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CAPÍTULO VI

Apesar do modo tão singelo, a vida fluía na maior das felicidades. Trabalho não faltava e a benção de Deus se fazia presente a cada instante. Os armazéns de Khatchô permaneciam repletos de trigo, banha, azeite e vinho. Durante as quatro estações do ano, fosse no frio, fosse no calor, havia sempre o que fazer.

Estamos na primavera. A neve da montanha está derretendo e a água corre em profusão pelas encostas, regando todo o vale. Os campos verdejantes parecem sorrir, exalando uma fragrância estonteante espalhando-se em todas as direções. Centenas de riachos borbulhentos serpenteiam através do vale. A volta das andorinhas é convite ao trabalho. Os filhos de Khatchô já preparam os arados e as charruas.

A luz rósea da aurora acaricia os cumes da montanha. O ancião já está de pé andando para cá e para lá , distribuindo “Deus lhe abençoe” a todos cruzando seu caminho. Hoje é o primeiro dia da saída do gado confinado durante todo o inverno nos estábulos, ruminando, repousando, engordando. Durante todo esse lapso de tempo não viram a luz do sol. Para os moradores da aldeia é dia de alegria. Todos vêm para assistir o lindo espetáculo do desfile de gado tão bem tratado.

_ "Parabéns! É hoje o primeiro dia do pastejo," não é Mestre Khatchô? pergunta um dos camponeses.

_ "É sim. Perguntei ao padre qual era o dia mais propício e ele me disse ser hoje", responde Khatchô.

Nesse momento, o som de um sino tocando com força fez o povo se afastar para dar passagem.

_"É o Tchorá", ouviu-se de toda parte.

Era o nome do mais famoso búfalo da região, célebre por sua força e beleza; ostentava na testa uma meia-lua toda branca. O gigantesco animal, mugindo e fungando surgiu na soleira do estábulo. A terra tremia sob suas passadas. De repente parou, e começou a observar em sua volta. Nesse momento o ancião, dono de todas essas terras, quebrou um ovo na testa do animal. O líquido esparramou-se tingindo a semi-lua de amarelo. Era um ritual para afastar o “mau olhado”. Tchorá não gostou e baixando os chifres investiu contra a multidão. Imediatamente os filhos de Khatchô, munidos de cacetes e porretes, tentaram deter o animal enfurecido. Travou-se a luta entre a força humana e a força bruta do animal. A transição repentina entre a escuridão do estábulo e a luz do dia fazia com que os olhos do animal não enxergassem bem. Não conseguia reconhecer os seus próprios donos, aqueles que durante todo o inverno o tinham alimentado e cujas mãos ele lambia num gesto de agradecimento. Na sua fúria selvagem investia a esmo, de modo incontrolável. Os filhos de Khatchô cansavam de bater nele, mas os golpes desferidos com violência não surtiam efeito. Um pouco afastado, o velho Khatchô observava  com satisfação a luta digna de um espetáculo dos circos de Roma. Estava presenciando uma contenda entre o corajoso esforço de seus filhos e a força bruta do gigantesco animal. Ambos tinham um significado todo especial para ele. Deles dependia todo o andamento do trabalho na fazenda. De repente a briga tornou-se mais intensa. Isso porque a grossa corrente, em volta do pescoço do animal, à qual estava amarrada uma enorme viga para impedi-lo de correr, quebrou. Os camponeses, munidos de grossas cordas corriam  para cima dele para amarrá-lo. Mas, com movimento brusco, o animal enraivecido arrebentava as cordas. Ele corria a torto e a direito, e o povo apavorado, fugia. No meio deste terrível alvoroço, aconteceu um inesquecível ato de coragem. Um dos filhos de Khatchô, chamado Abô, correu em direção ao animal e agarrou-lhe o rabo. A raiva do animal aumentou diante de tamanha audácia; virou portanto a cabeça para trás querendo atingi-lo com uma chifrada. E os dois começaram a rodopiar freneticamente. Tchorá tentava alcançar o homem para chifrá-lo, mas Abô, agarrado firme no rabo do animal girava com ele no mesmo sentido. Esse duelo durou alguns minutos. Ouvia-se, de toda parte, gritos de espanto. O animal enfurecido fungava e deixava no solo largos buracos provocados pelas suas patas. Uma poeira levantava do chão e envolvia os dois contendores com uma tênue nuvem. Foi aí que os irmãos de Abô decidiram intervir, acorrentando o animal com grossas correntes de ferro. O povo exultou e ouviram-se gritos de alegria.

 O velho fazendeiro aproximou-se do seu filho Abô e deu-lhe um beijo na testa dizendo :

_Que Deus lhe abençoe ! Você salvou minha honra..

Ele queria dizer que o filho o impedira de ficar envergonhado na frente de todo mundo. Depois chegou perto de Tchorá, como se fosse seu outro filho, e acariciando sua cabeça disse :

_ Seu patife! Por que você aprontou uma coisa dessas.

Mas Tchorá se acalmara. A névoa que embaçava sua visão desaparecera; agora estava reconhecendo seus donos, e parecia  estar arrependido do que fizera. Amarraram novamente o seu pescoço com a grossa corrente e nela penduraram de novo a pesada viga a ser arrastada pelo chão entre suas patas dianteiras; e levaram-no para ser lavado nas águas geladas do rio. Porém os camponeses não arredaram o pé; permaneciam agrupados esperando a saída dos outros búfalos que mesmo não sendo iguais a Tchorá, eram magníficos. Mas desta vez os filhos de Khatchô cuidaram para nada de especial acontecer. Os animais desfilavam um a um diante dos olhos maravilhados da platéia. Qualquer um deles ganharia o primeiro prêmio em qualquer concurso. O fazendeiro, enternecido, os olhava ao passarem e quebrava o ovo “mágico” na testa de cada um para evitar o “mau olhado”. Além disso, pedira ao padre para escrever uma reza a qual mandara costurar dentro de um pedaço de couro triangular azul e pendurara no pescoço de cada um deles. Ao vê-los passar, os camponeses felicitavam os filhos de Khatchô por eles serem tão bem tratados. E o pai estava orgulhoso de ouvir todos esses elogios endereçados aos seus filhos. Assim, essa cena se repetiu todos os dias para os animais se acostumarem pouco a pouco à luz do dia, até poderem trabalhar puxando o arado.