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CAPÍTULO V

 Voltemos um pouco no tempo,  alguns anos atrás.

A aldeia de O...... ficava perto do mosteiro de São João, chamado hoje de “Uch-Kilissá”, na província de Bagravant. Situava-se num magnífico vale onde Mãe Natureza nada poupara para proporcionar as suas mais belas imagens. O vale, encaixado entre duas serras cujas paredes comprimiam-no, parecia um campo em formato de ovo. Nele serpenteava o rio Eufrates, chamado pelos nativos de “agh-su”, isto é, água branca. A água era tão pura que merecia essa denominação. As encostas, cobertas de lindos prados onde pastejavam o gado,  sua parte mais baixa era coberta de trigo, cevada, linhaça e outros vegetais comestíveis. Ali, cada centímetro de terreno era cultivado. Ao longo do vale pontilhavam pequenas aldeias armênias. Os seus habitantes moravam em chácaras entre vinhedos e pomares. De longe, parecia um quadro pintado à mão representando uma terra descampada salpicada, aqui e acolá, por pequenos bosques.

Na extremidade do vale se aninhava a aldeia de O....... a chácara maior, que podia ser comparada a uma pequena fazenda, pertencia a Khatchô, diminutivo de Khatchadur, cuja casa se destacava das outras pelo seu tamanho e pela sua beleza. Toda manhã, centenas de animais saiam pelo grande portão para pastar. Seus cavalos,  búfalos, bois e vacas eram os mais bonitos da região. Possuía também umas mil ovelhas vigiadas o dia todo por vários pastores. Era, igualmente, o dono da fábrica de azeite e de um moinho que, o ano todo, moía o grão de trigo para fornecer o pão ao povoado. Mas a sua maior riqueza era constituída pelos seus sete filhos, representando para ele os pilares de sua casa. Todos eram casados e ouviam-se de longe os gritos da criançada. Alguns de seus netos também eram casados e tinham filhos.  O ancião vivia no seu microcosmo rodeado por várias gerações. E a aldeia inteira dizia : “Khatchô tem tantos filhos quantos animais”.

Dos filhos de Khatchô, somente o caçula não era casado. Tinha dezesseis anos e se chamava Stepanig. Nessas regiões o clima é quente e as pessoas amadurecem rapidamente; mas, estranhamente, a fisionomia de Stepanig não revelava o adolescente, mas sim o rosto de um lindo menino. Cada filho de Khatchô tinha uma tarefa bem definida a cumprir; uns cultivavam a terra e os outros cuidavam do gado. Raramente tinham tempo para ficar em casa. Somente Stepanig permanecia no casarão. O pai, devoto de “São José, o Bem Aventurado” achava seu caçula o retrato do santo e o queria sempre ao seu lado. Com efeito, os dois eram muito parecidos; não somente pelo fato de Stepanig ser bonito, modesto, inteligente e cordato tal qual o santo, mas também pela indumentária. Assim, sua túnica era toda bordada com fios de ouro de Alepo, representando flores. Uma linda cinta de lã vinda de Kirman, apertava-lhe a cintura. Suas calças, tipo bombachas, eram de tecido oriundo de Van. O couro de seus lindos sapatos vermelhos vinha de Erzerum. Uma larga faixa de seda preta cingia um bonito fez vermelho ornando sua cabeça e de onde pendia um pompom também preto. Seus cabelos castanhos esparramavam-se sobre seus ombros. A única diferença entre José e ele, é que os irmãos de José  o invejavam enquanto os irmãos de Stepanig gostavam muito dele.

De longe, a casa de Khatchô assemelhava-se a um velho castelo. Estava situado no alto de um morro. Esta sua posição e sua construção sólida protegiam-na do ataque de vândalos. Além disso, quatro enormes muros cercavam a casa de tal maneira que não se via o que se passava lá dentro, a não ser pelas quatro torres erguidas nos quatro cantos do quadrado. No interior do cercado havia muitas construções.  Logo ali, cavado na terra, estava o aprisco; lá o curral dos búfalos, das vacas e dos cavalos, com suas divisões delimitadas para cada tipo de animais. Ao lado, o galpão onde se guardavam os implementos agrícolas ; mais longe o paiol onde se armazenavam  o feno, a palha, a grama e todos os mantimentos necessários para o bem-estar dos animais. Depósitos e armazéns perfilavam-se para acolher os produtos do cultivo. Os pastores e os empregados do velho Khatchô moravam, com suas respetivas famílias, em pequenas casas espalhadas pela propriedade. Eram todos Curdos. As mulheres trabalhavam de domésticas e os homens de pastor, vaqueiro ou lavrador. Poder-se-ia dizer que dentro da fazenda havia uma aldeia.

A família inteira morava na mesma casa. Esta, entretanto, não era dividida como as residências atuais do Ocidente. Tinha conservado a simplicidade das construções ancestrais, quando todo mundo morava sob a mesma tenda; porém em vez da enorme lona, era uma sólida laje que servia de cobertura. Não havia quartos separados, e todos os seus filhos com seus respectivos rebentos moravam juntos como antigamente, numa construção que tinha simplesmente quatro paredes de pedra e inúmeras vigas no teto. Aí, acendia-se o fogo para preparar a comida. Aí, todo mundo comia junto e dormia junto. Dentro do casarão, as crianças brincavam com os cordeiros e os bezerros recém-nascidos e de longe se ouvia a algazarra provocada por elas. Às vezes, até as galinhas invadiam, procurando migalhas de pão ou qualquer outro pedacinho de comida espalhado no chão pelas crianças descuidadas. Na verdade, era uma verdadeira arca de Noé. Ao lado desta construção, havia uma outra casa semelhante que se diferenciava pela sua entrada. Com efeito, não possuía nenhum portão e era totalmente devassável. Chamavam-no de “Sala de Veraneio”. Na lateral, uma porta se abria sobre um pequeno salão chamado “odá”. Era muito bem decorado e mantido sempre limpo; abriam-no somente para acolher convidados.