ARMÊNIA-BRASIL

Home

Minha História

Alfabeto

Cultura

Contos Épicos

David de Sassun

Dicionário
Armênio-Português

Dicionário
Português-Armênio

Genocídio

História

Khent

Links

Mapa

Publicações

CAPÍTULO IV

 No dia seguinte a esses acontecimentos, um cavaleiro trajado de Curdo, cavalgava célere e alcançava a vanguarda do exército de Der-Ghussakov. Apeando rapidamente, pediu para ser recebido com urgência, por ter uma mensagem para entregar ao general. Um oficial pegou a missiva e entrou na tenda do comandante supremo enquanto o cavaleiro esperava do lado de fora. Alguns minutos mais tarde estava diante do general.

No meio da tenda, sentado na frente de uma mesa, um militar de cabeça leonina, cabelos cinzentos, de altura mediana, corpulento, altivo, acabara de ler uma das cartas espalhadas na sua frente. Parecia atormentado e fumava sem parar. Era o general Der-Ghukassov. Por fim, encarou o estafeta e disse:

_ Você é Armênio?

_ Sou. Além disso, filho de padre[1], respondeu o moço.

O general apreciou a postura briosa do rapaz e prosseguiu com seu interrogatório.

_ Há pão na cidadela?

_ Pão? Daqui a pouco vão comer uns aos outros se não quiserem morrer de fome.

_ E água?

_ Não tem água. Tem que vir de fora. Durante o dia, isso é impossível e todas as noites dez a vinte homens saem do forte, descendo pelos muros com escadas de corda, para trazer água. Mas os Curdos estão atentos e logo começam a atirar. A maioria das vezes, ninguém consegue retornar.

_ E armas e munições?

_ Quase nada. Mas um dos nossos, Armênio, achou, escondido num grande buraco, muitas armas e munições. É com elas que estamos lutando.

_ E você, como conseguiu sair de lá?

_ Antes do sol nascer, desci por um dos muros do forte, e entrei diretamente no meio do exército turco. O dia todo banquei o idiota.

Cantei, dancei, fiz mil e uma palhaçadas, enfim os diverti enquanto pude e com isso entrei em todos os cantos e ouvi tudo o que diziam; e a noite desapareci.

O general atônito fitava o rapaz. Por fim perguntou :

_ O que está me contando ? Você é louco?

_ Sim Senhor, respondeu tranqüilamente o moço. Fui predestinado a bancar o louco durante toda a minha vida. Eu gosto e isso tem me evitado muitos dissabores. Eles acharam, de fato, ser eu louco e assim me introduzi no meio deles. E ele fez novamente todas as palhaçadas que já tinha realizado no meio do exército turco.

Um leve sorriso apareceu no rosto austero do general, que perguntou de um modo mais amigável:

_ E esse traje, como o arranjou?

_ Foi Deus que me ajudou. Encontrei um Curdo no meio do caminho. Estava com esse lindo cavalo, que está lá fora, com essas armas e esse traje. Matei-o e me apossei de tudo o que era dele.

_ Você me parece um moço corajoso, disse o general e leu novamente a carta. Diga-me, disse ele, são muitos os Curdos?

_ Dizem haver mais de vinte mil; mas não são somente Curdos ou turcos, no meio deles há toda sorte de muçulmanos. Quem possuía um fuzil qualquer e um cavalo correu para Bayazid, e assim se formou uma imensa multidão. Enquanto vinha para cá encontrei muitos grupos se dirigindo para lá.

_ Eles têm canhões?

_ Têm.

_ Qual é o plano deles na sua opinião.

_ Querem conquistar o forte de Bayazid o mais rápido possível para, em seguida, atacar Yerevan e depois Tiflís, se possível. Dizem que estão extremamente interessados pelas mocinhas da Georgia e da Armênia.

Apareceu um sorriso de desprezo na face do general:

_ Querem chegar a Tiflis com somente vinte mil?

_ Vinte mil não é pouco, mormente quando há somente mil soldados para os enfrentar. De mais a mais, as forças de Ismaël Paxá estão se deslocando para se juntar a eles e a população muçulmana está esperando de braços abertos os seus correligionários, prontos para ajudá-los em tudo que for necessário.

Novamente, algo parecido com uma nuvem negra passou diante dos olhos do general. Ele que jamais desanimara diante do perigo ficou abalado. Sem perceber, começou a esfregar a testa como se quisesse aliviá-la de um peso que o incomodava. Mas logo em seguida levantou a cabeça e perguntou:

_ Você entrou na cidade de Bayazid também?

_ Entrei. De Armênios cristãos, sejam velhos, velhas ou crianças, nem sombra. Uma enorme chacina. As mulheres e os adolescentes foram levados como escravos. Somente uma centena de famílias, que tiveram conhecimento do ataque do exército turco de antemão, fugiram e atravessaram a fronteira persa em direção da cidade de Macu. Mas não deu tempo de levar com eles absolutamente nada, a não ser a roupa do corpo. Ah! Esses Muçulmanos! Como foram cruéis e desumanos para com os Armênios cristãos!

_ Como assim?

_ Quando começou a guerra, o exército russo marchou e chegou perto de Bayazid. Os Muçulmanos da cidade ficaram apavorados pensando que os Russos iam fazer com eles o mesmo que o exército turco fez com os Cristãos, isto é, roubar, matar e saquear. Com esse pensamento levaram todos os seus pertences e riquezas para a casa dos Armênios dizendo: “Vocês são Cristãos. Os Russos não tocarão em vocês. Nosso dinheiro estará seguro aqui.” De fato, os Russos chegaram mas não molestaram ninguém, nem aos Muçulmanos e nem aos Cristãos, tratando todos da mesma maneira, sem discriminação. Depois quando os maometanos souberam que os turcos e os Curdos estavam chegando, disseram para os Armênios :  “Quando os russos ocuparam a cidade, vocês nos ajudaram. Agora é a nossa vez de demonstrar nossa gratidão. Dêem para nos todos os seus pertences e seu dinheiro; nos os guardaremos em nossas casas.” Os Armênios acreditaram piamente em suas palavras e deram tudo o que tinham. Alguns, com a esposa e os filhos foram para a casa deles. Quando chegou o exército turco, eles disseram: “Saiam das nossas casas! Se os Curdos e os soldados turcos souberem que vocês estão hospedados aqui, vão acabar com vocês e conosco também.” E assim entregando os Armênios aos Turcos, se apossaram de seus bens. Quando começou a matança, esses mesmos muçulmanos que tinham pedido e obtido tantos favores dos Armênios, puseram fogo às casas deles, aqueles mesmos que, um mês e meio atrás, tinham jurado fidelidade ao senhor e ao exército russo. Eles pegaram o fuzil e começaram a atirar nos Armênios. Até as mulheres turcas atiravam.”

O general russo ouvia em silêncio e o moço prosseguiu:

_ Oh! Se o senhor soubesse quantos jovens, belos e fortes, perdemos na batalha antes de lhes entregar a cidade de Bayazid. Como é do vosso conhecimento, general, havia um número pequeno de soldados russos aliados a mercenários e voluntários armênios e turcos para defender a cidadela. Ichdogvitch, aquele herói, tomava conta do forte com seus soldados russos enquanto os mercenários se encarregavam da defesa da cidade. Notícias alarmantes, provindo da cidade de Van, circulavam na cidade. Diziam que uma imensa multidão de turcos e de Curdos, encabeçada pelos sheiks Tchalaletin e Abdula se dirigiam para Bayazid. Imediatamente, pedimos para reforçar a fortificação da cidadela, levando para lá, mais armas e alimentos. Mas alguns dos nossos espalharam serem notícias fantasiosas e não ser preciso fazer nada disso. Até agora não entendi o motivo desses traidores em não deixar fortificar a cidadela. Naturalmente o senhor desvendará esse mistério, general. Mas de uma coisa o senhor pode ter certeza: os Armênios são e serão sempre fiéis ao senhor e ao exército russo.

O moço não parava de falar e o general percebeu que havia alguns pontos obscuros na sua narração. Ele o interrompeu e disse :

_  Conta-me o que vocês fizeram depois da ocupação dos Turcos.

_ Quando os Turcos entraram na cidade, Ichdogvitch tentou detê-los sem sucesso e rapidamente se retirou para dentro da cidadela. Porém nem todos puderam entrar. Primeiro porque não caberia todo mundo e segundo porque não havia comida para todos. Por isso, uma parte dos mercenários ficou do lado de fora. Alguns dos nossos companheiros, mercenários turcos, fugiram para a cidade de Iktir e outros atravessaram a fronteira persa. Porém, nós, os Armênios, resolvemos lutar até o fim para que a cidade não caísse nas mãos do inimigo. A maioria da população armênia da cidade estava disposta a nos ajudar. Eles sabiam o que lhes esperava quando os Turcos entrassem em Bayazid. O senhor presenciou, general, a imensa alegria que dominou os Armênios na hora que as forças russas penetraram na cidade pela primeira vez. Os Maometanos não poderiam perdoar esse gesto dos Armênios e estavam determinados a se vingar daqueles que preferiam a águia russa à lua crescente dos Muçulmanos.

_ Você não está me dizendo aquilo que eu quero saber, disse o general. Conte-me como terminou.

O moço conteve a sua prolixidade provocada pelas cenas atrozes que tinha vivido e continuou:

_ Talvez pudéssemos rechaçá-los se tivéssemos, de antemão, armas e munições, visto que todos os Armênios da cidade se juntaram a nós para lutar. Mas as armas não chegaram. Entretanto, no começo, e  sem falsa modéstia fomos brilhantes. Estávamos lutando de igual para igual com um inimigo muitas e muitas vezes mais numeroso. Havia também uma centena de mercenários turcos lutando ao nosso lado. Mas, de repente, esses nossos aliados muçulmanos largaram as armas e começaram a correr, fugindo do campo de batalha. Parecia ter se arrependido de atirar em correligionários. Nós, os Armênios, ficamos sós e lutamos com denodo para defender a cidade. Isso durou algumas horas, até o término das munições. Aí começou a luta corpo a corpo. Muitos morreram, outros foram feitos prisioneiros e o resto, vendo estar lutando em vão, preferiram fugir. Aí, os Turcos tornaram-se os donos da cidade.

_ Entendo, disse o general como se falasse para si mesmo, e pegando num pequeno cofre o abriu e tirou uma pequena corrente na qual estava pendurada uma cruz. Aproximou-se do rapaz e passou a corrente pela sua cabeça; uma bonita cruz apareceu no peito do moço.

_ Você a mereceu, disse o general. A partir de hoje você vai se integrar ao meu exército, com uma patente de oficial e um salário a ser fixado. Preciso de gente igual a você.

O jovem agradeceu inclinando-se e respondeu :

_ Essa cruz era tudo o que queria. Porém o senhor me faria um grande favor , se me deixasse ir agora aonde almejo.

O general, surpreso com a falta de ambição do jovem, perguntou:

_ E onde é que você precisa ir?

_ Vou salvar a vida de alguém que me é muito precioso.

_ Vejo que você tem um segredo, disse o general com brandura.

_ É verdade. É um segredo que mora no meu coração.

_ Então aceita esse pequeno presente, disse o general, dando-lhe uma moedas envoltas num papel.

_ Consideraria como um imenso favor se o senhor me liberasse já, respondeu o jovem, despedindo-se.

_ Vá com Deus, disse o general, apertando-lhe a mão.

O jovem inclinou-se uma vez mais e partiu.

 


[1] Na religião Católica Apostólica Armênia, o padre que não quer seguir a carreira eclesiástica pode casar.