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CAPÍTULO IX

Uma tribo havia acampado do lado esquerdo da estrada que une Erzerum à Bayazid, sendo a única via de acesso, em área verdejante, para as caravanas indo de Trebizonda à Persia. Pela quantidade de tendas montadas poder-se-ia avaliar a extensão do acampamento. Grande número de cavalos, ovelhas e vacas espalhadas pelas colinas vizinhas indicavam ser tribo rica e próspera.

Era noite escura, quando voltando da casa do velho Khatchó, o Bei Fattah acompanhado de sua comitiva chegou ao acampamento desta tribo da qual era o chefe supremo. Na frente de algumas tendas, fogueiras estavam ainda acesas a fim de ferver o leite, e iluminavam primorosamente as cercanias. Quando o grupo de cavaleiros aproximou-se, uma malta de cachorros começou a latir e os pastores de guarda começaram a emitir gritos guturais para avisar uns aos outros a chegada de cavaleiros. Imediatamente, os mesmos gritos partiram do grupo de cavaleiros do Bei Fattah; os guardas logo souberam pertencer à tribo. O Bei dirigiu-se incontinente para a tenda onde estava hospedado o enviado do Vali, que lhe tinha presenteado o lindo tordilho. O emissário era oficial turco, não muito jovem, experiente e perito em falcatruas. Tinha sido assessor de um mufti[1], nos arredores de Van, e fora dispensado por corrupção exagerada.

Assim que o Bei entrou na tenda, o oficial se levantou e disse:

_”O Sr. me fez esperar um bocado, Bei, pensei que não vinha mais e eu, queria desejar-lhe uma boa noite.”

_”Pelas barbas do profeta, você é homem impaciente,” respondeu o Bei sorrindo, “estou até admirado como agüentou nove meses na barriga de sua mãe. Por que pressa? Podemos passar bom tempo juntos conversando. Ou será que não gostou da minha hospitalidade?”

_ “Nada disso, Bei, pelo contrário. Nunca fui tão bem tratado. Se um dia for para o Paraíso (o que duvido muito), queria que fosse igual à sua tenda. Assim mesmo gostaria que me dispensasse amanhã bem cedo.”

_”Está bem. Já ouvi falar do modo de vida dos Osmanlis[2]. Eles gostam do ar impuro de cidade grande, de almofadas espalhadas pelo chão nas quais se espreguiçam o dia inteiro fumando narguilé[3] e bebericando cafezinho. Mas aqui, neste deserto, o que temos nos? Na verdade sinto-me culpado; não lhe dei a devida atenção. Mas que posso fazer? Vocês não gostam de caçar, nem de andar a cavalo e aqui não temos outro passatempo.”

Continuando com suas lisonjarias, aliás bem do feitio dos turcos, o oficial respondeu.

_”Estar com o Sr. causa-me sempre grande alegria e fico-lhe muito grato por me aceitar como convidado em sua tenda. Mas sabe também não ser dono de mim mesmo. Trabalho para o Vali e ele pediu-me não demorar mais do necessário.”

_”Eu mando um bilhete ao Vali explicando ter eu insistido para ficar mais um pouco; e você sabe como ele me respeita.”

_”Quanto a isso não há a menor dúvida. Sua palavra para ele tem mais valor que assinatura. Ele conta para todo mundo que o Sultão não tem nenhum chefe de tribo igual ao Bei Fattah, fiel e corajoso, e vai solicitar ao Sultão que lhe conceda a maior condecoração do Império Otomano.”

Sorriso de contentamento abriu-se na face viril do Bei que respondeu:

_ “Condecorações não me interessam, são simples adornos. Nada mais.”

_”E o que lhe interessa?”

_” Gosto de moedas de ouro.”

_” O Sr. vai receber também o ouro. O Vali tem muita consideração pelo senhor. E mais, pôs o senhor na lista daqueles que recebem mensalmente, do Tesouro Otomano, uma remuneração substancial para manter ordem e paz nesta região. Ele acedeu ao seu pedido para não nomear por aqui ninguém com mais autoridade que o senhor. Enfim, ele procura fazer tudo que o senhor lhe pede e estou justamente aqui para confirmar as suas palavras.”

_ “Agradeça ao Vali de minha parte”.

Enquanto isso, os homens do Bei, sentados no chão em volta de  uma fogueira, protegiam a entrada da tenda do chefe. Cada qual contava uma piada ou um feito que ele achava heróico, e todo mundo ria. Um dizia ter matado tantas pessoas, outro ter roubado tantas ovelhas e por fim alguns contavam como raptaram lindas moças ou mulheres armênias. A alegria era geral. Um deles Omar, lançou :

_ “Osmã, já roubou mais ovelhas do que ele tem de cabelo.”

_”Você também não é flor que se cheire, Omar. Enquanto eu roubava uma ovelha, você estuprava ou raptava uma esposa ou uma filha de armênio.”

_”O Chapman não gosta de mulheres armênias; por qualquer coisa, começam a chorar”, disse um terceiro entrando na conversa”. É verdade” disse Chapman, “parecem ter coração de vidro; é só tocar, estilhaça. Em contrapartida, nossas mulheres, com a graça de Deus, têm coração de pedra. Mesmo jogando-as nas garras de um lobo, não soltam um pio.. Detesto mulheres choronas. Fico louco de raiva quando começam a chorar. Parecem espalhar tristeza dentro da casa”.[4]

_”Tem mais uma coisa”, emendou outro curdo parecendo ser o mais velho da turma, “essas malditas infiéis nunca desistem de sua religião. Vocês sabem que tenho três delas em casa e na verdade, raramente as bato; mas sempre as surpreendo a rezar, escondidas em algum canto. Mas, o de bom nelas, é que trabalham como animais de carga e não dormem o tempo todo como as nossas.”

Um dos pastores, jovem ainda, distraído. ouvindo a conversação, de repente exclamou:

_ “Que noras lindas tem o velho Khatchô! Se nosso Bei não fosse padrinho dele, eu raptaria uma dessas belezinhas.”

O bate-papo foi interrompido pelo ladrar dos cães e os assobios dos guardas. Imediatamente vários curdos apanharam seus fuzis e correram para o lado onde provinha essa agitação toda. Ao aproximaram-se ouviram vozes saindo da escuridão, ou melhor súplicas: “Pelo amor de Deus, levem-nos à presença do Bei, temos umas queixas a apresentar-lhe". Faltou pouco para que os cães os fizessem em pedaço, mas os guardas intervieram e evitaram o pior.

É muito perigoso acercar-se, á noite, de acampamento curdo; primeiro pelos cães e segundo pelas numerosas sentinelas que enfiam uma lança numa barriga num piscar de olho.

Os curdos os levaram até a tenda do Bei. Á luz dos lampiões pendurados em frente da tenda, percebeu-se serem mercadores e pelo visto tinham sido atacados, pois um deles sangrava na cabeça, outro no braço e um terceiro segurava a ilharga de onde jorrava o sangue.

O Bei, ouvindo esse barulho insólito, chamou um de seus criados e perguntou:

_”O que está havendo?”

_”São alguns mercadores que dizendo terem sido atacados e roubados!”

O rosto jovial do Bei tornou-se, de repente, duro, e um ar de descontentamento passou pela sua face. Mas, disfarçando o seu desgosto, mandou-os entrar e disse, dirigindo-se ao turco:

_”Realmente estou pasmo! É a primeira vez que algo semelhante acontece nas minhas terras. Quem ousou atacar essa caravana?”

O Bei costumava chamar de “minhas terras” qualquer local ocupado por ele e sua tribo, apesar de não ser proprietário de qualquer uma delas, pois assim, como os ciganos, mudava-se sempre, bom nômade que era.

_”Roubos acontecem sempre”, respondeu o oficial calmamente. “Há bandidos em toda parte. Até no Céu apareceram capetas. O Vali de Erzerum recebe todos os dias numerosas queixas de roubo.”

Encorajado com as palavras tranqüilizadoras do turco, o Bei continuou:

_ “Meu amigo, preste atenção ao que vou dizer: juro pela cabeça do Vali que aqui nas “minhas terras”, nem um passarinho se atreve a sobrevoá-las. Estou admirado com a ousadia desses bandidos que se atreveram a atacar esses pobres coitados.”

Logo a seguir os feridos adentraram a tenda. Aquele que sofrera quase nada tomou a palavra:

_”Beijamo-lhe os pés, Bei. Lá em cima acreditamos em Deus e aqui embaixo no senhor. Em nome do profeta, ajude-nos. Somos pobres mercadores. A nossa caravana foi atacada, roubaram tudo que tínhamos e mataram muitos dos nossos companheiros; o que sobrou está aqui diante de seus olhos. A maioria, gravemente ferida, não vai durar muito.”

Os feridos sentaram-se no chão e os outros permaneciam de pé.

 _”Onde vocês foram atacados? perguntou o Bei.”

_”Nas montanhas, não longe daqui. Os ladrões obrigou-nos a sair da trilha, levando-nos até uma ribanceira nos amarraram braços e pés, jogando-nos em enorme buraco existente e a seguir roubando-nos tudo de valor.”

_”A que hora aconteceu isso?”

_” Mais ou menos ao meio-dia. Graças a Deus, um de nós conseguiu se livrar das cordas e liberou todos os companheiros. Senão íamos todos morrer de fome e servir de festim aos lobos e outros animais selvagens.”

_”De onde vocês são? De onde vinham e para onde iam?” perguntou o Bei continuando sua inquirição.

_”Vossos criados são da Pérsia. A caravana foi formada em Trebizonda com mercadorias provindas de Constantinopla; passamos por Erzerum à salvo e íamos para Bayazid. Quando chegamos por aqui fomos atacados. A nossa caravana tinha as mais preciosas mercadorias que o senhor poderia imaginar. Mas os bandidos levaram tudo que podiam e queimaram o resto. Nada sobrou.”

_”Pela cabeça do Vali, é a primeira vez que ouço tamanha barbaridade”, disse o Bei voltando-se para o oficial turco que ouvia com muita atenção o relato do mercador.

_”Vocês seriam capazes de reconhecer alguns dos assaltantes?” perguntou este último, querendo também participar da inquirição.

_”Como poderíamos reconhecê-los? Todos estavam encapuzados, só se podia ver os olhos. E quando nos amarraram, vedaram também nossos olhos e foi somente depois que começou a pilhagem. A única coisa que posso dizer que eram curdos.”

_”Quantos eram?” continuou perguntando o oficial.

_”Mais ou menos uns cinqüenta.”

_”Em que direção foram?”

_”Não pudemos ver; como disse, nossos olhos estavam vedados e estávamos jogados no barranco com mãos e pés amarrados.”

_”Chega!” bradou o Bei, irado, interrompendo a inquirição do turco, “já entendi.” E voltando-se novamente para o mercador disse:

_ “Agora, vão descansar. Se esses criminosos são dessas bandas, eu os acharei de qualquer jeito e vocês vão recuperar toda vossa mercadoria. Mesmo se não forem daqui, darei um jeito para achá-los. Não se preocupem, porque não admito que se perpetrem essas injustiças nas “minhas terras”. Os mercadores agradeceram, o abençoaram e começaram a se retirar.

O Bei chamou um de seus criados:

_”Grbo! Leve essa gente para a sua tenda e trate-os como enviados do céu. Chame logo um médico para cuidar de seus ferimentos. Você será responsável por eles, se alguém se queixar de qualquer coisa, você não escapará do castigo”.

Os mercadores abençoaram novamente o Bei e despediram-se.

Quando todos se retiraram o Bei se dirigiu ao oficial :

_”Está vendo, meu amigo, que coisas absurdas estão acontecendo? Como descobrir agora quais são os capetas que os ajudaram a cometer esse ato abjeto? Tenho certeza que esses bandidos não pertencem a uma tribo da nossa região. Costumo castigar severamente os ladrões; eles têm pavor de meu veredicto e ninguém se atreveria a tal ato. Eles vêm de longe, às vezes da Pérsia, para roubar por aqui. Como reconhecer um persa quando disfarçado de curdo? Isso está acontecendo constantemente e está me dando muita dor de cabeça. Faço de tudo para prendê-los.... Ahmed! gritou ele voltando-se para seu primo irmão que assistia à cena, sentado, sem proferir um só palavra. Junte vinte homens, dos mais valentes, com você, agora mesmo. Primeiro vai ao lugar onde a caravana foi atacada; procura ver se deixaram rastros. Depois pergunta aos pastores da vizinhança se viram alguma coisa que possa nos ajudar. Em resumo, faz de tudo para descobrir quem são esses bandidos. E não preciso te dizer mais nada, você tem experiência nisso tudo. Não suporto coisas assim acontecendo nas “minhas terras”; isso mancha minha honra.”

Ahmed saiu da tenda a fim de cumprir as ordens do Bei. Reuniu vinte cavaleiros e seguiu seu caminho em plena escuridão.

_”Ahmed tem faro; se os ladrões estiverem ainda por aqui, tenho absoluta certeza que eles os achará”, disse o Bei.

_ “Não duvido nada”, respondeu o turco, sentencioso.

Já era tarde. O Bei mandou servir a ceia. Comeram e beberam. Então o Bei levantou-se, desejou boa noite ao seu hóspede e foi se recolher. Porém o oficial turco, pensativo, custou a conciliar o sono.

 

[1] chefe religioso muçulmano que faz também papel de juiz.

 [2] Membro de uma dinastia turca fundada por Osmã I (no meado do século XIII) imperador dos turcos e fundador do império Otomano. 

[3] Cachimbo composto de um fornilho, um tubo e um vaso cheio de água perfumada que o fumo atravessa antes de chegar à boca.

[4] Comentário do Autor: Que sentimento bárbaro! O choro da mulher Armênia deixa o curdo louco de raiva!