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CAPÍTULO VIII 

Naquela mesma noite, Khatchô sentado à mesa, esperava os filhos voltarem do campo para jantar. O lampião iluminava com sua luz pálida grande parte da sala. Chegaram um após outro, sentaram-se e começaram a comer em silêncio. Brisa fresca de começo de primavera varria a sala. De fora, ouvia-se o balido das ovelhas voltando do pasto. Na cozinha, as noras preparavam o jantar dos pastores e dos lavradores. Todos deviam comer antes das mulheres. As crianças, cansadas de brincar, tinham ido dormir sem nada comer. Assim que o jantar terminou, os filhos do fazendeiro levantaram-se e saíram. Ainda tinham muito trabalho: cuidar do gado, buscar água no rio para molhar a terra, e, ainda alguns iriam até o moinho conferir o seu rendimento. Enfim, ainda mil e uma coisas a fazer.

Tiraram a mesa, Khatchô e seu primogênito, Hairabed, continuavam sentados. Enquanto Hairabed preparava o cachimbo do pai, profundo silêncio pairava sobre ambos. Parecia a tristeza ter estendido suas asas negras sobre o coração dessa família feliz.

_"Qual a quantidade de farinha que os Curdos levaram?" perguntou o pai após algumas baforadas.

_"Exatamente doze lombos de boi", respondeu o filho com voz aborrecida.

_ "Mas o Bei pediu somente dez?" 

_ "É; mas trouxeram enormes sacos vazios com eles, encheram-nos até a boca. Pareciam ter pago por eles, os malditos!"

_ "De quem eram os bois?"

_ "Eram nossos. E vou dar graças a Deus se eles os devolverem. Receio que junto à farinha, eles comam nossos bois também."

_ "O Bei não se rebaixaria a tanto."

_ "Qual é o significado da palavra “rebaixar-se” para o Curdo? Será que nunca aconteceu eles se apossarem da carga e dos animais? Na verdade, não lamento tanto as cem moedas de ouro, nem os doze sacos de farinha, mas sim o fato de dar-lhes de mão beijada frutos de nosso trabalho e suor. Meu Deus! O que fizemos para merecer tal castigo? Até quando vai durar isso? Eles vêm e levam tudo que querem sem jamais devolver nada. E sempre estão  aqui para pedir e exigir cada vez mais, sem sentir vergonha ou compaixão. Parece que Deus nos pôs na terra para sustentá-los!"

_ "Você ainda não entendeu que isso é assim mesmo", disse o ancião aumentando o ritmo de suas baforadas, como se quisesse aplacar sua raiva na fumaça do cachimbo. “O que podemos fazer? Se a gente não entregar o que eles querem de bom grado, eles vão pegá-los a força. Ainda bem que eles vêm roubar a gente pedindo gentilmente o que eles precisam".

_ "Fomos nós que demos asa a esse tipo de coisa. Ensinamos a eles como nos roubar. Mas podemos recusar. Aí, eles também, serão obrigados a semear e a colher, enfim, a trabalhar e suar igual a nós. Mas não. Preferimos que eles vivam na preguiça e no ócio e que venham em nossas casas para se abastecerem".

_ "Você tem razão", ponderou o velho Khatchô com voz triste, "é muito difícil mudarmos o que nossos antepassados nos legaram. Estamos colhendo frutos de seus desatinos. Agora, preste bem atenção, filho. Vejo seu coração cheio de ódio e você terrivelmente humilhado. Mas repito: o que podemos fazer? Se não dermos o que eles querem, vão se tornar nossos inimigos, e quando você menos espera, vão roubar todo o nosso rebanho de ovelhas. Para quem vamos reclamar? Quem vai nos ouvir? Aqueles para quem poderíamos recorrer, os Paxás[1], os Valis[2], os Mutir[3], os Kaimakan[4], são todos ladrões e mancomunados. São, como se diz, “carne e unha”. Você viu com seus próprios olhos: o Vali de Erzerum, em vez de mandar uma corda bem grossa para enforcar um bandido igual ao Bei Fattah, lhe presenteia um lindo tordilho. Se o próprio Vali, chefe supremo da nossa região procede dessa maneira, como reclamar alguma coisa qualquer que seja?  Só nos resta Deus, e Ele não nos ouve; vai ver que nossos pecados são muitos".

O filho permanecendo calado, o pai prosseguiu:

_ "Nos somos Armênios. A maldição do Senhor está sempre presente; somos um povo marcado. Desde nossos antepassados, geração após geração carregamos conosco mil e um defeitos gravíssimos como a desunião, o servilismo e a inveja. O Curdo não tem culpa. Se fossemos unidos e solidários, o que poderia o Curdo, estúpido e preguiçoso, fazer contra nós?"

Deu uma pausa para o filho lhe preparar um outro cachimbo. Este, fazendo o que o pai lhe pedira, retrucou:

_ "Pai, somos seis irmãos. Tivesse o senhor piscado ou feito qualquer sinal,  teríamos expulsado os trinta cavaleiros do Bei Fattah, de tal maneira que nunca mais teriam a ousadia de vir aqui novamente."

_ "Eu sei, filho! mas o que adiantaria isso? Vocês poderiam talvez matar um curdo, dois, ou todos eles, e aí a tribo inteira viria para vingá-los, e seríamos massacrados. Nenhum Armênio acudiria para lutar conosco. Alguns até ficariam contentes. É próprio da nossa raça. Mas o Curdo ou o Turco não é assim. Se matarem um só deles, a tribo toda se levanta para lavar o sangue derramado, pois eles são unidos. Parecem ser todos filhos do mesmo pai.  Nós, não temos essa união. Cada qual pensa em si próprio. O que acontece com os vizinhos não lhe diz respeito. Podem roubá-los, espancá-los, matá-los e ele não se importa, desde que ele esteja bem. Essa gente estúpida não conhece o provérbio que diz “Um por todos e todos por um”.

O velho Khatchô não tinha ido à escola, mas tinha vivência. Sua inteligência natural se desenvolvera com as agruras da vida e às vezes proferia considerações tal qual aqueles dedicados a estudar a conduta do ser humano. E continuou:

_ "Não tem jeito. Seremos sempre obrigados a trabalhar e a entregar parte do fruto do nosso trabalho aos nossos inimigos. Temos que manter a amizade com esses ladrões. É verdade que o Bei Fattah vem de vez em quando apropriar-se do que pode carregar, mas assim mesmo temos que conservar sua amizade, mesmo não sendo sincera".

_"Por quê?" perguntou o filho.

_ É simples. Sendo amigo do chefe dos bandidos, pequenos ladrões e larápios nunca ousarão atacá-lo. Os Curdos e os Turcos das outras regiões, ao saber que o Bei Fattah é nosso amigo, nunca virão para roubar o que quer que seja; e se por acaso um deles se atrever a roubar uma das nossa ovelhas, imediatamente irão atrás dele e o forçarão a devolver o animal."

_ "Qual é a vantagem? No fim fica tudo na mesma. O Bei Fattah nos dá o mínimo, e colhe o máximo. Não deixa ninguém roubar uma das nossas ovelhas. Em compensação quer centenas de moeda de ouro. É como se fossemos uma vaca leiteira que ele defende com unhas e dentes, pois o leite é só para ele".

_”Tudo que você disse é verdade, filho, e entendo muito bem seu ponto de vista. Mas é preciso entender. Assim nossos ancestrais conseguiram sobreviver. É verdade que nunca fui à escola, mas um dia encontrei um monge no convento de Uchkilissá, que me contou que desde tempos imemoriais, quando de tempo em tempo, bárbaros atacavam o nosso país, os Armênios, em vez de enfrentá-los com sabre e espada, iam acolhê-los com lindíssimos presentes, acompanhados de grandes sacos de moedas de ouro."

_ "Não somos obrigados a persistir no erro dos nossos antepassados", aparteou o filho.

_”Erros antigos não podem ser extirpados de um dia para o outro. Existem há centenas de anos e é preciso o mesmo número de anos para acabar com eles. Tenta convencer o povo da sua maneira de pensar; diga a eles que não é mais assim, que devemos agir contra os nossos inimigos; diga-lhes que são gente iguais a nós, que não são indestrutíveis, que quando vierem para roubar-nos com seus fuzis, deveremos enfrentá-los com os nossos fuzis. Enfim, continue com esse discursos durante horas e horas. O que vai acontecer? Vão rir e dizer que você é um bobão. Não vão entender seu palavreado, porque há séculos estão acostumados a fazer o contrário.”

O filho não respondeu. Achava haver nas palavras do pai alguns argumentos irrefutáveis. Mas ao mesmo tempo pensava se haveria um meio de acabar com esse preconceito. Por isso perguntou ao pai:

_”Está bem. Nossos antepassados nos mostraram um caminho e o estamos seguindo. Mas não podemos mudar o rumo ao ver que estamos indo para o precipício? Será que não podemos convencer o povo do equivoco?”

_”Concordo. Mas quem vai convencê-los? Só pode ser uma pessoa de peso, instruída e que tenha influência sobre o povo . Por exemplo, nossos padres. Mas estes, em vez de mostrar-lhes o caminho que você preconiza, dizem: “Quando alguém te esbofetear a face direita, ofereça-lhe a esquerda”. Há também os professores nas escolas, mas não temos um só professor de gabarito em nossa aldeia.”

_”Infelizmente não posso concordar com o senhor, pai”, disse o filho. “Por exemplo, quem ensinou ao Curdo ou ao Turco, que não tem padre nem professor, como agir diante do comportamento dos homens em geral? Quem ensinou que o homem sem fuzil se parece a uma galinha cega e está aí somente para apanhar?”

_ “O Curdo tem seu sacerdote, o imame[5], que da mesma forma que os outros anda armado, e participa das roubalheiras da tribo atacando pessoas indefesas. E esses imames nunca pregam em seus sermões ser isso pecado. Ao contrário dos nossos.”

O filho não respondeu e o velho prosseguiu:

_ “Porém em meio a todas essas desgraças, há um consolo. Por mais que roubem e saqueiem, nossos paióis estão sempre repletos, enquanto o Curdo está sempre à procura de comida.”

_”Pai, o Sr. deve conhecer o provérbio : “O ladrão nunca consegue ter a sua própria casa, mas quem tem casa pode perdê-la”. O Curdo não trabalha, não semeia, não planta e nunca tem mantimentos em sua casa. Ele se alimenta com tudo o que o Armênio tem em sua despensa, deixando-o cada vez mais pobre. O Sr. não deve tomar a nossa casa como exemplo. Pense um pouco! Quantos Armênios ficaram pobres. Quantos, às vezes, não têm nem o que comer por causa dos Curdos.”

_”É verdade. Há ainda mais uma coisa. Os Curdos roubam ou matam nossas ovelhas. Assim mesmo elas se multiplicam e formam grandes rebanhos. O lobo, apesar de matar e devorar as ovelhas está sempre com fome e nunca se multiplica. Você já viu alguma malta de lobos? O lobo é animal selvagem. Hoje, agarra uma ovelha, a mata, a come e enche a pança, mas não sabe quando e onde poderá encontrar outra oportunidade desta. Vive caçando, nem sempre encontra uma presa. Está sempre com fome. Como dizem "um dia é da caça e o outro do caçador". O Curdo é o lobo e nos somos as ovelhas.”

A explicação do velho homem era a descrição de uma guerra sem derramamento de sangue.  

_ “Eu acho, pai, que se não tivesse pastores e pegureiros para vigiar nossos rebanhos, não sobrariam mais ovelhas para contar a história. Somos, é verdade, ovelhas sem pastor, e há somente um jeito de sair dessa situação: é nos transformarmos também em lobos, desenvolvendo garras e dentes afiados”


[1] Príncipe ou ministro do governo otomano

[2] quivalente a  Governador no Império otomano

[3] Equivalente a  prefeito no Império otomano

[4] Equivalente a vereador no Império otomano

[5] Ministro da religião muçulmana