E se alguns armênios se revoltam demonstrando desagrado, contando o que realmente está acontecendo, dizem ser tudo mentira e calúnia.”

_”Estou vendo que pensam exatamente como Tomás Efendi. As iniqüidades e as mazelas do governo turco sempre favorecem os opotunistas. Entretanto eles, como eclesiásticos, deveriam seguir os exemplos dos Patriarcas Nercês, Khrimian e muitos outros que deixaram na nossa História marco indelével de integridade e probidade.”

_”Logo se vê que você é um homem puro”, respondeu o bispo, “quero que você saiba que se eles pudessem, apagariam todos os feitos dos Patriarcas. Talvez até estejam tentando. Estão atualmente empenhados em demonstrar que todos esses Patriarcas eram charlatães a serviço das potências européias. Mentem afirmando ser o intuito deles enganar o povo para prejudicar a pobre Turquia.  Zombam até das realizações de Nercês. Dizem que exigir qualquer coisa do governo turco é um ato vil pois já deram muito para os Armênios. E se , por acaso, o governo turco descobrisse que, de fato, faltasse algo para os armênios, acudiria imediatamente pois o turco tem bom coração.  Então, por quê falar mal do governo turco?”

_”Toda a congregação está de acordo com essa farsa?” clamou Vartan, furibundo.

O bispo não respondeu e levantando-se abriu a porta para certificar-se ninguém estar por perto. Voltou a sentar-se e disse em voz baixa:

_”Temos que falar mais baixo . Aqui as paredes têm ouvidos. O zelador do convento mora no quarto ao lado e tem uma tendência diabólica de ficar à espreita de tudo que se passa. Se ouvir nossa conversa, pode estar certo que amanhã cedo os “Superiores” saberão.

Sem prestar maior atenção à resposta do bispo, Vartan reiteirou:

_”Estou falando do povo em geral, e não dos “Superiores”.

_Os “Superiores” são exceção. O resto do convento é turcófobo. São pessoas de bom caráter, prestes a ajudar com desvelo todos os seus compatriotas que vêm da Turquia, aliás a maioria em estado lastimável.

_”Naturalmente, se os “Superiores” permitirem”

_” Pois é! O que você quer que esses pobre coitados façam? Estão tolhidos, proibidos de falar sobre esse assunto.Socorrer os refugiados? nem pensar! Dentre esses manda-chuvas existe um que se chama Mangurni. Verdadeiro monstro, apaniguado do diabo, sem dúvida. Semeia o terror entre os refugiados instalados aqui.

_”Realmente não consigo entender essa política absurda que tenta proteger os turcos, os quais só pensam em nos exterminar”.

_”Eu também não consigo. Para mim é uma espécie de enigma.”

_ “Mas como explicam essa enxurrada de refugiados, esses massacres em Bayazid, o incêndio de Van?”

_ ‘Para defender os turcos, tudo é válido. Todos fazem uso das mesmas palavras, das mesmas frases. Culpam os armênios dizendo ser um povo irrequieto, rabugento e ingrato. Citam:”O lobo não é culpado quando a ovelha o deixa raivoso.” Para explicar a lamentável situação do povo de Alachguerd e sua fuga em massa, eximem os turcos e os curdos de qualquer culpa. Incriminam forças ocultas que teriam provocado tais acontecimentos. Você Vartan, que sabe de tudo que aconteceu desde o início, pode perceber a capacidade dessa gente em deturpar a verdade.”

_”Eminência, não entendo o que o Sr. está fazendo aqui. Em que esse gente pode ajudá-lo? Quais suas esperanças ficando aqui?”

_”Nenhuma esperança. Estou conformado. A quem recorrer? Ir aonde? Estou muito confuso.

_ ”Apela para o povo daqui.”

O eclesiástico não disse nada, mas depois de um minuto respondeu como se fosse para si mesmo:

_” É difícil explicar tudo que está se passando atualmente, mas virá um dia quando a mentira emergirá e toda essa farsa será desmascarada.”

Parecia palavras jorrando de um coração sangrando. Sentia-se tão indignado, tão desanimado que não conseguira calar-se. Mas por quê fingir diante de Vartan? Conhecia Vartan há muito tempo. Tinham trocado muitas confidências anteriormente.

Novamente o assunto voltou aos exilados. O Bispo de Alachguerd contara os tormentos sofridos pelos refugiados. Propusera soluções para amenizar todo esse sofrimento evitando assim a aniquilação de todo um povo. 

_ “Estou pasmo com o número de pessoas adoentadas”, interrompeu Vartan, “é espantoso. Mais da metade está inválida. Qual a explicação?”

_ “ Se você soubesse dos detalhes contados pelos exilados, das desgraças pelas quais passaram, você ficaria admirado com o fato desta metade estar ainda viva. É milagre, um verdadeiro milagre. Não tenho forças para lhe contar tudo em detalhes. Posso somente fazer um resumo.

Você deve estar a par do que aconteceu durante o cerco de Bayazid. O general Ghussakov e suas tropas, após expulsar os turcos da cidade e do forte, foi, mais tarde,  obrigado a retirar-se. Nessa ocasião mostrou coragem impar, efetuando duas proezas incríveis. De um lado fez frente às tropas turcas  muito mais numerosas e de outro protegeu os armênios que tinham escapado do massacre perpetrado pelos muçulmanos. Revelou-se grande estrategista. Conseguiu deter os turcos de tal maneira que deu tempo para os armênios fugirem. Porém o povo não estava preparado para abandonar tudo. De fato, de repente, alastrou-se a notícia que os russos estavam se retirando. Ouviam-se gritos de “fujam o mais depressa possível, senão serão massacrados pelos turcos”. A população por um momento permaneceu indecisa. Mas não havia tempo para hesitações, era preciso abandonar a pátria amada. E isto da noite para o dia. Aquela noite foi terrível. Um corre-corre entremeado de gritos ressoava na escuridão. Não se podia levar quase nada. O gado ficou a mercê do inimigo. O pai não esperou a volta do filho ausente. O irmão esqueceu do irmão. Não podendo levar os móveis, alguns atearam fogo neles. As mães carregaram os recém-nascidos e os pais, dando a mão ao filho se puseram a marchar. Ricos eram aqueles que possuíam charrete ou uma carriola, pois o governo requisitara todos os veículos disponíveis devido à guerra. Aqueles que não puderam fugir foram trucidados. Os outros pensaram estar a salvo, mas chegando aqui, após jornada estafante, encontraram fome e doenças. Naturalmente, essas doenças foram conseqüências de dias e dias de marcha forçada. Aquilo que se deveria percorrer por meses, o foi em dias, sem paradas e sem trégua. Mães com bebês no colo, crianças, velhos e moças estavam todos a pé, poucos tinha uma carriola. Muitos não agüentaram e ficaram no meio do caminho. Ninguém se interessava pelos parentes, os amigos e até os seus próprios filhos. Cada qual pensava em si. Acrescente agora a tudo isso, a fome a sede e o clima daqui totalmente diferente, então você entenderá porque há tantos enfermos. Para escapar das garras do inimigo, trouxeram-nos até aqui por caminhos tortuosos, escalando montanhas, desbravando florestas. Um quarto da população não agüentou e desapareceu. Citaram várias vezes em nossa literatura aquela passagem de nossa História, na qual o Xá Abas levou inúmeros armênios como escravos para Ispahan e onde são descritas cenas aterrorizantes. Pois bem, aquilo parece um fato corriqueiro comparado com a história dos nossos compatriotas amontoados aqui.”

Enquanto o bispo descrevia essas cenas dolorosas, a mente de Vartan viajava. Estava lembrando de sua querida Lalai. Sem dúvida, estaria aqui no meio da multidão. É verdade que Tchavô dissera que por ordem de Khurchit, esposa do Bei, tinham-na levado para atravessar a fronteira russa. Mas os curdos não tinham a possibilidade de entrar na Rússia, país inimigo. Com certeza tinham-na deixado com o grupo de refugiados, junto com a cunhada Sara. Como achá-la nesta multidão? Estaria viva? Estas perguntas atormentavam a mente do moço.

_ “Eminência, o Sr. já ouviu falar da família do Velho Khatcho? Devem estar aqui, no meio desses refugiados.”

_  “Achá-los não será uma tarefa fácil, pois os refugiados se alojaram em diversos lugares. Mas cada aldeia veio encabeçada por seu padre e seu prefeito. Pedi para eles um relatório dos nomes das pessoas que os acompanhavam e onde moravam atualmente para podermos localizá-los com facilidade. Em pouco tempo, esses relatórios estarão na minha mão.”

_ “Em quanto tempo?”.

_ “Talvez amanhã ou depois de amanhã, não posso dizer exatamente.”

Este “amanhã ou depois de amanhã” correspondia a uma eternidade para Vartan. Naquela noite não conseguiu dormir, tão agoniado estava.

 

 

 

 

  

 

 

 

 

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