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CAPÍTULO XIV

 Tomás Efendi necessitava ficar mais alguns dias na fazenda de Khatchô para completar seus derradeiros afazeres.

Outro forasteiro costumava se hospedar no “odá”, pelo menos uma vez por ano. Moço, oriundo dos planaltos do Ararat, vinha para comprar, da fazenda do velho Khatchô, ovelhas, bois, lã, queijo e azeite. Levava o todo para vender em Alexandropol (hoje Gumri), ou em Yerevan. Ele próprio trazia, em contrapartida, uma porção de mercadorias como : bordados para enfeitar vestidos, fazendas, linho, forro, entretelas, chá, açúcar, café e várias miudezas. Para as aldeias situadas longe da cidade, como era a de O ......, esse tipo de mascate era valioso. Trazia aos camponeses tudo que precisavam, pois estes não tinham condição de buscar na cidade grande , ainda mais com o risco de assaltos que era enorme.

Todas as vezes que o moço aparecia, era acolhido com muito carinho, pois todos gostavam dele. Era tão querido que parecia fazer parte da família. Ao chegar à aldeia de O..... com seus três ou quatro burros de carga, ia diretamente até a fazenda do velho Khatcô, onde permanecia às vezes várias semanas, até vender tudo que trouxera e então voltava a sua casa.

No dia seguinte ao de Tomás Efendi, o moço apareceu e deu com o coletor de impostos.

_ "O Senhor aqui ?" exclamou, persignando-se sem parar. Conduziram-me ao Diabo em pessoa! Vou deixar de fazer bons negócios . Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

Tomás Efendi deu uma risada amarela, agarrou o braço do rapaz e fixando-o bem nos olhos, respondeu:

_ "Eu já disse que você era louco. E você é louco mesmo. Mas deixa isso para lá. Você trouxe o rum que eu gosto tanto? "

_"É veneno que eu trouxe para você, para deixar de molestar esses pobres camponeses", disse o moço dando gargalhadas.

Muitos serviçais e vizinhos da fazenda estavam ali para ajudar a descarregar a mercadoria empilhada nos burros. O Efendi considerou ser inconveniente ele continuar brincando desse modo com o moço na frente da população e logo tratou de afastar-se, alegando serviço urgente, mas sublinhou estar na hora da refeição.

_"É pecado mortal sentar à mesa com você", gracejou o moço.

_"O teu cérebro é igual ao rabo do burro, nem aumenta, nem diminui: se você levar um burro a Jerusalém, ele permanecerá burro, nunca se tornará um alazão, diz o ditado."

_ "Quando você começa a falar de burro, você está no seu elemento: não acaba mais", retrucou o moço.

O Efendi fez de conta não ter ouvido e se afastou.

Na fazenda, todo mundo já sabia que Vartan (era o nome do rapaz), chegara e desde os pequeninos até os mais velhos esperavam ansiosamente que lhes mostrasse as mercadorias trazidas. Todos haviam encomendado algo e quando Vartan colocou tudo no chão do “odá”, a tribo inteira do Khatchó estava lá. Gritos espocavam de todos os lados’: “Você trouxe os sapatos que encomendei?” “E o meu chapéu, você trouxe meu chapéu?” Em suma, todos falavam ao mesmo tempo enquanto as crianças puxavam-no pelas calças, pediam mil e uma coisas e não o deixavam em paz.

_"Trouxe, trouxe", respondia o rapaz,"trouxe tudo que vocês encomendaram."

_"Então, me dá! me dá!" gritavam as crianças.

_ "Seus capetas! Me deixam descansar um pouco. Daqui a pouco vou abrir todos os sacos e vou mostrar tudo o que trouxe."

_"Agora! agora!" berrava a molecada.

O pessoal da fazenda tinha tanta liberdade com Vartan, que sem ligar ao que dizia, atiravam-se sobre os enorme sacos. Quando desatando os nós, conseguiram abri-los, precipitaram-se procurando ansiosamente sua encomenda. “Que os curdos não vejam tudo isso, senão...”.

Só uma pessoa não participava do rebuliço, observando de longe, às vezes sorrindo. Era Stepanig ou melhor, Lalai.

O rapaz aproximou-se dela e disse:

_"Por quê não participa e pega alguma coisa para você?"

_ "O que quer que eu pegue?" respondeu a moça, corando.

_ "Depois vou te dar um presente, mas ninguém deve saber."

Laila sorriu novamente e afastou-se.

Vartan era moço de seus vinte e cinco anos, alto e corpulento. Seu rosto era burilado com traços pronunciados; porém não se poderia dizer bonito. Seus grandes olhos negros se pareciam ao de um bandido e  tinha sempre nos lábios carnudos um quase imperceptível sorriso irônico. Nos seus movimentos, denotava-se agilidade, destemor e  respeitável preparo físico. Do seu passado, de sua cidade natal, ninguém sabia nestas bandas. A maioria achava ser ele um espertalhão conhecedor de todas as malandragens da vida. De fato, num certo período, fora, num mosteiro, ser professor e tornara-se também sacristão. Mas ninguém sabia porquê deixara repentinamente o convento. Contavam-se, a boca pequena, histórias extravagantes que demonstravam o seu caráter genioso. Mas todos sabiam, com certeza, ser Vartan um grande contrabandista. Possuía as particularidades do ofício: audácia, esperteza e astúcia. Apesar de o  perigo ser seu companheiro permanente, conseguia sempre se safar de todas as situações com firmeza e bravura.

Não somente Tomás Efendi, mas a aldeia de O ...... e toda a redondeza tinham posto em Vartan o apelido de “o louco”. Mas por quê esse apelido? Vartan não era bobo. Tinha sólida instrução e era versado em um pouco de tudo.  Apesar de sua idade tinha boa experiência da vida, do ser humano e passara por muitas provações. Então, por quê “louco”? Simplesmente por ser autêntico. Não sabia disfarçar seus sentimentos. Dizia na cara aquilo que todo mundo comentava baixinho. Era de franqueza desconcertante, a ponto de contar suas próprias fraquezas e isso não se perdoa e é chamado de “loucura”. Em geral o ser humano, de um jeito por fora e completamente diferente por dentro, odeia a “verdade”.

Muitos antigos profetas e sábios foram também considerados loucos, assim como Nasrudin Hodjá, mas nestas loucuras havia sempre uma dose de sabedoria. Mas Vartan não era nem profeta, nem sábio; simplesmente sabia julgar as pessoas, procurava entendê-las e formar uma opinião a respeito delas. É justamente esse  comportamento que os ignorantes detestam.

Ao prometer a Lalai  lhe dar um presente mas “ninguém deverá saber disso”, Vartan desviou-se um pouco de seu comportamento normal, deixando de lado sua natural transparência. Parecia querer ocultar um sentimento intenso para com Lalai desejando uma oportunidade para ficar a sós com ela. E isso aconteceu sem ele ser o responsável.

Eu, como autor,  esqueci de descrever o pátio do velho Khatchó. Na verdade era mais um imenso jardim do que um pátio. A maior parte coberta de árvores e de arbustos. E eram plantados tão juntinhos que se fizessemos alguns passos adentro, ninguém nos enxergaria. Após colocar as mercadorias nos seus devidos lugares, Vartan isolou-se nesta pequena floresta. Na verdade estava sofrendo e seu coração disparava de tempo em tempo. É nesses momentos que as árvores, as flores, as folhas, com seus sussurros procuram consolar o coração do apaixonado, melhor do que poderiam fazer amigos sinceros. Deitado na grama à sombra das árvores, devaneava, olhando no céu a corrida das nuvens que se perseguiam, se alcançavam, se juntavam, amontoando-se umas nas outras e escureciam antecipando a tempestade, a mesma que reinava no coração de Vartan. Nesse instante, os seus sentimentos, feito nuvens, se misturavam, se cruzavam, se embaralhavam, formando aquilo que os psicólogos chamam de amor.

Fazia tempo que Vartan sabia ser Stepanig uma moça. Sabia também porque os pais da moça a trajavam e a criavam como menino. Esses fatos comoviam sobremaneira o moço que prometeu a si mesmo ajudar a pobre moça no que fosse de seu alcance. Mas pouco a pouco esse sentimento de piedade transformou-se em algo mais profundo, em amor. Porém até nesta data ninguém sabia de seus sentimentos; não tivera a oportunidade de se declarar abertamente à sua bem-amada. Stepanig fazia de tudo para ninguém descobrir seu disfarce, mas como convivia muito com Vartan, quando este estava de passagem, às vezes, inadvertidamente, deixava transparecer sua condição de mulher.

Vartan estava a remoer todos esses pensamentos quando ouviu passos e virando a cabeça viu Stepanig aproximar-se. Aquele moço tão corajoso, ficou de repente trêmulo e seu coração começou a bater forte. Stepanig deteve-se a alguns passos e com uma voz tímida, disse :

_ "A comida está na mesa. Meu pai mandou chamar você."

_ "Tomás Efendi também está aí?" perguntou o rapaz, levantando-se.

Stepanig , com uma careta de desgosto, respondeu :

_ "Que se dane Tomás Efendi!"

_ "O quê? você também não gosta dele?"

_" E quem gosta?"

Vartan achou ser o momento propício para entregar à moça o presente prometido. Portanto foi até o lugar onde tinha arrumado a mercadoria e voltou com um pacote embrulhado para presente.

_ "Meu pai está esperando", lembrou Stepanig.

_ "Não vamos demorar. Senta aqui, perto de mim. Vou dar para você aquilo que te prometi."

Stepanig, com um sorriso de alegria, sentou-se  e Vartan abriu o pacote. Era um pequeno cofre laqueado de preto com lindas gravuras. Vartan tirou do bolso uma chave e abriu o cofrinho. Todos os objetos que fazem parte de uma caixa de costura estavam ali: tesoura, dedal, agulhas para bordar, etc.... tudo em prata lavrada com lindos arabescos. Ao levantar a tampa aparecia um pequeno espelho e embaixo do cofrinho havia uma chavinha para dar corda e ouvia-se então uma música. Stepanig, maravilhada, olhava tudo aquilo com admiração, pois era a primeira vez na sua vida que via objetos tão bonitos.

_ "Gostou?" perguntou Vartan sorrindo e olhando bem nos olhos dela, "é para você".

Stepanig, tão entusiasmada no começo, de repente ficou triste e com uma voz embargada que disse:

_ "O quer você quer que eu faça com agulhas e dedal? É coisa de mulher. Eu precisava de outras coisas, coisas para homem. Eu não sou mulher, viu?"

Ao proferir essa frase, seus lábios tremiam e sua voz tornara-se chorosa.

Vartan não esperando que a moça pudesse disfarçar tão bem, ficou sem jeito, e sem pensar, obedecendo unicamente ao seu coração disse :

_ "Mas você é uma moça Lalai."

_ "Ah! Você sabe meu nome!"  e deixou-se cair no peito do rapaz.

O moço a abraçou ternamente e Lalai extremamente emocionada repetiu com voz lamuriante:

“É verdade, sou moça”.

Era a primeira vez que confessava isso para um rapaz. Um moço que ela amava,com amor escondido no fundo de seu coração.

Entretidos nessa linda cena de amor, os dois não perceberam, dentre a folhagem das árvores, dois olhos os observavam detidamente.

“Lalai conseguiu se livrar”, disse para si mesmo e se afastou.