ARMÊNIA-BRASIL

Home

Minha História

Alfabeto

Cultura

Contos Épicos

David de Sassun

Dicionário
Armênio-Português

Dicionário
Português-Armênio

Genocídio

História

Khent

Links

Mapa

Publicações

CAPÍTULO XLII

Fazia algum tempo que tinham terminado de tomar o café da manhã e já estavam no aperitivo abrindo uma garrafa de vinho  quando apareceu o sacerdote. Vartan ficou nada satisfeito ao reencontrar este indivíduo que tantos desgostos causara a ele e ao seu companheiro Salman. Mas agora a situação era outra. As roupas em farrapo do padre, seu aspecto miserável, tornaram-no pessoa digna de compaixão. Parecia mais mendigo que homem que consagrara sua vida a Deus. Tudo isso fez Vartan esquecer seu ódio do pároco. Além disso esperava com ansiedade as novas a respeito da família que lhe interessava.

Pedindo que sentasse, Vartan perguntou:

_”Foi o padre Hovanés que mandou o Sr.?”

_”Foi” respondeu o padre enquanto Vartan lhe oferecia um copo de vinho que ele tomou numa talagada. A bebida fez o mesmo efeito de chuva em pasto árido. O rosto dele adquiriu coloração há muito desaparecida. Melik Mansur percebendo sua lenta reanimação, indagou:

_ “O Sr. gostaria de comer alguma coisa?”

_ “Nada comi desde ontem à noite.” respondeu o padre com voz tão tristonha que era impossível não sentir pena.

Melik Mansur pediu então um café da manhã completo para o sacerdote. Vartan mal e mal conseguia controlar-se. Queria fazer perguntas vitais para ele. Mas por outro lado estava com medo.

 Seu caso assemelhava-se ao do infeliz ao qual tinham ter sido sua casa roubada e que correndo para lá constatara terem levado absolutamente tudo. Mas conservava tênue esperança. Escondera em lugar secreto, quantia bastante polpuda. Porém sentia calafrios ao pensar que o tivessem descoberto. O que seria dele se fosse o caso?

Vartan estava exatamente nesse estado de espírito. Achava existir ainda pequena chance de encontrar Lalai. E esta chance dependia exclusivamente das respostas do padre. Teria ele forças suficientes para suportar as más notícias do sacerdote? Pressentindo más notícias do pároco, Vartan não conseguia emitir um som sequer.

Melik Mansur ignorava a relação existente entre Lalai e Vartan e nunca ouvira falar da família do Velho Khatchô. Percebendo o rosto transtornado do amigo, disse:

_”Você não tinha nada para perguntar?” será que eu....

_”Não,não! nada tenho a esconder”,retrucou Vartan e voltando- se para o padre, disse:

_”Padre, soube que o Sr. entregou ao padre Hovanês, a lista dos refugiados da aldeia de O ...... Gostaria de saber quantas famílias estão aqui e onde estão morando.

_”Meu amigo, quantas pessoas você acha que sobreviveram para eu fazer uma lista? Podem-se contar nos dedos.

Não parecia estar falando de seres humanos, mas sim de galinhas ou coisa parecida.

_”Foram todos massacrados, padre?”

_”Posso dizer que não sobrou quase ninguém e não desejo a qualquer cristão presenciar o acontecido na aldeia de O ..... Parecia Deus querer nos castigar como castigou Sodoma e Gomorra. O fogo caiu do céu e incendiou tudo. Aqueles que conseguiram escapar foram levados como escravos ou foram massacrados. E tudo isso aconteceu numa só noite. Na madrugada seguinte, sobrara uma planície de cinzas. Perdi as minhas contas a receber. Perdi.... Não tenho mais esperança de receber o que me devem. Tomás Efendi – que Deus o tenha-  prometera cobrar todas as dívidas. Mas ele também sumiu. Agora sou homem pobre, não tenho mais nada. Olhem bem para mim” e mostrou sua batina em farrapos.

Os olhos do pároco se encheram de lágrimas e começou a soluçar.Estaria lembrando de Tchulô que havia desaparecido com seus dois filhos ou de Simão que casara com sua filha e que também desaparecera? Será que sofria por causa da agonia de seu povo de quem falara tão friamente? Não! Não era por nada disso que o bom padre chorava.  Chorava pelo dinheiro que tinha a receber e que não receberia mais.

Vartan desconhecendo essas “contas a receber”, não prestou muita atenção ao sofrimento do sacerdote. Entretanto, não se atrevia a fazer a pergunta que o atormentava e, de certo modo, sentia-se feliz com o padre dissertando sobre seus haveres. Tentou afogar no vinho seus tristes pensamentos, mas o contrário aconteceu. O álcool qual gasolina em fogueira acendeu labaredas em seu coração. Sem querer, Melik Mansur o socorreu. Ele ouvira falar do Velho Khatchô , de sua numerosa e linda família, da trágica morte de dois de seus filhos. Mas era só isso. Nada mais sabia a respeito.

_”Quem sobrou daquela família?” perguntou

_”Ninguém”, respondeu friamente o padre. “O velho e dois de seus filhos morreram na prisão. Os outros foram trucidados. Levaram suas esposas e filhas.”

_”Todas!” gritou Vartan apavorado. 

O padre percebeu o quanto Vartan estava perturbado com suas declarações e logo acrescentou:

_”Sara está aqui com seus dois filhos e Lalai.”

Onda de alegria e felicidade invadiu o coração de Vartan. Sentiu-se como aquele indivíduo que viaja de navio e cai no mar em noite de tempestade. E após horas e horas de esforços insanos, lutando contra enormes ondas sente suas forças abandoná-lo. Não consegue abrir os olhos e por fim quando os abre está nas profundezas do mar. E de repente, está em terra firme. Como isso é possível? Ele não sabe. Fora uma onda gigantesca que o projetara na praia.

Pulando da cadeira, gritou:

_”Lalai está aqui!....Sara está aqui!... Vou poder vê-las, graças a Deus! Vamos, padre, vamos a casa delas. Você também meu amigo Melik Mansur.

Mas a alegria de Vartan durou pouco. O padre ignorava os últimos acontecimentos.

Se, de manhã, ao sair do convento, Vartan tivesse prestado atenção ao cortejo fúnebre, teria percebido a triste realidade. Parece que o Destino queria castigá-lo de maneira definitiva: nunca mais reencontraria a sua amada.

Na véspera, Sara e Lalai deixaram o convento e foram levadas para a moradia indicada pelo bondoso médico. A caridosa anfitriã a quem foram confiadas, ficou muito comovida  ao constatar o estado lastimável em que se encontravam, mormente quando soube pertencerem às melhores e mais abastadas famílias de Alachguerd.

Na primeira noite, fisicamente exaurida e moralmente abalada, a moça teve febre muito alta. Imediatamente a anfitriã mandou chamar o médico que acorreu e constatou ser o estado da moça muito grave.

_”Não há o que fazer. É o fim.” disse  à dona da casa. Mesmo assim ficou perto da enferma até a meia noite, fazendo o possível e o impossível para salvá-la. A seguir, vendo que estava melhor voltou para a casa.

           De manhã cedo, quando veio para auscultá-la, já estava morta. Apesar de estar deitada numa cama ao lado dela, Sara nada notou. Foi somente quando vieram buscar o corpo e o colocaram no caixão que começou a entender do que se tratava. Nenhuma lágrima brotou de seus olhos. Mesmo para corar é preciso saúde. Parecia que estava feliz. Feliz de ver o término dos tormentos que Lalai tinha suportado. Feliz de ver ela deixar este mundo que fora tão cruel nesses últimos meses.

Quando eram para retirar o caixão pediu que a deixassem acompanhar o féretro. E, contrariando as recomendações do médico, o qual a exortava em não ir pois podia piorar seu estado débil, seguiu em frente. Parecia ter adquirido um novo alento e, é com um triste sorriso que disse quando abaixaram o caixão:

_”Queria tanto estar com você, minha adorada Lalai.”

Mas ao ver seus dois meninos, sua voz ficou embargada.

Trouxeram Sara de volta para casa, praticamente carregada. Quando o médico estava ocupado em reanimá-la, bateram à porta. Ao abrir a porta  a doméstica  deparou-se com dois homens, jovens ainda, e um padre.

_”Estão procurando alguém?” perguntou a criada.

_”Disseram que moravam aqui duas refugiadas vindo de Alachguerd, uma senhora e uma moça”, proferiu Vartan

_”É verdade, mas a moça....”

_”O que? O que aconteceu?”

_”Morreu.”

Vartan, como atingido por um raio, desabou no ombro de Maelik-Mansur.