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CAPÍTULO I

 

Bayazid estava sitiada.

Turcos, Curdos, ciganos, vagabundos e mais de vinte mil marginais, aliados a soldados do exército turco cercavam a cidade semidestruída de onde saíam densas fumaças denunciando uma imensa fogueira. As casas dos Armênios estavam desertas. Muitos de seus moradores tinham sido trucidados pelos bárbaros e outros levados como escravos. Somente uma minoria, prevendo o pior, conseguira escapar e fugir atravessando a fronteira da Pérsia na direção da cidade de Macu.

Porém a cidadela de Bayazid permanecia inexpugnável.

Um número restrito de soldados russos ao lado de mercenários armênios e turcos ainda resistia, e com a coragem do desespero, esperavam a hora do terrível desfecho. O forte estava cercado como que num anel de ferro o qual pouco a pouco se estreitasse, dia após dia, até sufocar e matar todos os desesperados sitiados. As comunicações com o mundo exterior estavam cortadas.

Fazia 23 dias que o cerco ocorrera, exatamente dia 6 de Junho de 1877. Foi no tempo em que a gloriosa espada russa viu a sua sorte vacilar. Os Muçulmanos, que de início haviam aceitado o domínio russo de bom grado, se rebelaram e se juntaram ao exército de Ismael Paxá.

O general russo Der-Ghukassov, comandante da região de Yerevan, encontrava-se naquele momento entre Zeitekani e Dali-Babá lutando bravamente contra as forças de Mukhtar Paxá , cinco vezes mais numerosa. Com certeza, não estava a par do que estava acontecendo em Bayazid, cuja guarda havia deixado sob a responsabilidade do comandante Ichdogvitch.

Era noite. As pontas da lua crescente acabavam de desaparecer no horizonte; a escuridão reinava. Certamente, os sitiados preferiam as trevas, pois a lua, tão amada e decantada, os denunciava com seus raios prateados, mas até a escuridão não impedia o ataque dos ferozes bárbaros.

Ao longe, no alto da colina, avistavam-se os contornos do forte, e era ali onde choviam os obuses dos canhões e as balas dos fuzis. O forte rugia como animal selvagem atacado por todos os lados. Porém resistia com obstinação, recusando a morte e seu destino. Se fosse para morrer queria morrer com glória. Cerca de mil soldados russos, junto a outros mil mercenários armênios e turcos estavam lutando contra os vinte mil de Ismael Paxá. Os tiros disparados pelo forte eram poucos; economizavam-se rigorosamente as balas que escasseavam rapidamente. Ás vezes, atiravam um ou dois obuses na direção de onde vinha o tiroteio.

Naquela mesma noite, numa das dependências do forte, que servira de quartel aos soldados russos, e agora em ruína após o ataque dos Turcos, uma multidão de homens estava estendida no chão, apavorada e angustiada diante desta horrível matança.

"Água, por favor.....estou morrendo de sede" ouvia-se de toda parte.

"Um pedaço de pão.... estou morrendo de fome", murmuravam outros com voz quase inaudível.

Fazia uma semana que esses coitados nada tinham para comer e beber. Ninguém esperava que o sítio ocorresse com tamanha rapidez. Não houvera tempo para estocar alimentos. Na verdade os sitiados tinham três inimigos, dois no interior do forte: a sede e a fome e o terceiro lá fora: o inimigo.

No dia 8 de junho já não havia mais comida quente. Tinham matado e comido todos os cavalos. Sobrara a cevada que também logo terminou. Por fim, foram obrigados a racionar os alimentos de tal maneira que cada pessoa tinha direito a quatro bolachas por dia e a uma colher de sopa de água. O calor do mês de junho era intenso. No ambulatório, a sorte dos doentes era parecida à dos outros.

Não havia água no forte. Do lado de fora, a trezentos passos encontrava-se um manancial que os Turcos haviam tapado. Todas as noites, de vinte a trinta sitiados tentavam chegar até lá para trazer água. Quase sempre ninguém retornava.

* "Pão....água......," novamente esses gritos ecoaram na noite escura. Mas o estrondo dos obuses abafava a voz dos desgraçados.

Esse é o momento exato em que o ser humano não sente mais compaixão por seu semelhante pelo fato de não ter absolutamente nada para ajudá-lo. Por isso, ninguém prestava atenção aos gemidos dos esfomeados e aos lamentos dos sedentos. Cada qual estava preocupado consigo mesmo e, espada na mão, esperava a chegada do inimigo para lutar e morrer com honradez.

No alto do forte existiam pequenas seteiras atrás das quais, soldados armados com fuzil, espiavam o vaivém dos inimigos. Eles não se atreviam a levantar a cabeça . Das colinas em volta do forte , o inimigo atirava sem cessar, e as balas zuniam tão perto dos rostos que pareciam queimá-los.

Da cidadela, avistava-se na cidade uma cena dantesca. Parecia um dia de festejo, tão iluminada estava. Também as colinas em volta da cidade estavam iluminadas. Era a celebração da festa da “crueldade humana”. Os atores eram os sanguinários Muçulmanos. O Bárbaro, e somente ele, com suas fogueiras, sua alma perversa e com todas as suas cenas de horror poderia regozijar-se diante de tanta crueldade.

As casas dos Armênios ardiam em chamas. De cada janela, de cada porta, imensas labaredas misturando-se à fumaça , espalhavam por toda parte milhares de fagulhas. A cada instante o incêndio aumentava, envolvendo todo o bairro dos Armênios. Línguas de fogo brotavam dos telhados. Vigas queimadas despedaçavam-se e telhados ruíam com um estrondo infernal, cobrindo os moradores com manto de fogo impedindo-os de escapar. Os gritos e lamentos dos coitados, misturavam-se com o crepitar das chamas , as quais tal um gigantesco dragão se espalhavam no ar, apresentando com seu fulgor uma paisagem assustadora. Nesse imenso panorama iluminado, desenrolavam-se cenas apavorantes. Os Muçulmanos matavam os Armênios ; massacravam os que queriam escapar do fogo, não levando em consideração nem a idade e nem o sexo das pessoas. Agarrando os cabelos das adolescentes arrastavam-nas fora das casas. De todos os lados ouviam-se gritos de dor. Mas os choros e as lágrimas dos desgraçados não conseguiam aplacar a sanha dos vândalos.

Essas barbaridades não eram perpetrados somente pelos Turcos e pelos soldados do exército Turco, mas também pelas mulheres Curdas! Estas, feito as Fúrias da mitologia, tinham se esquecido do amor e da compaixão inerentes à mulher, ao arrancar os bebês dos braços das mães, atirando-os no fogo. Qualquer sinal de resistência era passada à fio de espada.Do alto do forte, alguns soldados Armênios choravam condoídos ao presenciar esse espetáculo do Inferno. A matança durou três dias e três noites, sem interrupção.

_ "Ah! Que chacina, que coisa horrível," diziam eles suspirando fundo.

Ao lado deles, um jovem Armênio observava também o crime cometido pelos bárbaros. Seus olhos permaneciam enxutos. Irritado, não demonstrava sinal de tristeza. Naquele instante, seu coração estava cheio de ódio, não para com os selvagens que queimavam e trucidavam, mas covardes que se deixavam matar como cordeiros.

_ "Olhem só!" disse ele, "em toda essa multidão não tem um único, que levante a mão contra seu carrasco. Estão queimando sua casa diante de seus olhos, atirando seus filhos na fogueira, raptando sua esposa e filha e ele, humildemente, baixa a cabeça esperando o golpe de misericórdia. Seu maldito! Você também é homem! Lute ! Mate ! e depois morra!"

_"Vartan, você não tem jeito, não tem dó de ninguém," disse um dos seus companheiros.

Vartan não respondeu e se afastou. Rememorava com pesar as cenas retratando a covardia dos Armênios. “Esse povo não sabe morrer com honradez” pensava ele.

Não longe dali, num dos cantos isolado do forte, um outro grupo de soldados Armênios confabulava :

_ "Hoje a noite, teremos perdido nosso quinto companheiro , se Bedrós não voltar."

_ "Está demorando muito," disse o outro.

_ "Espere aí, não estão ouvindo os “crá-crá” do corvo? É ele, é seu sinal. Joguem a escada de corda!"Alguns segundos mais tarde, apareceu um moço, carregando um volumoso odre de água. Imediatamente, os companheiroscercaram, o abraçaram, o beijaram. Porém, um deles recuou um pouco, o observou e disse :

_ "Que é que é isso, Bedrós ? teu rosto está todo molhado!"

Nesse momento, as labaredas se elevaram um pouco mais e todos puderam ver o seu rosto pintado de vermelho.

_ "É sangue!" gritaram eles com espanto.

_ "Não é nada" disse Bedrós, sorrindo."Faz algum tempo que não jogava uma água no rosto e hoje resolvi lavar a cara , bem lavada."

Em poucas palavras, Bedrós contou que chegando perto do manancial topou com alguns Turcos vigiando o local e que o agrediram selvagemente. Levou algum tempo para dar cabo deles, mas nesse ínterim, levou uma pancada na cabeça.

_ "E cadê Hanês, Tomás, Atam, Nerson ?" perguntaram

_ "Manda eles pastar”, respondeu Bedrós com seu jeito gozador. "Parece que tinham combinado fazer uma reunião com seus antepassados. Um deles foi baleado ao querer sair do forte. O outro estava se contorcendo de dor a cem metros do manancial. O terceiro, estava perto da nascente, deitado, rijo como um pedaço de tábua; e um pouco afastado deles, Tomás segurava o seu peito sangrando. Graças a Deus, eu consegui me salvar e os vinguei."

Esses quatro moços a quem Bedrós se referia, tinham sido mandados, um após outro, para trazer água e não tinham retornado. Fatos semelhantes eram tão corriqueiros que ninguém mais se importava; o relato de Bedrós não impressionou seus amigos. Nem tinham cogitado em arrumar uma atadura para o ferimento dele. Aliás, o próprio Bedrós não pensava nisso.

_ "Esses Turcos malditos," prosseguiu ele, "parecem enxergar até no escuro. Ao menor suspiro, lá vem uma bala e você vê a vítima cambalear e desabar."

Assim conversavam eles na escuridão, quando lembraram do ferimento de Bedrós e fizeram um curativo. A seguir, carregaram o odre cheio de água para o pátio do forte: representava a salvação de milhares de vidas.

_"Amigos," disse um deles,"não vamos dar nem uma gota d’água para os Turcos. Não é por nada, mas hoje a noite perdemos quatro companheiros que sacrificaram suas vidas para trazer a água e eles não mandaram ninguém."

_ "Não, não fica bem. Vamos dar para eles também,"disse Bedrós.

_ "Mas não é justo," continuou o primeiro."Outro dia eles também trouxeram água, mas logo a esconderam. Beberam tudo. Não deram nada para nos."

_"Realmente, agiram muito mal. Mas nós, devemos dar o exemplo mostrando-lhes o que significa a palavra solidariedade entre soldados."

Adentraram o pátio e a multidão cercou os moços soltando gritos de alegria: água...água.

É praticamente impossível descrever a felicidade que sentia esse povo ao dirigir-se ao pátio. Houve um atropelamento geral e cada qual queria chegar primeiro para sorver o precioso líquido.

_ "Preciso de um pouco de luz," disse o moço que carregava o odre colocando-o no chão."Tentem ficar quietos e todo mundo terá sua parte."

Acenderam uma vela e uma luz tênue, amarelada se espalhou sobre a multidão que ria à toa.

O jovem Armênio escolheu a menor caneca existente e começou a distribuição. Porém, a água tinha um cheiro insuportável e seu gosto era bastante desagradável. Alguns ao tomá-la não notaram nada. Mas alguém gritou :

_"Que cor esquisita tem essa água!"

_ "Vai bebendo," disse Bedrós que estava postado ao lado dele, "os Turcos estão tingindo a água nessa cor, agora."

_"Como tingindo?" levantaram vozes de todos os lados.

_ "Estão tingindo com o nosso sangue. Se vocês vissem o número de cadáveres que têm, boiando no manancial. É desse manancial que eu trouxe essa água."

A multidão estremeceu, mas continuou a beber o líquido avermelhado onde tanto sangue havia sido derramado, onde cadáveres tinham-se decomposto. Um deles chegou até a tecer um comentário estarrecedor :

_"Assim é muito melhor, pois o caldo engrossou."

De repente, os gracejos dos soldados cessaram. La longe, ouviu-se novamente o rugido do canhão e os obuses começaram a sobrevoar o forte. Um deles caiu bem perto e ao explodir espalhou seus mortíferos estilhaços.

Enquanto isso, numa das dependências do forte, o responsável pela cidadela, o comandante Ichdogvitch, tinha convocado uma reunião com os oficiais presentes. Lá estavam os chefes dos mercenários turcos e armênios. No meio da sala, havia uma mesinha sobre a qual uma lâmpada de querosene iluminava com uma luz pálida os rostos tristes e preocupados.

Nestes últimos dias, haviam recebido inúmeras cartas pedindo insistentemente a rendição da cidadela. As cartas eram escritas pelo perverso e rancoroso Chamil, filho do general russo Leydenande. Chamil, do exército turco, aliado do Sultão. A sua última carta estava repleta de promessas e de ameaças. O objetivo da reunião era justamente essa carta; deveriam discutir o teor da resposta.

_ "Enquanto vivo, nunca vou me render," disse o comandante.

_"Mais alguns dias de cerco e será impossível resistirmos," disse um dos oficiais.

_"Nossa posição hoje, já está insustentável. Não temos mais nada para comer, para beber e nem munições. Não entendo porque esses idiotas Turcos não atacam de uma vez, para acabar com tudo isso," disse um oficial com voz exaltada.

_ "Na verdade, fomos bastante incompetentes," disse um outro

_"O que passou, passou. Vamos falar do presente,"disse o comandante que, nessas circunstâncias era o chefe supremo da cidadela, conforme as leis marciais, e repetindo a sua frase inicial disse: "enquanto vivos não vamos nos render."

_"Se não conseguirmos ajuda do exterior," estaremos perdidos, bradou o chefe dos mercenários turcos.

_"Eu acho que devemos abrir as portas do forte, arrebentar esse cerco do inferno e atacar. Ou conseguiremos escapar, ou cairemos nas mãos do inimigo."

_"Essa sua última hipótese é a mais provável," disse o chefe dos mercenários armênios, e as conseqüências serão terríveis."Este forte cumpre atualmente o papel de muralha impedindo o avanço das forças otomanas; se deixarmos eles passarem, as forças de Ismael Paxá, alcançarão em alguns dias Yerevan e Nakhitchevan e talvez irão ainda mais longe. Os Muçulmanos das regiões mencionadas estão esperando impacientemente os seus correligionários com o intuito de ajudá-los, enquanto os Armênios cristãos nem armas possuem. Além disso, nessas regiões as nossas forças são diminutas, pois o grosso do nosso exército está acampado na proximidade da cidade de Kars. Até que voltem para defender Yerevan, os Muçulmanos terão arrasado tudo."

As palavras do oficial Armênio enfureceram o comandante Turco que berrou :

_ "Você está duvidando da lealdade dos Muçulmanos?"

_"Não estou duvidando. Tenho certeza. Tenho provas do que estou falando. Daqueles que nos cercam hoje, muitos vieram da cidade de Zila, aqueles mesmos que eram leais ao governo russo. E do lado de Nakhitchevan, um “molláh”1 fanático, sonha todas as noites que daqui a algum tempo o Islão reinará."

O comandante cortou-lhe a palavra, dizendo :

_"É preciso agüentar e resistir até o nosso último suspiro. Tenho certeza que logo receberemos ajuda. O general Der-Ghussakov não está muito longe daqui. Assim que ele souber da situação , virá correndo para salvar-nos. Portanto, precisamos contatá-lo com a máxima urgência."

_ "Mas como?" perguntaram

_ "Por carta," respondeu.

_ "E quem vai levar esta carta?"

_"Em toda esta multidão, deve haver um moço corajoso e abnegado que se encarregará dessa tarefa."

_"Suponhamos existir tal moço. Como vai passar? Estamos totalmente cercados."

_ "Vamos tentar."

O conselho, por unanimidade, decidiu escrever a carta e quinze minutos mais tarde o comandante de posse dela saiu da sala da conferência.

O ligeiro rufar de um tambor reuniu todos os soldados no pátio e o comandante começou a falar em voz alta :

_"Soldados! Não vou falar das dificuldades que estamos atravessando. Nossa situação é crítica. Atualmente, nossa única esperança repousa em Deus e é graças a Ele que receberemos o socorro tão almejado do general Der-Ghussakov. Mas se a ajuda demorar estaremos perdidos. Então, precisamos avisá-lo com a máxima urgência. Eis aqui uma carta que deverá ser remetida ao general, em mãos . Ele não está muito longe daqui. Assim que ele souber do que está se passando, virá correndo para salvar-nos. Agora, soldados, quem se habilita ? Aquele de vocês que se sente bastante preparado, e com a coragem necessária para cumprir essa perigosa missão, que se aproxime ! Eis aqui a carta ! Será lembrado para sempre e recompensado por ter salvo tantas vidas humanas. Apareça homem!"

A multidão permaneceu calada. O silêncio era total.

_"Vou repetir", continuou o orador, com voz embargada,"nosso destino está intimamente ligado a esta carta. Então, quem vai ser o salvador dessa nossa cidadela?"

Novamente o silêncio pairou no pátio.

_"Será que não há um só, somente um, abnegado e destemido entre vocês?" prosseguiu o comandante, desta vez com voz trêmula

_ "Eu!"

O grito rasgou o silêncio e um jovem armênio saiu da multidão e pegou a carta.

O jovem era Vartan.

 


1 religioso  muçulmano