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CAPÍTULO II

 

Na manhã seguinte, o raiar do sol iluminou Bayazid e seus arrabaldes:  um espetáculo horripilante descortinou-se. Podia-se avaliar agora, em toda sua crueza, o resultado de três dias e de três noites de massacres ininterruptos perpetrados pelos bárbaros. A cidade estava mergulhada em silêncio sepulcral, e somente de vez em quando se ouvia o grasnido dos corvos voando em grupo á procura de carniça.

As ruas estavam desertas. As casas tinham se desfizeram em cinzas, alguns focos do incêndio ainda permaneciam; perto de quase todas as moradias havia cadáveres de velhos, moços, mulheres, e  crianças. Cachorros famintos arrastavam os corpos e, rosnando,  latindo, tentavam espantar os corvos. De  todas as partes. casas, quintais e lojas emanava um cheiro fétido.

No meio da cidade morta, erguia-se a cidadela.

O cerco se fechava. Montes, colinas, campos, planícies pululavam de gente. O exército e a horda ocupavam tudo. O exército estava dividido em vários batalhões e, em cada um deles, notavam-se um incessante vai-e-vem e muito barulho. O fanatismo religioso dos muçulmanos e a impiedade dos soldados turcos alimentavam a crueldade dos Bárbaros. O Homem, feito animal, chacinava o seu semelhante.

Após fartarem-se de sangue, queriam saciar a cobiça. Estendidos no chão, vários Armênios, supostamente ricos, gemiam sob os duros golpes desferidos. Era preciso que mostrassem o esconderijo de suas fortunas. Os infelizes choravam e gritavam ter dado tudo e nada mais possuir. Mas não acreditavam. Para revelar o que queriam saber, degolavam as crianças sob o olhar horrorizado dos pais. Em local próximo, Curdos repartiam os proventos da pilhagem que eram carregados no dorso dos cavalos pelas esposas que cantarolavam, felizes que estavam. Numa praça ao lado, não longe dali, estavam repartindo as escravas, todas jovens e belas. Surgiam então muitas discussões durante a divisão, porquanto todos queriam a mais bonita e chegavam a se ameaçar com a espada.

  Enquanto isso, lobos, gatos selvagens e aves de rapina iniciavam sua refeição matinal, deliciando-se com os cadáveres. Havia também soldados muçulmanos rezando com devoção, erguendo para o céu suas mãos salpicadas de sangue, glorificando Alá do Islão. A fumaça gerada pelo tiroteio e pelo fogo encobria parcialmente tudo isso e impedia os raios do sol iluminarem todas essas cenas matinais. Os obuses, trovejando, continuavam a martelar as muralhas do gigantesco forte, mas este, assentado no alto da colina, permanecia imperturbável diante dos ininterruptos ataques.

Porém toda a atenção da turba estava concentrada num dos pontos da cidade. Um personagem saltitante, batendo palmas, cantando com voz de falsete, circulava no meio dos soldados. Era uma canção curda, sem nexo e que dizia:

 O velhinho virou sapo

Virou sapo e pulou no mar

Tirou areia do mar.

A areia virou ouro.

Com o ouro comprou uma cabra

Uma cabra capenga e lazarenta

Cabritinho, cabritinho

Meu cabritinho

Porque você é capenga e feínho ?

Os soldados em volta dele se cutucavam e diziam : “é o louco” e queriam que ele cantasse de novo. E, de fato, o homem era louco, ou pelo menos, aparentava todos os sinais de loucura. O seu traje era dos bufões que acompanham os acrobatas naquelas bandas, com suas mímicas e cambalhotas divertindo o populacho. Era um moço alto , de rosto severo. Tinha posto na cabeça uma espécie de chapéu de feltro velho, costurado de tal maneira, que formava um quadrado em cujas pontas estavam pendurados quatro sininhos que tilintavam a cada movimento que ele fazia, causando assim uma cacofonia desagradável. Havia pintado o rosto de vermelho, azul e amarelo. Roupa de uma peça só, cobria sua nudez da cabeça aos pés. Uma corda esgarçada lhe servia de cinto. E para completar o quadro, estava descalço.

_ "Vê se você zurra como um burro", lhe gritavam no ouvido.

O louco enfiava os dedões nas orelhas, abria uma bocarra e começava a imitar o burro, zurrando com toda a força de seus pulmões. O povaréu morria de rir e alguns lhe jogavam moedas que ele apanhava, admirado, virava-as de todos os lados e as atirava no chão dizendo “quero pão”. Davam-lhe pão e ele enfiava pedaços enormes na boca engolindo tudo sem mastigar.

_"Você deve saber dançar como os ursos. Vamos ver se é capaz" diziam alguns.

E ele fazia movimentos desconexos, caía de quatro, levantava as pernas , plantava bananeira e inventava palhaçadas.

Um dia inteiro o louco permaneceu no meio dos soldados, entretendo-os, divertindo-os, gritando palavrões em Curdo e berrando, dizendo ser preciso acabar com todos os “guiavur”1. Até a meia-noite ouviu-se o seu berreiro. No dia seguinte, ninguém mais o viu.


1  Termo pejorativo usado pelos muçulmanos para designar os Cristãos.