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CAPÍTULO VII 

Chegou a primavera. Com ela temperatura mais amena e céu mais claro. Flores vermelhas, amarelas e brancas apareceram nas encostas da montanha. Moças curdas iam colhê-las e amarrando-as em ramalhetes, percorriam aldeias armênias trocando-os por pedaço de pão. Cogumelos, aspargos e vários outros tipos de legumes eram tão abundantes neste ano que as mulheres curdas os apanhavam e os levavam no dorso dos burros para trocá-los por alguns quilos de farinha. Os filhos de Khatchô já estavam trabalhando as suas terras. O trabalho no solo começara. Não se acharia nas aldeias pessoa sem trabalhar. Todos ocupados no cultivo da terra.

O primeiro raio de sol despontava. Já acendiam-se os fornos. Num, tinham colocado  grandes caldeirões de cobre para cozinhar alimentos. Noutro assava-se pão. As noras e domésticas se movimentavam em torno deles. O cheiro agradável da comida se alastrava pela casa toda. Quem presenciasse a cena, pensaria estar numa imensa cozinha onde estavam preparando almoço e jantar para um exército. E de fato, exceto a família do ancião, todos, empregados, pastores e lavradores, tomavam suas refeições ali mesmo. E eram legiões. Todos os dias acendiam-se os mesmos fornos, todos os dias cozinhava-se a mesma quantidade de comida. As noras, espertas e ativas, não tinham  um minuto de descanso. Era preciso ocupar-se com tudo e com todos.

Além disso, havia muitas outras tarefas a cumprir. Perto do estábulo, uma das noras ordenhava as vacas e as cabras; outra elaborava o iogurte; a terceira confeccionava os queijos e a quarta batia o leite preparando manteiga. Em volta delas, crianças correm, pulam e brincam com ovelhas e bezerros recém-nascidos. Criança e ovelha: os dois se complementam; são duas riquezas  das quais o camponês se orgulha.

No pátio, onde bate o sol, junto à parede, uma em cima da outra, colméias se perfilam. O sol de Abril derrama um feixe de raios quentes. Enquanto as noras trabalham febrilmente, o velho Khatchô abre as portinholas das colmeias. As abelhas, felizes da vida, irrompem e volteiam ao redor de sua cabeça branca de ancião, zumbindo, zunindo, zoando, e a zoeira de milhares de insetos enche os arredores. Alguns mais atrevidos, cobrem o rosto enrugado do ancião de beijos ardidos. Mas ele nada sente; apenas os enxota com a mão dizendo: “Seus capetinhas, que fiz eu para merecer isso?”.

Não longe dali Stepanig observa o trabalho de seu pai.

_ "Afasta-te filho, senão as abelhas vão te picar, diz o velho Khatchô."

_ "E por quê não picam o Sr? pergunta o filho."

_ "Elas picam, mas não chega a me incomodar."

_ "Por quê não?"

_ "Após tantos anos meu corpo está acostumado."

E o jovem sorrindo responde: “O meu também se acostumará um dia”.

O pai sorri e beija o filho.

Nesse ínterim, o chefe curdo Fattah Bei, mandara um mensageiro avisar que após  caçar nas montanhas vizinhas,  estaria chegando com sua comitiva para visita de cortesia. Parece que uma nuvem negra varreu o rosto do velho fazendeiro e seu semblante, sempre alegre, tornou-se triste. Mas, tentando disfarçar seu desgosto, pediu ao kizir[1] que chamasse alguns de seus filhos para receberem o chefe curdo, enquanto, ele próprio providenciaria  feno e  alfafa para os cavalos.

As visitas de Fattah Bei tinham se tornado tão corriqueiras que tudo mundo sabia como recebê-lo. Portanto, assim que as noras receberam a notícia, imediatamente mataram algumas ovelhas e prepararam o “pilaf[2]” em alguns dos enormes caldeirões. Pois, pouco que fosse, havia sempre vinte a trinta pessoas acompanhando o Bei.

Fattah Bei era o chefe de uma tribo de Curdos, cujas ovelhas pastavam bem na fronteira da aldeia de O...., no sopé da montanha. Não raras eram as brigas entre pastores armênios e Curdos, principalmente quando estes últimos roubavam alguns carneiros dos armênios ou  invadiam o pasto deles. Mas essas brigas não levavam a maiores conseqüências, pois Fattah Bei considerava Khatchô como grande amigo e além disso eram compadres. De fato, Fattah Bei estivera presente na pia batismal para batizar alguns dos filhos de Khatchô, e este apadrinhara alguns dos filhos de Fattah Bei durante a cerimônia da circuncisão. Assim, forte laço de amizade unia o velho armênio ao chefe curdo.

Mas por que, de repente, ficara triste ao saber da vinda do compadre? Khatchô não era avarento a ponto de negar comida a toda essa comitiva. Sua casa estava sempre aberta e  sua mesa sempre farta. Todos os dias vinham aldeões e forasteiros sentar a sua mesa. É com orgulho que Khatchô dizia nunca ter, em toda a sua vida, sentado á mesa sem um convidado. “O pão, dizia ele, é dádiva de Deus e só a Ele pertence. Os pobres, filhos de Deus, devem se alimentar com ele”. Mas por que, de repente, ficara triste ao saber da chegada do chefe curdo?

Cheio de pensamentos sombrios, parou na soleira, esperando a chegada de seu ilustre visitante. Alguns peões, vendo o velho fazendeiro, aproximaram-se.

_ "Ouvi dizer que o Bei está chegando. Vamos ver se ele tem algum “pretexto”, hoje? 

_ " Curdo quando entra na casa de Armênio, inventa sempre, algum “pretexto”, respondeu Khatchô.  

Atrás da colina, percebeu-se as pontas cintilantes das lanças e minutos mais tarde, aparecia um grupo de cavaleiros.

_" Estão chegando," disse um dos peões.

O velho fazendeiro cuja vista era fraca virou a cabeça na direção dos montes, mas nada viu.

_ "São eles", gritou outro peão.

Dirigindo-se aos seus empregados,  Khatchô disse: “Esperem aqui. Tratem seus cavalos dando-lhes feno e alfafa até que meus filhos cheguem do trabalho.”

O Bei aproximou-se rodeado de várias raças de cães de caça, acompanhado de vinte ou mais cavaleiros, todos aparentados de perto ou de longe, e que serviam-lhe também de guarda-costas.  Estava montado num magnífico tordilho, ajaezado, cuja sela era toda trabalhada e ornamentada de pedras preciosas. O Bei tinha uns quarenta anos, mas parecia ter trinta. Era esbelto, viril, rosto másculo. Sua indumentária toda bordada com fios de ouro; suas armas decoradas com filigranas de ouro e prata.

O fazendeiro, ao vê-lo deu uns passos à frente esperando-o ao lado da ponte que atravessava o largo fosso circundando a propriedade; pensava que o Bei fosse transpor a ponte, mas, este, em vez disso, esporeou  o animal, que relinchando, tomou impulso e pulou o fosso e após algumas evoluções parou de chofre em frente do anfitrião.

_ "Como que é? Gostou? meu bom Khatchô", indagou ele, enquanto acariciava o magnífico animal. "Você entende de cavalos, o que acha deste?"

_ "Que Deus o proteja de mau olhado, é muito bonito. Mesmo Keroghlu não tem um igual. Acho que este, pertence à pessoa certa",

disse o ancião acercando-se do cavalo e acariciando-o. "Onde você o conseguiu? Você nunca teve um cavalo assim."

_ "Foi o Vali[3] de Erzerum que me deu. Ele sempre disse preferir perder seus olhos a se desfazer deste tordilho. Mas mesmo assim deu-o para mim, seu amigo. Ele próprio o tinha recebido como presente do Cheik de Alepo ".

_ "É magnífico", repetiu o fazendeiro.

O Bei, enlevado por essas palavras, esporeou novamente o bicho e demonstrou todas as suas qualidades de excelente ginete, fazendo o cavalo corcovear e por fim, apeou e estendeu as rédeas ao seu palafreneiro para andar um pouco com o cavalo afim de acalmá-lo.

O anfitrião pegando na mão do seu ilustre visitante, o levou até o “odá”, recinto reservado aos convidados e que fora arrumado e ornamentado, especialmente e às pressas, para a ocasião. O chão estava coberto de tapetes persas de alto valor; em volta da casa, perto das paredes, havia inúmeras almofadas para sentar-se e recostar-se. Para o Bei, tinham providenciado um lindo sofá.

O fazendeiro convidou o Bei para sentar-se e lhe disse palavras de boas-vindas de praxe:

_ "Minha casa é sua casa. O Sr. será sempre bem-vindo; sou seu humilde criado. Meus filhos são seus escravos e as mulheres suas criadas. Seja bem-vindo, mil vezes bem-vindo. Tudo o que tenho está a sua disposição. Esteja à vontade, sente-se por favor."

O Bei agradeceu, enquanto um dos filhos de Khatchô retirava as suas lindas botas vermelhas; a seguir, foi sentar-se no canto que lhe era reservado. Ao seu lado sentaram-se dois dos seus primos e os outros a seu bel-prazer. Mas alguns membros da comitiva ficaram de pé, perto da soleira, mãos colocadas na altura da cintura ,(e das pistolas), esperando qualquer ordem do Bei. Os outros ficaram do lado de fora cuidando dos cães e dos cavalos, aproveitando-se de tudo o que oferecia o paiol do fazendeiro. Mesmo estando na casa de amigo, o Bei e seus asseclas não se separavam de suas armas. O Curdo, onde quer que esteja, nunca se separa de suas armas. Faz parte de sua indumentária, faz parte de sua vida.

Os filhos de Khatchô iam e vinham incessantemente a fim de cumprir as ordens do pai. Mas, não estavam armados...

Para começar serviram o tradicional café  oriental sem açúcar em xícaras bem pequenas.

_ "Não estou vendo  Stepanig", disse o Bei. "Estou acostumado a que ele me sirva o café".

O fazendeiro, disfarçando sua contrariedade, mandou chamar o seu caçula.

Apareceu Stepanig com lindo sorriso brotando de seus lábios, alegre na sua pura inocência. Aproximou-se do Bei e beijou-lhe a mão. (É costume dos Curdos beijar a mão do chefe.) O Bei acariciando o cabelo sedoso do jovem disse:

_  "Você sabe o que trouxe para você?"

_ "Sei sim", respondeu Stepanig; "uma linda ovelhinha. Levei-a até o pasto, mas não quer comer".

_ "Vejam só! Ele já recebeu seu presente", disse o Bei voltando-se para Khatchô.

_ "Como sabia que era para mim, peguei e levei-a para pastar."

_" Bravo!" disse o Bei," vai então, vai brincar com ela."

O adolescente agradeceu e afastou-se.

O Bei esperou que Stepanig saísse e disse:

_ "É um menino muito bom, mas parece ficar sentido quando não lhe trago um presente". 

_" Ele não tem culpa, o Sr o acostumou assim," disse o anfitrião com um riso contrafeito.

Mudando de assunto o Bei emendou:

_ Que belas terras você tem aí, compadre. A cada passo a gente topa com uma caça. São bandos de corças, cabras, veados; e quantos pombos e perdizes! Sabe, compadre, essa ovelhinha que presenteei, foram meus cães que a conseguiram sem machucá-la! Você nem imagina a qualidade da minha malta. Aliás, ganhei mais dois deles. Foi o Bei de Zelants que me presenteou. Em contrapartida, mandei duas mulas para ele. Mas, não fala para ninguém, nós roubamos as mulas de um grupo que ia em peregrinação para Meca. Eram Persas, os coitados. E os cachorros que recebi são magníficos e mais rápidos que o relâmpago.

A conversação do Bei girava sempre em torno de caça e cães de raça. Para o fazendeiro era enfadonho, mas ele o assunto ouvia com paciência e às vezes até anuía com a cabeça.

Entretanto, chegou a hora da refeição. Estenderam no chão uma imensa toalha de mesa e dispuseram nela enormes bandejas repletas de pilaf e de carneiros assados inteiros em longos espetos. Diversas jarras cheias de sucos de vários tipos de frutas, acompanhavam as iguarias, assim como o indefectível “airán”[4] ; os convidados se refrescavam tomando-os em grandes conchas que lhes servia de copos. Não havia bebida alcoólica. E iniciou-se o ágape.

_ "Você ainda não mandou suas ovelhas pastar," comentou o Bei, dirigindo-se ao anfitrião.

_ "Ainda não," respondeu Khatchô. "Não confio muito no mês de Abril ; às vezes ocorrem ondas de frio, prefiro esperar mais um pouco."

_ "Calor, frio, são coisas de Deus. O que está escrito, será. Faz uma semana que levamos as nossas para pastar.... Mas, compadre, você não pode imaginar o que está acontecendo este ano. Nossas reservas estão acabando. Nossos pastores estão passado fome."

O fazendeiro, captando a mensagem, respondeu :

_ "Será que o Sr. esqueceu-se que o nosso pão é o vosso? É só dizer quantas arrobas de farinha  precisa e eu lhe mandarei".

_ "Que Alá o proteja!" disse o Bei. "É verdade, entre nós nunca houve nenhuma desavença. O que é meu é teu e o que é teu é meu, não é compadre?"

_ "Só Deus sabe quanto isso é verdade! Quantas arrobas quer que eu mande?"

_ "Por enquanto, carregue umas dez mulas. Mais tarde, se precisar, pedirei mais. Não queremos esvaziar  teus silos."

O velho Khatchô disse sim com a cabeça, enquanto um sorriso contrafeito brotava no seu rosto tristonho.

Após a refeição, Stepanig trouxe água numa pequena lavanda para lavar as mãos, e ele mesmo serviu o cafezinho. A seguir o Bei ordenou aos seus acólitos saírem e avisarem os outros para comer todos juntos lá fora. Para esse fim tinham estendido um enorme carpete no chão onde alinhavam-se caldeirões de comida.

Na sala convivial permaceram o Bei, alguns de seus parentes e Khatchô. Novamente o assunto da conversação girou em torno do cavalo presenteado pelo Vali[6] de Erzerum. O Bei descreveu com entusiasmo o pedigree do tordilho originado de uma das linhagens mais antiga, a de Antares.

_" Porém", concluiu ele," esse presente vai me custar muito caro!"

_" Como assim ?"

_ "Você não sabe? É preciso dar umas cem moedas de ouro para a pessoa que trouxe o cavalo."

Foi com esta reposta que o velho Khatchô  descobriu qual era o “pretexto” do Bei e o porque de sua visita. Mas respondeu com naturalidade:

_ "E o que tem isso ? Não é muito dinheiro por um cavalo igual a esse"

_ “E qual é o Curdo que tem dinheiro?” perguntou o Bei, com uma voz zangada.”Só os Armênios têm esse maldito dinheiro!”

Os parentes do Bei até então em silêncio, entraram na conversa, e um deles disse :

_ "Ô Bei! O Sr. não pode se queixar; nunca teve problema de dinheiro, pois seu amigo Khatchô sempre esteve presente quando foi preciso."

_ “Isso é verdade, por Alá”, disse um outro.

_ “O compadre Khatchô é um grande amigo”, acrescentou um terceiro.”Nos Armênios, não existe um igual a ele.”

O velho Khatchô entendeu o recado e muito a contragosto disse:

_ "Nem por mil moedas de ouro eu magoaria meu amigo Bei. "

Então, os Curdos, uníssonos, conclamaram:

_" Que Alá te abençoe"!

Khatchô levantou-se e saiu do odá. Mandou chamar seu filho mais velho e pediu-lhe para ir, sem chamar atenção, até o paiol, retirar cem moedas de ouro do esconderijo. O filho, meio desconfiado, perguntou:

_ "Por quê, pai?"

_ "Você não está vendo? Os desgraçados vieram, comeram, beberam e agora querem cobrar a "visita”, respondeu o velho com uma voz triste.

_"Malditos sejam!" E pegando o carrinho, foi até o paiol, como se fosse pegar um pouco de feno.

Essa cobrança se chamava “kichkirassi” em língua curda. Era, antigamente, uma espécie de imposto criado por eles, também chamado “imposto do dente”. Significava que o Armênio tinha que agradecer a visita do Curdo que vinha comer e beber na sua casa, pagando-lhe uma certa importância. Se não pagasse, apanhava sendo esmurrado impiedosamente. Hoje em dia esse costume não se usa mais, todavia ainda perdura em certas circunstâncias, porém de modo mais “civilizado”.

Enquanto isso, a seguinte conversação rolava entre os convidados.

_ “Se o velho não trouxer o dinheiro, mando botar fogo em tudo isso”, bradou o Bei irritado.

_ "Não precisa chegar até lá," disse um dos parentes do Bei. "Khatchô é um bom homem, apesar de Armênio. Não precisa ofendê-lo. A sua porta está sempre aberta para nós, e toda vez que pedimos alguma coisa, ele nos a deu. Khatchô é um homem bom, não devemos ser ingratos."

Ao término destas palavras, Khatchô apareceu, carregando as moedas de ouro e, colocando-as numa bolsa de couro, ofereceu-as ao Bei dizendo :

_ "Deus me é testemunha que tinha guardado esse dinheiro para ir em romaria até Jerusalém. Mas não poderia recusar um pedido seu."

_ "Não minta para mim, compadre, você tem muito, muito mesmo ;" respondeu o Bei pegando a bolsa e colocando-a no bolso, sem verificar se estava certo.

Uma brisa fresca surgira nesse fim de tarde. O Bei deu o sinal para os cavaleiros se prepararem para partir. Ele também saiu do “odá” junto com o fazendeiro, aguardando que trouxessem seu cavalo. Stepanig estava brincando com o cordeirinho, quando o Bei se aproximou e disse:

         _ "Você está gostando dele?    "

        _"Muito. Mas os cachorros morderam uma das suas patas e o machucaram. Mas vou cuidar disso. Coitadinho! deve estar doendo e  por isso não está comendo nada."

 _ "Estou vendo que você gosta muito de animais, não é? Vou te mandar de presente um dos meus potrinhos."

 _ "Não gosto de cavalo!"

 _ "De que você gosta, então?"

 _ "Gosto de cabritinhos, veadinhos, perdizes...."

 _ "Ótimo! quando for caçar, vou te trazer todos os animais que eu puder pegar vivo."

        A seguir, vieram avisar o Bei que os cavaleiros estavam prontos. O Bei agradeceu o anfitrião e se dirigiu para o seu magnífico tordilho que estava pastando diante da entrada.  O próprio Khatchô segurou o estribo para que o Bei montasse no cavalo. Era um sinal de alta consideração para com seu convidado. Montado no cavalo, o Bei pegou no seu dardo e golpeando de leve o animal, saiu andando, enquanto acenava novamente para Khatchô. O velho, imóvel, olhou o Bei afastar-se. Viu mais uma vez o chefe da tribo transpor o fosso sem precisar usar a ponte, demonstrando assim ser aquilo destinado somente aos fracos. Viu também que ele, ao avistar um coelho correndo no cerrado, investiu tal qual um raio e fincou seu dardo no lombo do pobre animal; e pensou: “Por que o mundo é feito assim? O Curdo ou o Turco não têm pão porque não semeia. O Armênio semeia e colhe o trigo pensando no futuro. O Curdo ganha um tordilho de presente e é o Armênio que deve pagar. E o Armênio não pode montar em nenhum animal a não ser num burro.”

 


[1] Responsável de uma aldeia perante o governo.

[2] Prato de arroz com carne etc.....

[3] Prefeito de cidade grande

[4] Iogurte misturado com água gelada.