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CAPÍTULO XIII

Mas que história estranha era essa?   Afinal, Stepanig era menino ou menina?

Vamos desvendar o enigma, contando uma história triste.

Num dos cantos da fazenda do velho Khatchô, escondido pelas árvores, havia um pequeno cemitério. não se via cruz, nem túmulo, nem mesmo dizeres. Havia apenas uma pequena saliência retangular coberta de cal. Freqüentemente, na calada de noite, podia-se vislumbrar, na escuridão, a silhueta do velho Khatchô chorando. Os outros familiares também sentiam profunda tristeza ao passar por esse pequeno cemitério; parecia que a alegria de todos estava ali enterrada . Quem estaria enterrado lá?

Khatchô tinha uma filha chamada Sonâ, muito parecida com Stepanig. Quando Sonâ fez dezesseis anos, começaram chover pedidos de casamento, não somente por ser filha de uma pessoa rico, mas também por ser realmente muito bonita. O pai estava muito confuso e perturbado por não saber a quem conceder a mão de sua filha. Mas a sorte da moça foi ceifada abruptamente. Um dia foi ao campo para colher algumas flores e não mais voltou. Muitas hipóteses foram levantadas: alguns achavam ter se afogado no rio, outros que fora devorada por animais selvagens, outros ainda que a culpa era dos duendes e por fim a maioria achava que os curdos a tinham raptado. Era difícil concluir. Foram feitas inúmeras buscas e apesar de Khatchô ter prometido vultuosa recompensa em dinheiro, nada foi esclarecido.

Semanas se passaram.

E um dia apareceu um curdo com uma mula carregando um caixão: nele estava o cadáver de Sonâ.

O Curdo contou o seguinte: quando Sonâ estava no campo foi raptada por um chefe curdo afamado pelo seu mau caráter. Era, na verdade, um homem cruel. Sonâ, desesperada, não agüentando os assédios do muçulmano, subornou uma velha criada curda com algumas moedas de ouro para que ela comprasse um veneno. E se envenenou e morreu. Os Curdos não quiseram enterrá-la em seu cemitério pois a infeliz até seu último suspiro repetia: “Sou cristã, nunca abjurarei minha fé”. Então a jogaram numa vala. Mas soube mais tarde que  o velho Khatchô estava à procura da filha e a trouxe na esperança de uma recompensa.

Mas, pasmem! Os próprios padres armênios também não quiseram enterrá-la no cemitério armênio, alegando que se suicidara sem se confessar e sem receber a absolvição e etc.. etc... Eis a razão da existência daquele pequeno túmulo na casa de Khatchô. Rejeitada pela sua Igreja, fora aceita no seio da família.

Não é preciso descrever o sofrimento dos familiares. Este acontecimento ocasionou outros. A mãe de Sonâ, que se chamava Rehâ, depois de ter dado à luz a Stepanig, não suportou a dor causada pela morte da filha e definhando, dia após dia, faleceu. Estes acontecimentos transtornaram também a vida de Stepanig, pois sendo menina, vestia-se como menino. Seu verdadeiro nome era Lalai. Por quê ?

A morte da filha perturbou o pai de tal modo que quando Stepanig nasceu , ele temia um mesmo fim trágico para ela também. Esse receio não era tão absurdo assim, pois vira com seus próprios olhos, muitos e muitos raptos de moças virgens, perpetrados pelos muçulmanos, fatos corriqueiros para esses últimos.  Por isso tomara a decisão de trajar sua filha de menino, pelo menos até a idade adulta. Na família esse fato era acobertado com o máximo cuidado. Além da família, somente os padrinhos, já falecidos, e o padre da aldeia compartilhavam esse segredo.

Lalái – a partir deste momento vamos chamá-la pelo seu verdadeiro nome –  tinha completado seus dezesseis anos. Uma idade para as moças não ficarem mais em casa pois devem se casar . É o que mais o pai almejava, mas com a roupa que ela trajava , é obvio que nenhum moço ia pedi-la. Assim mesmo, o pai desejava dar sua filha a um homem, de preferência forasteiro, que a levasse longe dali, a fim ninguém saber do artifício urdido por ele, apesar de ser fato corriqueiro naquelas bandas. Como achar tal homem?

Khatchô pensara num homem de meia idade, chamado Tomás Efendi, baixinho, gordinho e velhaco, isto é, não era flor para se cheirar. Ninguém sabia exatamente de onde vinha, mas ele dizia ser de Constantinopla, onde tinha parentes na alta sociedade. Os irmãos o chamavam de monstro e o detestavam. Não por ser feio, mas pelo seu caráter, mesquinho e cruel. Não gostava de conviver com os Armênios. Fazia questão de falar somente em turco e procurava ser amigo de políticos e militares turcos. Vangloriava-se disso e aproveitava para ameaçar os Armênios. Sua função era “Coletor de Impostos do Império”. Esta pessoa representava  para os Armênios o capeta, espécie de enviado do diabo e lhes inspirava pavor incontrolável. Porém, (que paradoxo!),  mais tinham medo mais o tratavam bem. Mesmo se fosse o próprio diabo que viesse visitá-los, não o odiariam tanto quanto o bajulariam. O ser humano age e agirá sempre dessa forma. Quando criança, não sabe distinguir o bem do mal. Porém, mais tarde, estranhamente, tem tendência a se curvar diante do mal. “O Bem estará sempre do nosso lado, pensa ele, mas devemos tratar o Mal sempre bem para que não nos prejudique.”

E somente esse raciocínio faz entender o porquê da consideração do velho Khatchô para com Tomás Efendi, o qual freqüentava sua casa assiduamente. Khatchô era o chefe eleito da aldeia e por isso estava sempre em contato com os fiscais turcos que o obrigavam a participar do recolhimento dos impostos. Tomás Efendi era um deles e aproveitando-se de seu cargo, ficava às vezes várias semanas na casa do ancião, comendo e bebendo do bom e do melhor enquanto recolhia os impostos devidos. O “odá” do fazendeiro fazia papel de verdadeira pousada seja para governador, prefeito, vereador, fiscais, seja para o padre que vinha benzer a casa e até para qualquer mendigo que viesse pedir abrigo e passar a noite.

No dia seguinte da reunião dos seis irmãos apareceu Tomás Efendi, acompanhado de dois soldados turcos, seus inseparáveis guarda-costas. Vieram no fim da primavera para coletar o imposto sobre as ovelhas antes que os camponeses levassem o rebanho para a montanha, fugindo do intenso calor do vale. Terminando sua tarefa, sempre acompanhado do ancião, dirigiu-se para a casa deste último. Nem o Sultão nas sextas-feiras desfilava com tanta empáfia e arrogância quando ia para a mesquita de Santa Sofia. Barriga empinada, nariz levantado, andava lentamente, olhando aqui e acolá a fim de observar quais os camponeses que o cumprimentavam. Trajava um casaco coberto de botões dourados, presente do vizir, dizia ele. Adentrando na fazenda, logo ordenou que lhe trouxessem um café e compôs o cardápio do dia. O coletor de impostos agia assim em todas as casas onde entrava e sabia se impor àqueles que fingiam não entender.

Por fim, sentaram-se e o velho Khatchô disse : “O Sr. foi muito rude com aquele pobre camponês. Mandou surrá-lo até não poder mais.”

_”Você está muito equivocado, meu amigo”, respondeu Tomás Efendi, com voz que parecia miar de gato,” o camponês deve apanhar mais e mais : “Se você não malhar o burro, ele não se mexerá”.

_ Mas o coitado não tinha culpa!

_ Isso não faz diferença. Hoje não tem culpa, amanhã poderá ter. Você nunca ouviu falar da história de Nasreti Hodjá? Ele tinha dois burros. Um deles conseguiu cortar a corda que o mantinha preso e fugiu. Nasreti Hodjá, em vez de correr atrás dele, começou a bater no outro burro que estava quieto, comendo tranqüilamente seu feno. Perguntaram para ele “por quê estava batendo no pobre animal”. Ele respondeu: “se por acaso, este também fugir, pelo menos já recebeu o seu castigo.

_ “Mas eu tenho certeza que o camponês não mentira quanto ao número de ovelhas, pois tinham sido os Curdo que tinham roubado grande parte e particularmente não acho justo surrar um pobre burro inocente”.

_ “Eu também sei que foram os Curdos que roubaram suas ovelhas” respondeu o coletor de impostos.” Mas não posso aceitar esse tipo de desculpas senão vai ser eu que vou pagar. Ano passado esse camponês me mostrou 100 ovelhas. Eu lavrei o imposto sobre 100 ovelhas. Agora, se os Curdos roubaram 50 ou 60 delas, que culpa tenho eu? Os Curdos roubam todos os dias. Ele que não se deixe roubar, se é homem”.

_ “Por favor, seja mais indulgente, Efendi”, disse o fazendeiro. “O Sr. tem pleno direito de taxar todas as ovelhas presentes. Mas aquelas que morreram ou foram roubadas não deveriam ser taxadas”.

_~”E como vou saber se é verdade que roubaram? disse Tomás Efendi, irritado, “o camponês pode esconder suas ovelhas e depois dizer que foi roubado, ou morreram  não é?”

O velho não respondeu e o outro prosseguiu:

_ “Pelo jeito o Sr. Desconhece o novo decreto do Sultão. Ele acaba de me mandar uma cópia. Se o Sr. soubesse do teor desse decreto, não falaria assim.”

E tirou do bolso uma porção de folha de papel. Examinou as uma por uma e por fim escolheu uma delas. Era uma folha grande, vermelha, dobrada em quatro. Desdobrou-a e apareceram vários grande caracteres seguidos de outras letras miúdas.

_ “Pronto, pega e lê o que está escrito aí.”

O fazendeiro, admirado, fixava as enormes letras ( aquilo que é grande atrai sempre qualquer camponês) e se ele soubesse ler em turco, compreenderia que aquela grande folha de papel vermelho era simplesmente o cartaz de uma peça de teatro de Constantinopla, em benefício de uma atriz se aposentando.

Tomás Efendi continuou a sua encenação:

_ “Ô fazendeiro! Que falta de consideração para com o Sultão. O Sr deveria saber que antes de ler o decreto, é preciso beijá-lo.”

O velho Khatchô beijou o suposto decreto e o devolveu com deferência.

_”E mesmo com este decreto, os camponeses não querem entender que os impostos aumentaram,”continuou o coletor rispidamente.”Eu também sou gente, não sou de ferro. Minha paciência se esgotou. O burro que é burro, se cair num buraco recoberto pela lama, nunca mais cairá novamente no mesmo buraco! Você pode dar-lhe a maior surra, ele não avançará um centímetro. Mas esses ignorantes nem isso entendem.” ( Tomás Efendi tinha o costume de dar seus exemplos baseados sempre nos burros). “Vou lhe contar uma história, amigo Khatchô. O Sr. sabe que fiscalizo esta vasta região. Pois bem : um dia fui visitar uma aldeia. Um camponês tinha terminado a colheita e arrumara tudo bonitinho para que eu medisse  e retirasse os dez por cento do imposto em trigo. Eu lhe disse preferir o equivalente em dinheiro. Respondeu não poder dar dinheiro e ter direito de pagar com a colheita, ( não suporto quando começam falar de direito). Eu disse para mim mesmo :”vou mostrar para esse palhaço o que é direito e o que é torto”, e fui embora sem cobrar nada. Como ele é obrigado a deixar a colheita como está até o imposto ser cobrado, não pôde evitar que o trigo apodrecesse embaixo da chuva e do sol. Aí, voltei lá e disse que, pensando bem, ele tinha direito de me pagar com a colheita. Mas que colheita? Estava tudo estragado. Então me dá o dinheiro correspondente aos dez por cento, disse eu. Mas o coitado não tinha um tostão furado. Então, levou tamanha surra e gritava para parar. Vendemos suas vacas, separamos o dinheiro do imposto e após espancá-lo mais uma vez, pro forma, fomos embora. Agora, quando lá de longe ele me vê, ele se curva ao me cumprimentar. É assim que esses ignorantes devem ser tratados.

_ “E isso é compaixão”, disse Khatchô, com uma voz apenas audível.

_”O que quer dizer com compaixão”, respondeu o coletor com ar de desprezo. “O Governo é uma coisa, compaixão outra. O Sr, faz quarenta anos que é o chefe desta aldeia e até hoje não sabe o que é governar. Já lhe contei a estória dos burros de Nasretin Hodjá há pouco, mas vou lhe contar outra estória. Um Paxá foi nomeado governador de determinada região do Império. Ao assumir o cargo, mandou prender uma dúzia de pessoas a esmo, os botou no xilindró e mandou cortar a cabeça de alguns. Essas pessoas não tinham culpa de nada. Mas o Paxá queria, de início, assustar o povo. É isso que chamo “saber governar” . Deve-se sempre manter as pessoas apavoradas. Se eu não espancasse aquele camponês e não deixasse apodrecer o seu trigo, não seria mais respeitado por ninguém e não poderia mais exercer minha profissão como se deve.”

Tomás Efendi contava tudo isso com a maior naturalidade, tal qual o curdo quando se vangloria de suas rapinagens. Qual  a diferença entre esse Armênio e o Bei Fattah. O primeiro é pessoa asquerosa que quer enriquecer a qualquer custo de maneira ignóbil; o segundo, um valente e destemido bandido.

E queriam casar a pobre Lalai com um desses dois. Ninguém lhe perguntara de quem ela gostava.....