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CAPÍTULO XI

A esposa do fazendeiro Khatchô falecera ao dar a luz a Stepanig. Os camponeses de sua idade costumavam casar-se novamente mas ele preferiu permanecer viúvo. Quem tomou conta da casa foi Sara, a nora mais velha, considerada muito inteligente e perfeita dona de casa. Quando preciso, consultava sempre o sogro e seguia seus conselhos. As outras noras a respeitavam e obedeciam suas ordens.

Um dia pela manhã, quando todo mundo estava ocupado com seus respectivos afazeres, uma das criadas, que tinha ido até a fonte buscar água, ao voltar com um jarro no ombro, aproximou-se de Sara e sussurrou no seu ouvido: “Há uma moça curda lá fora que quer falar com a senhora.”

_"Diga para ela vir até aqui; não está vendo que estou ocupada?"

_"Ela não quer. Disse que é muito importante."

Sara foi ter com a moça esperando na porta da fazenda. Era moça alta, bonita, esbelta e de pele amorenada.

_"Não fiquemos aqui," disse a moça. "Vamos até lá embaixo daquelas árvores; pouca gente poderá nos ver", disse a moça curda designando o lugar com o dedo.

O olhar brilhante da moça causou um sentimento esquisito em Sara, um certo mal-estar. Por que essa moça ignorante e selvagem (como todos os curdos em geral), queria ir embaixo das árvores onde comumente ninguém passava? O que será que ela queria?"

_"Vamos para casa", disse Sara pegando a mão dela. "Se você não quer que ninguém nos ouça, acharei um cantinho para nos duas".

A moça concordou e se deixou levar para dentro da propriedade. Sara levou-a para um canto do pátio, à sombra dos salgueiros.

_"Vamos sentar aqui", disse ela, "parece que você gosta muito de árvores".

Sentaram na grama, pertinho uma da outra.

_"Agora diga-me, o que você quer?" perguntou Sara segurando a mão da moça.

_"Dona Khurchit mandou Tchavô aqui. Você conhece Khurchit, não é? É a patroa de Tchavô. Tchavô dá graças a Deus todos os dias por ter uma patroa assim. Ela não bate na Tchavô e dá suas roupas velhas para mim dizendo: você é uma boa menina. Mas quem disse que são roupas velhas? Veja! Esse vestido é novo; ela vestiu uma vez só e depois deu para mim. É sempre assim; para ela, é uma vez só e depois já é velho".

E de fato, a moça curda, ao contrário das outras, estava limpa e por que não dizer, elegante. Mas Sara tinha dificuldade em entender o linguajar desordenado da criada. Ela falava na terceira pessoa. Ela só entendeu que a moça se chamava Tchavô e era uma das criadas de Khurchit, esposa de Fattah Bei. Mas agora, estava sumamente interessada em saber por que tinham mandado essa moça inculta. Sabendo do palavreado chulo das curdas, deixou-a continuar sem pedir explicações e disse :

_"Você se chama Tchavô? Que nome bonito".

_"Minha mãe me chama de Tchavahir, mas a patroa me chama de Tchavô; ela diz que Tchavahir é muito comprido".

_"Então, vou te chamar como tua patroa. Escuta, filhinha, por que ela te mandou falar comigo?"

Mas a criada não respondia à pergunta. Falava de outras coisas. Ela devia ter muitas coisas para dizer e não sabia exatamente por onde começar. Mas respondeu:

_"A patroa de Tchavô brigou ontem a noite com o Bei, seu marido. Não vai pensar que Tchavô é boba, não? Enquanto brigavam, Tchavô, atrás da cortina ouvia tudo. Ah! Como a patroa estava brava! Arrancava os cabelos e rasgava suas roupas. Que pena! Roupas tão bonitas! Não vão servir mais para Tchavô".

Percebendo que a coitada gostava muito de roupa, Sara emendou:

_"Se Tchavô sabe costurar, é só remendar o vestido e depois vestir".

_ "Remendar, costurar, claro que eu sei! Olhe para esses dedos, disse ela mostrando sua mão direita. Minha mãe me picava sempre os dedos gritando: você vai aprender a costurar, nem que for na marra!

_"Estou vendo que você é uma moça prendada. Agora diga me: por que o Bei estava brigando com a esposa?"

_"O Bei queria trazer uma nova mulher para casa, e a esposa dizia não aceitar de jeito nenhum. Eu me mato, dizia ela, se você trouxer uma nova mulher. Não é um pecado ouvir isso? Onde vai achar um mulher igual a Khurchit? Para que trazer outra mulher?"

Aos pouco, Sara começava a desvendar o mistério da visita da moça curda.

_"É verdade, igual a Khurchit não existe. Mas continua! Por que o Bei quer trazer outra mulher?"

_"Se o Bei trouxer uma nova mulher, minha patroa vai morrer e Tchavô vai morrer também", disse a curda com tristeza.

Perdendo pouco a pouco a paciência Sara perguntou:

_"Mas quem é essa mulher que o Bei quer trazer?"

_"Você tem que perguntar para Tchavô por que Khurchit a mandou aqui para falar com você. Aí, Tchavô vai responder quem é a mulher."

_"Está bem. Por que ela te mandou aqui?"

_"De manhã cedo, depois da briga, a patroa me chamou e disse: “Você vai até a casa do compadre Khatchô e manda chamar a Sara. Diga que eu mandei muitas lembranças, pergunta como ela vai... (chiii...esqueci de te perguntar como você vai?)"

_"Não faz mal. Que mais falou a patroa?"

_"A patroa disse: “Manda chamar a Sara e leve-a para um lugar bem sossegado (é por isso que eu queria ir embaixo daquelas árvores, lá é bem sossegado)".

_"Aqui também é bem sossegado, ninguém pode ouvir. Agora, o que mais disse tua patroa?"

_"Ela disse para levar o Stepanig bem longe, para outro país se possível, o mais depressa possível. Se vocês não têm gente para fazer isso, ela vai mandar gente para vocês e vocês dirão onde levá-lo. E ainda ela disse: “Tchavô, você vai me jurar que não vai contar para ninguém o que disse para você.”. E Tchavô jurou".

A seguir, a moça contou que sua patroa a tinha ameaçado e dissera que mataria Tchavô se ela contasse essa história para uma outra pessoa. 

E disse ainda ter muito medo da patroa, pois ela mataria mesmo, já tinha visto com seus próprios olhos como ela tinha matado uma das criadas; mas, por quê? Isso Tchavô não vai dizer....

Mas a pobre Sara não estava mais prestando atenção ao que dizia a curda. Parecia ter sido atingida por um raio ao ouvir o nome Stepanig. Começou a tremer, ficou pálida e teria desmaiado se o braço forte da moça não a tivesse amparado. Apesar de não entender exatamente o que se passava com Sara, a moça percebeu ter relação com que dissera e tentou consolá-la:

_"Não fique assim!" disse ela, "enquanto minha patroa estiver viva nada vai acontecer. Ela não vai deixar raptar uma moça daqui".

_"Que moça? Não temos nenhuma moça aqui!" 

_"O Bei sabe que Stepanig é uma moça".

Enquanto isso, Stepanig estava brincando com o cordeiro presenteado pelo Bei há alguns dias. Os raios do sol iluminavam o seu lindo rosto e delineavam o seu corpo esbelto. Sara apontou para o sobrinho dizendo:

_"Olhe lá! Aquele é Stepanig. Tem cara de mulher? Quem contou essa bobagem ao Bei?"

_"Foi uma das vossas criadas, mulher do pastor de ovelhas Hilô. E a patroa disse que vai matar essa desgraçada".

_"Ela mentiu! Ela é uma ladra; foi surpreendida roubando, foi mandada embora e por vingança inventou essa história".

Sara percebendo que Tchavô apesar de ingênua não era tão boba assim, e notando também sua lealdade para com sua patroa – característica das pessoas analfabetas – entendeu que poderia mandar um recado para Khurchit por intermédio dela. Então pediu que lhe retribuísse as lindas palavras endereçadas a ela e que se inteirasse de sua saúde e de seu bem-estar. A seguir, disse ser absolutamente errado o fato de pensar que Stepanig era uma moça; porém, se ela fizesse questão que Stepanig fosse mandado fora do país, assim seria feito. Acrescentou ainda que gostaria muito de encontrar-se com ela  e marcar um encontro para conversarem a respeito desse assunto. O local e a hora deveriam ser mantidos em sigilo. Ao terminar, Sara perguntou:

_"Minha linda e inteligente Tchavô, você vai conseguir transmitir para sua patroa tudo o que falei?"

_"Tchavô tem uma boa memória, Tchavô não vai esquecer não"; e repetiu qual uma aluna perante sua professora as palavras recém ouvidas, esquecendo, é verdade, algumas frases, mas o conteúdo estava certo. Sara corrigiu os erros e mandou repetir mais algumas vezes a lição aprendida.

_"Agora Tchavô está repetindo direitinho o que  Sara falou, disse a criada, e Tchavô vai repetir tudo de novo durante o caminho de volta."

_"Alguém poderá ouvir", ponderou Sara preocupada.

_ "Tchavô não é boba", Tchavô vai repetir tudo na sua cabeça", disse a moça levantando-se.

Já se fazia tarde e a criada despediu-se dizendo ter uma longa caminhada a fazer até chegar às tendas do Bei.

_"Espere aí, Tchavô. Você é uma boa menina. Vou te dar um presente".

Enquanto Sara ia buscar o presente, Stepanig que ainda estava brincando com seu cordeirinho, vendo a moça sozinha, aproximou-se:

_"Está indo embora?" perguntou ele

_"Está ficando tarde e nesta época escurece depressa".

_"Você veio até aqui e não comeu nada?

_"Tchavô esqueceu que estava com fome. Tchavô não comeu nada hoje".

_"Vou buscar alguma coisa para você comer."

A curda, encantada com o bom coração do moço, abraçou-o e o beijou. Stepanig correu para a casa e voltou com mel e manteiga enrolado no lavach (pão fino da grossura de um papel).

_"Agora senta e come", disse o jovem.

_"Tchavô vai comer no caminho de volta".

Sara apareceu trazendo um lindo corte de seda vermelha, muito cobiçada pelas moças curdas que a usam como turbante. Tchavô, ao ver o tecido, esqueceu das boas maneiras e arrancou o pano das mãos da Sara e logo o enrolou em volta da sua linda cabeça; voltando-se para Stepanig e Sara perguntou:

_"Tchavô está linda?"

_"Muito", responderam ao mesmo tempo

_"Então, quero um beijo dos dois".

Sara a abraçou e a beijou

_"Você também", pediu a moça.

Stepanig seguiu o exemplo da Sara.

_"E agora é a vez de Tchavô de beijar".

E a moça tão ingênua e tão sincera no seu comportamento,  retribuiu os beijos e tomou o rumo das tendas do Bei.