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CAPÍTULO XII

  Foi depois da partida de Tchavô que Sara começou a conceber a tremenda ameaça pairando no ar, visando a família em geral e Stepanig em particular. Este, absolutamente alheio ao assunto, colocou carinhosamente seu braço no ombro de Sara e disse:

_”Por que essas moças curdas são tão estúpidas assim?”

_”“Elas não são estúpidas”, respondeu Sara com ternura. ”Foram criadas e educadas assim; exatamente como os animais selvagens das montanhas”.

_”“Assim como meu cordeirinho”, exclamou Stepanig. “Dou-lhe de comer, de beber, abraços e beijos, mas ele não gosta de mim, sempre foge quando me aproximo dele”.

Enquanto ele falava, Sara o observava e seus olhos se encheram de uma imensa tristeza. Até hoje nunca tinha prestado atenção ao seu belo rosto e ao seu corpo esbelto, que retratavam tão bem a pré-adolescência. Enxugou discretamente os olhos para que o rapaz não notasse a sua aflição.

Mas o moço, alheio ao que sua cunhada sentia, continuava falando da moça curda :

_“Estava com muita fome. Dizia não ter comido nada durante todo o dia; dei-lhe uma fatia de pão com mel e manteiga e pedi que sentasse e comesse. Mas ela pegou o pão e foi andando e comendo; parecia estar com muita pressa”.

_”Estava com pressa porque mora muito longe”.

_”Onde é que ela mora”?

_”Lá, do lado daquelas montanhas”.

_”É verdade que nesta época está escurecendo muito depressa. Como é que ela vai tão longe a pé e sozinha; será que não fica com medo? “

_”Não fica, não. Foi criada assim. Você sabe, cria de lobo não tem medo de nada”.

Uma voz gritou o nome de Sara e ela voltou para casa dando fim à conversação.

A coitada da mulher ficou o dia inteiro pensando naquilo que a jovem curda lhe tinha contado. Não conseguia concentrar-se no trabalho. Queria um garfo e pegava numa faca, em vez de virar para a direita se dirigia para a esquerda; sempre se enganava, parecia embriagada e às vezes parava e suspirava. Passou o dia todo atormentada. Stepanig perdeu sua mãe sem conhecê-la, foi Sara que o criou. Agora uma grave ameaça pairava sobre sua cabeça. Para quem e como deveria contar tudo aquilo que a moça curda tinha revelado? Sabia que se contasse para o velho Khatchô, ele não suportaria as revelações das intenções do Bei. Mormente que ele sofria do coração. Por outro lado, sabia não ser bom ocultar os fatos, teria a obrigação de contar a verdade para que tomassem as devidas providências. Mas para quem?

O dia todo esses pensamentos martelavam sua cabeça e ao cair da noite ainda não resolvera seu problema.

Por fim, quando se recolheu com Hairabed, seu marido, esse último perguntou:

_”O que que há Sara? Está doente? O dia inteiro você me pareceu esquisita”.

_”Estou com um pouco de dor de cabeça, não é nada não, logo, logo passa”, respondeu Sara, não querendo assustar seu marido com o grave problema que aparecera.

_”Esfrega a testa com um pouco de vinagre”.

_”Já esfreguei”.

Ela queria preparar seu marido pouco a pouco para a terrível revelação, mas não sabia por onde começar, quando ele mesmo lhe deu a oportunidade:

_”Ouvi dizer que uma moça curda esteve aqui. O que é que ela queria?”

_”É a empregada doméstica de Khurchit, a esposa do Bei Fattah”.

_”Toda vez que aquele desgraçado ou alguém de sua comitiva vem aqui, sei que algo de ruim vai nos acontecer”, disse Hairabed com uma voz irritada. “Meu Deus! Quando é que vamos ficar livres desses pilantras?”

_”Temos que ter paciência diante dos desígnios de Deus”.

Os pobres coitados se consolavam sempre lembrando o nome de Deus. Parecia ser Deus o responsável de todas as infelicidades sofridas.

_”O que foi? O que aconteceu?” Perguntou Hairabed, amedrontado.

Sara narrou-lhe tudo que a criada curda lhe havia contado. Ao ouvir tão horrenda narrativa, o rosto de Hairabed tomou primeiro uma expressão de espanto, depois ficou vermelho de raiva e por fim pálido feito cadáver. A seguir, ele disse:

_”Faz tempo que eu esperava por isso. Pobre papai! Se ele souber, ele morre”!

_”O dia inteiro pensei nisso. É verdade. Se ele souber, ele morre, com certeza”.

Por um momento ambos ficaram em silêncio, pensando no que deveria ser feito.

_”Não somos obrigados a contar ao pai, disse Hairabed quebrando o silêncio”.

Mas Sara ponderou:

_”Porém, não podemos esconder de seus irmãos”.

_”Claro que não!”

_”Então, não se pode perder tempo, você conta tudo agora mesmo. Cada momento que passa é vital. Tome logo uma decisão e vamos fazer o que deve ser feito. Não se sabe o que pode acontecer de um momento para outro”.

Alguns dos irmãos estavam em casa, outros permaneciam ainda no campo. Hairabed levantou-se e ao sair recomendou à esposa para não contar nada às cunhadas até que falasse com seus irmãos. Chamou os irmãos e todos foram para o campo. Durante o trajeto disse que tinha algo de importante a revelar, mas que falaria somente quando todos estivessem presentes. Escolheu um lugar bem isolado, perto do moinho, para que ninguém os surpreendessem e principalmente para que o pai não descobrisse o segredo.

Quando todos estavam reunidos, Hairabed contou tudo que sua esposa lhe havia revelado. Pode-se imaginar a profunda tristeza que isso causou para todos. Ficaram petrificados. Ninguém conseguia falar. Lembrava aquela cena do bosque, quando ao cair da noite, um bando de passarinhos, felizes de ter voado o dia inteiro à procura de comida, descansavam nos ramos das árvores cantando e piando durante horas, e de repente, o silêncio reinava: era um falcão que se aproximava.

Foi exatamente assim que se sentiram os seis irmãos ao ouvirem o nome do Bei Fattah e das suas perniciosas intenções.

_”E os curdos chamam isso de amizade”, disse um dos irmãos; “e ainda mais o Bei, que é o padrinho dos nossos filhos. Ele até esquece da nossa acolhida aqui, quando lhe oferecemos de tudo!”

_”Como pode se conceber amizade entre a ovelha e o lobo, entre a raposa e a galinha”, disse Hairabed com uma voz irritada. ”Mas nós somos piores que as ovelhas. Elas enfrentam os seus inimigos com seus insignificantes chifres; as galinhas se defendem com suas garras afiadas, mas nós, não temos nada para nos defender. Nós representamos a ralé, o excremento da humanidade, o qual é preciso limpar para não poluir a atmosfera”.

Disse essas palavras com uma ênfase, acentuando a sua tristeza de tal maneira que os irmãos ficaram assustados.

_”Afinal, o que somos nós?” continuou ele com o mesmo tom de voz. “Somos uns camponeses robustos e trabalhadores, e por isso sentímo-nos orgulhosos; mas o burro, o cavalo, o boi, o búfalo são muito mais fortes do que nós e trabalham muito mais. Portanto nós somos uns trabalhadores iguais a eles e nada mais. A espada do curdo é muito mais importante que o nosso arado, pois nos semeamos e eles comem. Temos lindas filhas, bem educadas e são eles que as levam. Tudo que é bom e bonito é para eles. Tudo que é feio, sujo e que não serve para nada é reservado para nós.

Alguns dias atrás”, continuou ele, “falei sobre esse assunto com o pai; ele estava tentando me convencer que nossa situação não era tão ruim assim, pois somos ricos. Mas ele não quer enxergar ser nossa riqueza fictícia, visto que se surgir agora mesmo um bando de curdos armados, eles acabam com tudo que temos e conosco também num piscar de olhos. Agora, vamos e venhamos, se o velho vê o seu filho querido ser raptado diante de seus olhos, o que ele vai fazer? Vai ficar de olhos arregalados sem ousar falar uma palavra sequer. É isso que chamam de uma bela situação? Uma situação dessa somente é tolerada pela falta de brio e falta de honra do armênio! Tente raptar o filhote de uma onça! Antes de realizar o que está acontecendo, você será despedaçado e esmigalhado. O curdo também age assim. Mas nós! Nós não! não somos ninguém, não somos nada!”

As palavras de Hairabed inflamaram sumamente o coração de alguns dos irmãos e eles juraram resistir o máximo possível, morrer se for preciso, mas jamais entregar o Stepanig.

_”Isso não leva a nada”, respondeu o sagaz e experimentado Hairabed. “Eles vão matar a gente e vão levar Stepanig de qualquer jeito”.

_”Mas, pelo menos”, interrompeu o Abô, “a gente não será testemunha da desgraça da nossa irmã e dormiremos em paz com nossa consciência em nossos túmulos”.

Porém, alguns como Ohán, que pensavam de modo diferente, intervieram:

_”Vamos morrer por causa de uma moça e deixar nossos filhos órfãos e sem amparo? Não tem cabimento. Eu particularmente não quero me meter nessa história. Por que devo morrer por ela?  Podem levá-la e ponto final”.

Outro irmão, chamado Hagô, apoiou os dizeres de Abô e disse:

_”Não vejo desgraça nenhuma em tudo isso. Pensem bem! Se tivermos um cunhado chamado Bei Fattah; todos os armênios da região vão nos respeitar e temer. Vejam, por exemplo, o nosso vizinho Megôn. É um pé-rapado. Mas todos nós temos medo dele porquê casou sua filha com um curdo. Ninguém ousa discutir com ele, pois se ele ficar bravo, poderá contar tudo ao seu genro e, então “ai de nós!”, o genro virá uma noite e matará todos nós! E então? Não é interessante ter um cunhado curdo?”

Essas palavras irritaram profundamente Abô, aquele que tinha jurado resistir, proteger a irmã e morrer se fosse preciso.

_”Pelo amor de Deus!” disse ele, “você perdeu o juízo Hagô? Nem um burro diz palavras assim! Renunciar à nossa fé, entregar nossa irmã ao curdo infiel para sermos considerados e temidos pelos nossos vizinhos armênios! Não quero esse tipo de “consideração”! E você sabe muito bem que pela frente respeitarão e bajularão a todos nós, mas por trás amaldiçoarão a gente. Quem é que gosta de Megôn?  aquele que entregou sua filha ao curdo? É verdade que as pessoas têm medo dele, mas também têm medo de cachorro raivoso ou de animal selvagem!”

Um dos irmãos, que tinha ficado em silêncio, tomou a palavra contradizendo Abô e aproveitando da sua filosofia religiosa, argumentou que os desígnios de Deus eram impenetráveis e que todos eram predestinados: o que está escrito acontecerá de qualquer jeito. Acrescentou ainda que Deus tinha criado o curdo e o armênio. Para o curdo tinha dado o fuzil e para o armênio a pá, isso é imutável e terminou com o seguinte exemplo:

_”O corvo sempre cobiçou a cauda do pavão. Mas como consegui-lo? Deus deu uns predicados para o primeiro e outros para o segundo”.

_”Você simplesmente está esquecendo que o corvo e o pavão são dois pássaros distintos enquanto o curdo e o armênio são dois seres humanos. O curdo não saiu da barriga da mãe com um fuzil na mão, saiu pelado, nu, indefeso assim como o armênio. Por quê você sempre culpa Deus de tudo que nos acontece? Será que é Ele que presenteia o curdo com um fuzil para que nos mate ou rapte nossas filhas? Será que é Ele que fez o armênio medroso e desgraçado? Deus não se preocupa com essas coisas insignificantes! Ele nos deu um cérebro para que possamos distinguir o que é bom e o que é ruim para nós. Por exemplo, se você quiser se jogar naquele rio ali, agora mesmo, e se afogar, Deus não te impedirá, será você que selará teu próprio destino!”

Hairabed prestava uma atenção acurada à discussão surgida entre seus irmãos. Queria levantar e beijar a testa do seu irmão Abô, mas não quis ofender, com esse gesto, seus outros irmãos.

_”Estão vendo”, disse ele com uma voz cansada; “nós, que somos somente seis  irmãos, não conseguimos chegar a um denominador comum. Não conseguimos nos entender. Imaginem um povo, uma nação! Enquanto nós, armênios, agirmos dessa forma, nunca progrediremos, seremos os de sempre. Em resumo: os curdos vêm, batem na gente, cospem na nossa cara, raptam nossas esposas e nossas filhas, carregam nossos bens, tornam-se dono das nossas terras e nós, feito cordeiros e burros de carga ao mesmo tempo, assistimos a tudo isso com resignação, trabalhando com mais afinco ainda para que eles passem bem. E ainda por cima, damos graças a Deus pelo fato de não ter nos matado!”

É com profunda tristeza que Hairabed terminou seu discurso e propôs mandar Stepanig para o convento de São João, até achar um meio de fazê-lo atravessar a fronteira russa, onde nada mais teria a temer.

Porém, Hagô e Ohân não gostaram da idéia, argumentando que isso seria resistir às ordens do Bei.

_”Escondendo nossa irmã”, disseram eles, “vamos provocar a ira do Bei e consequentemente, a sua vingança”.

Eles achavam melhor deixar tudo como estava e apresentaram novamente as mesmas ladainhas : “Deus sabe o que faz; o que está escrito, está escrito” etc...., etc....

Alguns dos irmãos faziam questão de contar tudo ao pai. Ele, como o mais velho da família, analisaria melhor a situação, chegaria a uma conclusão sábia e todos cumpririam sem discussão.

Assim a reunião se prolongava sem chegar a nada de concreto.

De repente, dos meios das árvores, ouviu-se o chirriar da coruja. Era algo de mal auguro que perturbou todos eles.

_”Ouçam! Somos nós que tínhamos razão! Até a coruja está de acordo conosco. Vamos ter graves problemas se afastarmos Stepanig daqui”.

Somente Hairabed e Abô continuaram a insistir sobre o afastamento de Stepanig. A reunião terminou sem que se chegasse a uma conclusão.