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CAPÍTULO XLIII

 

 A escuridão reinava naquela noite. O mormaço deixara rastros de calor intenso, exalado pelo ar sufocante. O silêncio era total. Parecia não existir mais vida. Somente de um canto do cemitério do convento, provinham gemidos abafados. Um moço, estatelado no chão, acariciando um túmulo, emitia-os quase inaudíveis. Chorava desconsolado, e suas lágrimas caiam ao seu redor. De quando em quando, beijava e esfregava o rosto no montículo de terra ainda úmida. “Lalai, minha pobre Lalai”. As palavras brotavam de seu coração e de sua alma.

Era Vartan. Após dias de intensa procura, achara, por fim, o túmulo da mulher amada. O que ainda lhe restava nesta vida? Após todas essas lutas improfícuas, desgraças e infortúnios, vislumbrava sempre uma estrela no céu, brilhante e cintilante, para a qual se dirigia com sofreguidão. E agora esta estrela se apagara. O que sobrara, então? Somente um coração profundamente ferido a precisar de uma gota de balsamo para curar seus ferimentos. A perda era irreparável. Vartan nunca se apaixonara por alguém.Seu coração empedernido ignorava arroubos românticos, mas diante do amor que dedicava a Lalai, sua rudeza se derretera tal qual vela acesa. O amor de Lalai o humanizara. Onde estava este anjo agora? Neste monte de terra que abraçava, umedecido por suas lágrimas. Ali estava enclausurado o coração de Vartan, o qual inconsolável sofria muito. Debatia-se contra o tormento e a dor. Por fim uma espécie de entorpecimento tomou conta de seu corpo, algo nem sono profundo nem inconsciência. Sua cabeça inclinou-se sobre o túmulo e seus olhos se fecharam.

Sonhos inimagináveis começaram a povoar a sua mente. Ora pesadelos aterrorizantes, ora sonhos lindos e reconfortantes. Parecia-lhe que vários séculos haviam passado. Estava vendo a Armênia. Aquela Armênia tão sofrida e quase desprovida de seus habitantes, agora totalmente renovada.

Que fantástica transformação! O Paraíso perdido retornara à terra? A Idade de Ouro onde nem a maldade e nem a injustiça reinavam, voltara? Nada disso. O que Vartan estava vendo não era aquele Éden criado por Deus, implantando mananciais hoje os quatro rios da Armênia, onde dera a vida também aos dois primeiros seres humanos que viviam em absoluta inocência e ignoravam a malícia. Não era aquele Paraíso onde não se precisava trabalhar nem produzir, mas sim onde podia–se sustentar com frutas e com tudo que a Mãe Natureza proporcionava.

Aquele era um outro tipo de paraíso onde os homens trabalhavam e viviam de seus próprios ganhos. Onde a inocência era substituída pela sabedoria e a vida simples e patriarcal por uma moderna civilização. Realizara-se as palavras do Criador quando dissera:”É com suor da tua testa que ganharás o pão de cada dia”. O Homem obedecera ao pé da letra o ditame de Deus, tinha se aperfeiçoado e hoje já não suava tanto para alcançar o almejado.

De repente Vartan vislumbrou uma aldeia. Seria o vilarejo de O ......... As cercanias não lhe eram estranhas: as montanhas, as colinas, o rio, o vale verdejante, tudo igual. O passar dos séculos não conseguira fazer seu trabalho de erosão. Porém a aldeia em si não era a mesma. Onde estavam aquelas choupanas mais parecidas a imundos covis? Agora as casa eram construídas com pedras todas brancas, cada uma com seu jardim. As ruas eram largas, traçadas em linhas retas ladeadas de belas árvores. Um riacho de águas cristalinas atravessava o lugarejo.

Era de manhã.

Pequenos grupos de crianças, bem trajadas, sadias, risonhas, saíam das casas. Meninos e meninas, juntos, mochila nas costas, andavam céleres para a escola. Vartan os observava, maravilhado. Pareciam bem tratados e alegres, felizes por poderem estudar sem medo do professor. Seriam os mesmos que Vartan costumavam encontrar, maltrapilhos e doentios?

Sozinho no meio da rua, olhava ao seu redor sem saber para onde ir. Ouviu um som que o encantou: era o sino da igreja. Talvez a missa não terminara? Era a primeira vez, após ter deixado o convento, que ouvia som de sino tão agradável ao ouvido. Seu coração empedernido encheu-se de fervor sagrado. Tomou a direção da igreja onde não pisara há mais de dez anos.

Ficou pasmo ao entrar. Tudo simples e prosaico. Não havia estrado nem mesa, nem altar florido e nem aparatosas vestes. Não havia tampouco coroinhas, diáconos ou seminaristas. Viu somente duas imagens: uma de Jesus, outra de Gregório o Iluminador, emoldurados em madeira comum de cor preta.

As pessoas sentadas em bancos compridos seguravam um livrete. O padre de pé atrás do púlpito lia a Bíblia em voz alta. Seu traje não o distinguia dos fiéis. Vartan compreendia tudo que o padre pregava pois seu linguajar era simples e inteligível. A palavra de Deus brotava de seus lábios tal água pura jorrando de manancial. Estava explicando  o sentido da frase “É com o suor da tua testa que você vai ganhar teu pão”. Para Vartan isto significava que Deus tinha amaldiçoado Adão e todas as gerações futuras. Mas agora escutava o padre explanar ser conselho que dava para o Homem não se entregar à preguiça e trabalhar para alcançar o almejado.

O sermão terminara. Do meio dos presentes surgiu um camponês. Começou a discursar sobre o mesmo tema do padre. Pedia a Deus saúde, sabedoria e força para criar, trabalhar e cultivar a terra abençoada por Ele. “Que tipo de reza é essa?”, pensou Vartan. “Só pensam em bens materiais. Será que não se preocupam com que advirá depois da morte?”.

A reza terminou. Homens e mulheres, velhos e crianças entoaram um hino. Era um arranjo de um dos salmos de David que dizia em resumo:”Muitos perguntam: quem é que nos mostrou as graças do Senhor, que iluminou nossas faces com Tua luz,  abençoou a felicidade dos nossos corações e abarrotou nossas casas com trigo, vinho e azeite...”.

“Novamente valoriza-se somente o material” cogitou Vartan, “nem uma palavra sobre o espiritual. O lavrador louva a Deus agradecendo a abundância da colheita. É surpreendente a capacidade dessa gente em adaptar os salmos ao dia a dia.”

Mas que lindo hino era aquele! A doce melodia cantada com fervor confundia-se com o som grave do órgão. Vartan estava em êxtase. Era a primeira vez que escutava um coro tão harmonioso que parecia subir até o trono de Deus. 

A missa acabou. Os fieis saíram lentamente da igreja. No mesmo púlpito onde o padre discursara, subiu o professor e nos bancos onde o povo se acomodara sentaram seus filhos. Meninos e meninas, confundindo-se, prepararam-se para ouvir a explanação do mestre.”Será que transformaram a igreja em escola? ou juntaram os dois num mesmo local? Esta gente é deveras sábia. Economizaram o dinheiro da construção de uma escola. De novo o material acima de tudo.”

O rosto do professor pareceu-lhe bastante familiar. Era muito parecido com o padre Maruk. Suas feições, sua altura e até sua voz eram parecidas. Sem dúvida só podia ser ele porém sem seu traje eclesiástico. Vartan não acreditava no que estava vendo. Era ele, o inimigo do ensino que tanto atormentara Salman e agora dirigia uma escola tão bem organizada? Era o mesmo que cobrava seus serviços sacerdotais e pensava somente nos seus haveres? Estas dúvidas perturbavam Vartan de tal forma que não resistiu e aproximando-se, perguntou:

_ “Padre, o que o Sr. fez com seus haveres?”.

O padre medindo o jovem desconhecido dos pés à cabeça, o tomou por um pobre idiota e fixando- o bem nos olhos nada respondeu fazendo entender que si se retirasse poderia terminar a sua aula. Era aula de História Natural, o que deixou Vartan novamente perplexo. Como um padre poderia ser naturalista e teólogo ao mesmo tempo?

Vartan não esperou o fim da aula, saiu e deteve-se no adro. Ao olhar ao seu redor, notou não haver o costumeiro cemitério ao lado da igreja. Ao invés, estava rodeado de árvores e flores. Ficou contemplando por longo tempo o lindo canteiro até que um camponês, vendo ser forasteiro, aproximou-se e o convidou a entrar em sua casa e participar do desjejum da família.

Como as outras, era casa de tamanho médio cercada de árvores e flores. Continha vários cômodos simples, asseados, e mobiliados adequadamente. A filha, adolescente ainda, recebeu o pai cantarolando. Parecia que nem as tristezas, nem as vicissitudes da vida tinham perturbado o coração da linda jovem. Não ficou acanhada como era o costume das moças armênias, conversou com o moço com naturalidade brincando e dando risada, dando a impressão de se conhecer há muito tempo. Sua semelhança com Lalai era espantosa. Provocou em Vartan tal encantamento que num ímpeto quis abraçar a moça dizendo: “até que enfim te encontrei....”.

A mesa estava posta e a dona de casa encheu as xícaras com café e leite acompanhados de creme. A moça, sempre sorrindo, trouxe para o pai ler um artigo do jornal que ela sublinhara. O pai pôs os óculos e ao ler o artigo disse:

_ “Já li este artigo, Lalai.”

_ “Lalai!” exclamou Vartan sem poder se controlar.

_ “Esse é um nome comum na nossa família.” disse o anfitrião.

Com essa explicação Vartan sossegou um pouco mas não conseguia se convencer de a moça não ser a sua Lalai. Se não era Lalai era certamente uma réplica. É verdade que depois da morte os espíritos adquirem outra educação e o caráter também muda, conservando porém a mesma fisionomia. Além da jovem moça, Vartan notou também o ambiente da casa, aconchegante e confortável. E agora estava constatando que levavam vida tranqüila, ganhando o suficiente para viver decentemente.

_ “Não é trabalhando sem parar que vamos conseguir ter vida melhor, mas sim aprofundando nossos conhecimentos para torná-la mais fácil. Há muitas forças na Natureza legadas por Deus, basta sabermos nos aproveitar delas.”

_”Isso é verdade”, disse Vartan. Mas depende dos Curdos. Se deixassem de pilhar e saquear, os camponeses também teriam uma vida decente.”

_”Curdos? que Curdos? respondeu admirado o anfitrião.

_”Aqueles que estão sempre a roubar vocês.”

_”Ah! os Curdos”, disse o hóspede tentando rememorar de algum povo agora esquecido.”Eu li a respeito. Na Idade de Ferro da nossa História, é verdade, havia Curdos saqueando as casas de nossos ancestrais e até matando-os. Mas agora onde estão esses bárbaros? Desapareceram. Raça igual aquela não poderia conviver com o progresso da nova civilização. Por isso desintegraram-se. No começo do século passado converteram-se  a nossa religião, começaram a freqüentar nossas escolas e pouco a pouco misturaram-se conosco. Não existe mais Curdos.”

Vartan não acreditava no que ouvia. Parecia-lhe sonho. Na realidade, estava sonhando. O dono da casa prosseguiu:

_”Na saga de nossa família consta alguns trechos sobre Curdos. O primeiro de nossos antepassados chamava-se Khatchô. Era prefeito da cidadezinha e dono da maior fazenda da região. Toda sua família foi massacradas pelos Curdos e sua fazenda incendiada. Ele e dois de seus filhos morreram na prisão. De seu primogênito sobrou um menino .......

_”O qual fugiu com sua mãe e junto aos refugiados de Alachguerd, veio para Vaghachabad” emendou Vartan.

_”É verdade. Somos seus descendentes.”

_”O nome do menino era Hovaguim. Tinha um irmão chamado Nazlu que morreu junto com mãe. Um médico adotou o pqueno Hovaguim e o criou.”

_”Aonde você leu tudo isso? Indagou o dono da casa, admirado.”

_”Não li. Vi com meus próprios olhos. Foi exatamente no tempo em que os Curdos destruíram todo o povoado de Alachguerd.”

_”Mas isso aconteceu há mais ou menos duzentos anos e você me parece bastante jovem para ter a idade de Matusalém. Você não pode ter visto isso com seus próprios olhos” retrucou o anfitrião sorrindo.

Vartan nada soube responder. Estava a perceber que de fato passaram-se alguns séculos.

Sentado perto da janela e cercado de toda a simpática família, Vartan contemplava o vale verdejante que se estendia até o pé da montanha. Ali, havia imensas árvores cujos galhos se entrelaçavam e se destacavam num céu azul e limpo em magnífico espetáculo. O sol da manhã lançava seus raios cor de ouro. Eles se espalhavam pelo vale, se dispersavam, serpenteavam tais cobras prateadas refletidos nos vários rios da planície. Vartan parecia hipnotizado pela paisagem. Nas mãos de lavradores competentes a planície outrora inculta transformara em lindas plantações formando quadro digno de um pintor de renome.

_”Você mencionou curdos e turcos  relembrando os tempos sombrios de antanho” continuou o dono da casa. “mas tudo mudou desde então. Está vendo estas magníficas montanhas? Estavam totalmente peladas. Cento e cinqüenta anos atrás, não se encontrava um arbusto sequer. Naquele tempo os bárbaros nada respeitavam e da mesma maneira como massacravam a população, destruíam a vegetação. Não existia mais madeira. Pra acender o fogo usava-se o estrume ressecado do gado. O povo morava em grandes buracos cavados na terra. Quando a paz voltou e o povo se instalou decentemente, as montanhas voltaram a se cobrir de árvores. Todas foram plantadas pelos camponeses. Está vendo aquele vale verdejante? Antes, era mais uma espécie de bosque inculto, totalmente deserto. Corria um riacho tão insignificante que, nos primeiros dias de verão, secava. Mas quando as árvores brotaram e formaram essa linda floresta, a água apareceu novamente e o vale tornou-se fértil. Você vê, muitas coisas mudaram. Antigamente não havia estradas, eram caminhos de terra batida. Hoje temos estradas de piso duro e resistente ligando uma cidade à outra. Transitam ali não somente veículos puxados por bois, mas também a vapor. Vendemos nossos produtos para partes longínquas e recebemos outros em contrapartida.”

Vartan ouvia tudo isso com admiração mas, quando olhou para Lalai, teve ímpeto de perguntar ao seu interlocutor, onde ela havia estudado.

_”Faz uma semana ela tirou o diploma do colegial no liceu Nor-Vagharchaguerd, e agora se prepara para entrar na faculdade e ser médica. A saúde dela deixa um pouco a desejar e eu gostaria que ficasse mais um pouco aqui conosco para se recuperar totalmente. Mas ela se recusa terminantemente.

_”Quantos filhos o Sr.tem?”

_”Nossa linhagem foi sempre prolífera. O primeiro chamava-se Khatchô. A sua família constituía-se de cinqüenta pessoas. Eu tenho somente cinco filhos. Lalai é a caçula e a única menina. “

_”E os quatro outros, o que fazem?”

_”Um deles é guarda florestal, outro é professor na Faculdade de Garin. O terceiro é oficial do Exército em Van e o quarto é professor primário na escola de Nor Bagravant.”

Vartan estranhou este nome“Nor Bagravant” e perguntou:

_”Nunca soube existir nestas paragens uma cidade chamada Nor Bagravant.

_”Antigamente se chamava Bayazid. Muitas províncias e cidades mudaram de nome, readquirindo a denominação histórica ou uma outra qualquer.”

O dono da casa ao pegar novamente o jornal e ao percorrer os vários artigos franziu o cenho.

_”Quais são as novas?” perguntou Vartan.

_ “Nada de importante. Vai ter uma assembléia dos nossos representantes. Vão ser discutidos alguns assuntos polêmicos. Não imagino qual será o resultado. Os partidos estão muito empenhados”

_“O Sr. estará lá?”

_ “Não posso faltar”

Vartan cogitou ser ele vereador da cidade.

O desjejum terminara. Vartan levantou-se, agradeceu e pediu licença para se retirar.

_ “Se desejar conhecer a cidade, terei imenso prazer em ciceroneá-lo”, disse o anfitrião.

_”Aceito e sou lhe muito grato.”

_”Se por acaso estiver por aqui outra vez” nossa porta estará sempre aberta para o Sr.”, disse a dona da casa.

_”Muito obrigada, Senhora”.

_”Isso, naturalmente, se nossa casa lhe agradou”,acrescentou Lalai com um lindo sorriso.

_”Muito obrigado, Senhorita”, disse Vartan, inclinando-se ligeiramente.

Ao sair, Vartan realizou o quanto parecera rústico no seio daquela família. Condenava-se por ser tão tosco, tão inculto, por não poder se expressar como eles, o que lhe daria a oportunidade de fazer parte de uma sociedade igual a essa.

Mas que milagre era esse! Após vários séculos os descendentes do velho Katchô tinham apurado a estirpe, aperfeiçoando-se de geração em geração, criando uma nova raça.

Vartan e seu anfitrião saíram da casa e começaram a passear pelas ruas da cidade. Cruzavam com camponesas acompanhadas de seus maridos. Elas, vestidas de modo simples,com roupas limpas e bem ajeitadas, tendo nas mãos algo para tricotar. Eles, com traje operário. Não havia desocupados. Vartan estava admirado ao ver como tudo havia mudado, para muito melhor. A rudeza do homem da roça desaparecera. A civilidade e boas maneiras predominavam. Uma só coisa não havia mudado: o idioma. Mas como a língua tinha se apurado! As entonações eram mais harmoniosas.

Em todos os lados viam-se terras bem lavradas, lindas chácaras, pequenas e prósperas fazendas. Passaram por uma oficina onde serravam madeira com máquinas a vapor. Fabricavam todo tipo de móveis que eram vendidos às cidades vizinhas.

_”De quem é essa oficina?”, perguntou Vartan

_”É da nossa comunidade. Aqui, não existem proprietários individuais. Qualquer oficina pertence ao povo e o lucro é dividido entre todos. As toras provêm da floresta vizinha também pertencente aos camponeses.”

Continuando o passeio o hospedeiro prosseguiu:

_”Está vendo esta construção. É uma queijaria. Cada camponês traz aqui o leite produzido por sua vacas ou ovelhas. Transformado em queijo é repartido proporcionalmente à quantidade de leite trazida.

Mais tarde chegaram ao campo onde a colheita estava sendo efetuada. Não como antigamente com o alfanje, mas sim com máquinas movidas a vapor. “Agora estou entendendo o verdadeiro significado da palavra PROGRESSO.”, pensou Vartan.

Passaram por um moinho. Lá também tudo era diferente. Em vez de água, empregavam o vapor. Todas as aldeias da redondeza traziam trigo o qual após moído e transformado em farinha alva e puríssima era vendido até para fora do país. Também pertencia à comunidade.

Mas o que mais chamou a atenção de Vartan foi a desenvoltura, o desembaraço com que os operários e os camponeses se expressavam e se comportavam. Pareciam ter nascido num país livre e independente. Pareciam não ter medo da crueldade dos curdos e do jugo do Governo turco. Percebia-se que esses operários e camponeses eram capazes de enfrentar qualquer inimigo e trocariam com facilidade arado e martelo por fuzil e espada. E saberiam perfeitamente se defender.

_”Em tempos de guerra”, disse o hospedeiro,”essas pessoas se transformam em soldados. Naturalmente todas as atividades cessam causando grande prejuízo ao país, mas tem suas vantagens”

No caminho de volta, ao aproximarem-se da aldeia, depararam com um grande edifício construído no meio de uma fazenda.

_”Aqui está nossa escola de agronomia” continuou o hospedeiro, “aquela que você viu de manhã é nossa escola fundamental.”

Que tipo de escola é essa? Nunca Vartan tinha visto coisa semelhante apesar de outrora ser professor. Ela reunia todos os elementos necessários à agricultura. As terras ao redor da escola eram cultivadas pelos alunos. Lá se encontravam todo tipo de vegetais, plantas, flores etc... Os alunos pouco aprendiam nos livros. Estudavam todas as matérias proporcionadas pela Mãe Natureza> Praticavam ginástica todos os dias e aprendiam o manejo de armas.”Eis como se formam bons soldados e bons lavradores” pensou Vartan.

Vartan agradeceu o acolhimento e despediu-se do gentil compatriota. E agora onde deveria ir? Nem ele sabia. Apercebeu-se de um veículo que mais parecia um ônibus. Ouviu dizer que ia até a estação de trem. Foi até a plataforma onde uma multidão esperava o trem chegar. De repente ouviu uma voz familiar que gritava “Vartan!”

Vartan voltou-se e deparou com Salman. Os dois amigos abraçaram-se efusivamente.

_”Aqui estamos, amigo.” disse Salman segurando firme o braço de Vartan,”após duzentos anos encontramo-nos novamente. Faz bastante tempo,não é? Você nada mudou. Mas em contrapartida muitas coisas mudaram aqui na Armênia durante todo esse tempo. Você lembra o que eu te disse, Vartan? Que a Armênia era o berço da humanidade. Foi o Éden na idade da inocência. Certo dia alcançou a maturidade e chegou à idade do progresso. Agora ela está realizada. Agora o povo pode se sustentar são e salvo e viver condignamente no solo pátrio. Mas se você soubesse o imenso esforço despendido para alcançar nossa meta! Pelejamos muito....tivemos que superar inúmeras provações e calamidades mil. Foi a custo de muito suor e sangue que conquistamos nosso bem-estar.

_”E agora onde você está indo” perguntou Vartan.

_”Vou até a cidade. Fui eleito deputado por esta região e vou assistir à sessão da Assembléia Legislativa. Vem comigo. Talvez você se interesse em assistir aos debates.”

O trem apitou pela última vez e eles subiram no vagão. Já era noite. Ao chegar a rumorosa cidade estava ainda adormecida. Nas ruas circulavam somente alguns operários dirigindo-se apressadamente para as fábricas.

_Para o hotel “Pombal de Natal” ordenou Salman ao motorista.

O carro andava célere pelas ruas de piso duro e liso e sem buracos. Dos dois lados havia altos edifícios cada um pintado de cor diferente. Vartan achou que eram palácios. Salman apontava para os edifícios mais importantes.

_”Veja aqui nossa Universidade e lá a Academia de Ciências...Olha para esse palácio que outrora pertencera a um dos Reis, hoje transformado em museu....Nosso Teatro Municipal....Nosso Hospital e as estátuas de nossos Heróis de guerra e por fim a sede de nosso jornal que tem tiragem de cento e cinqüenta mil unidades por dia, ali.....”

_”E onde fica a caserna?” Cortou Vartan

_” Não há caserna. Aqui todos os cidadãos são também soldados.

_”Linda cidade!.....Maravilhosa cidade! Exclamou Vartan cheio de admiração.

O veículo parou diante do hotel. Entraram e no saguão toparam com Tomás Efendi e Melik Mansur em discussão acalorada.

_”Isso seria o “martirológio” dos burros” dizia Tomás Efendi.

_”Mas na minha opinião isso seria o melhor caminho para alcançar a meta desejada”, retrucou Melik Mansur

_”Pelo contrario, esse caminho nos afastaria de nossa meta e só a alcançaríamos na páscoa dos burros.”

_”Olha aí, o Salman! Vamos perguntar o que ele acha disso tudo.”

Mas qual foi a surpresa deles ao ver em Vartan surgir ao lado de Salman.

_”De onde você saiu? perguntou Tomás Efendi com seu habitual sorriso irônico.”

_”Eu que pergunto” respondeu Vartan, “ pois resgatei você nas encostas das montanhas de Alachguerd e depois o enterrei no cemitério dos Curdos. E agora......”

-“E agora ressuscitei”, disse Tomás Efendi gargalhando. “Você não acredita na reencarnação das almas? Minha alma imunda incorporou-se em várias feras da pior espécie. Durante várias décadas estive no corpo de um lobo. Atacava e devorava tudo ao meu alcance. Depois, mais algumas décadas transformaram-me num vira-lata. Rondava as casas. De vez em quando me jogavam um osso. Algumas décadas mais tarde virei uma cobra. Rastejava e injetava veneno em tudo que se movia. Mais tarde tornei-me um burro. Puxavam tanto minhas orelhas que perdia a razão. Por fim, virei um leão. Minha alma estava bem mais purificada. Tudo isso durou duzentos anos. As múmias que estão debaixo das pirâmides esperam milhares de anos o retorno de suas almas, a minha conseguiu superá-las e estou aqui.”

_ “E eu tive a sorte de reencontrar um Tomás Efendi totalmente diferente.”

_”Aquele Tomás Efendi era o protótipo de seu século. Agora os tempos mudaram. Hoje sou um dos representantes desta nova geração que progrediu muito, tornando-se nobre e generosa. Você lembra, caro Vartan, de Melik-Mansur perambulando pelas ruas de Alachguerd gritando “lindos alfinetes”. Pois é, agora se tornou uma alta patente de nosso Exército.”

Vartan votou-se para Melik-Mansur e cumprimentou-o respeitosamente.

“Estamos nos atrasando, Senhores. A sessão vai começar”, disse Salman com sofreguidão.”

_”É um dos líderes de nosso Partido” cochichou Tomás Efendi no ouvido de Vartan. “É o Partido Livre Pensador. Preparou um discurso notável...E que orador!

Vartan, entusiasmado, disse:

_ “Me levam junto”.

Uma voz desconhecida gritou:

_ “Vamos!”

Vartan abriu os olhos e percebeu que tudo que vira não passara de sonho. Estava deitado no túmulo de Lalai envolto pela escuridão. Mas que voz estranha era aquela que proferira:”Vamos!”.

De repente quatro braços musculosos o carregaram e tudo desapareceu nas trevas da noite.

 

FIM