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CAPÍTULO XV

 A mesa estava posta. O velho Khatchô, Tomás Efendi e seus dois guarda-costas, facínoras que cumpriam religiosamente as ordens do patrão, estavam esperando o Vartan. Os filhos de Khatchô não se atreviam a sentar com pessoas tão ilustres.

_"Logo, logo vai aparecer" disse Tomás Efendi, "é pena que ele late tanto, emporcalha até nossa comida."

_ "Oh! Ele dá às vezes umas respostas atravessadas, mas é um bom rapaz", disse o dono da casa.

_ "Eu também sei que ele tem bom coração, mas o que sai de sua boca é puro veneno. Não se deve brincar com qualquer pessoa. Você sabe que um piscar de olho meu faz tremer todas as pessoas ao meu redor. Ele precisa saber quem é Tomás Efendi. Eu já lhe mostrei o decreto que o Sultão me remeteu em mãos. Agora vou te dizer mais uma coisa: o Governador de Erzerum faz questão que eu sente ao seu lado todas as vezes que ele me vê; e se você não acredita, pergunte para eles. E ele apontou para os dois capangas.

Diz o provérbio : “Pediram o testemunho da raposa, e ela mostrou o rabo”. Os dois facínoras jurariam qualquer coisa para agradar ao patrão.

_ "Por que não vou acreditar no Sr?" perguntou o ancião.

Mas Tomás Efendi estava com raiva, não somente pela cena da manhã, mas também porque toda vez que Vartan o encontrava, conseguia com algumas gozações, ridicularizá-lo.

_ "Se eu quisesse", disse o coletor de impostos, sumamente zangado, "poderia mandar prendê-lo e aí ele veria quem é Tomás Efendi!"

_ "É jovem", disse o bondoso Khatchô. "Não pode se levar em consideração tudo o que ele diz. E, mais uma vez, posso lhe assegurar que ele não é tão ruim como o Sr. pensa."

Naquele mesmo instante Vartan apareceu, pálido, pensativo e alheio a tudo que estava em volta. Tomás Efendi que acabava de pichá-lo num acesso de raiva, voltou a ser o que era e começou a bajulá-lo.

_ "Ora, ora, ora! Até que enfim, chegou meu amigo! Como você demorou! Você sabe que não consigo comer sem você."

_ "Eu sei, eu sei", respondeu o rapaz e, cabisbaixo e pensativo, foi sentar no seu lugar.

Durante toda a refeição Vartan não abriu a boca. Parecia estar doente. Aquele sorriso e aquele ar sempre alegre tinham desaparecido como por encanto. O amor proporciona tantas felicidades para alguns, faz perder a cabeça para outros e faz papel de bálsamo paras as agruras da vida. Esse mesmo amor entristecera a alma de Vartan. Comeu muito pouco. Em compensação, bebeu muito; parecia querer apagar com vinho o fogo que consumia seu coração.    

Tomás Efendi, como de costume, tagarelava sem parar  e em tudo que dizia depreendia-se ser ele um homem notável. Por exemplo, o Patriarca Nercês o chamava de “filho”; não apreciava muito o Khrimian por dar trela aos carregadores de Much e Yerevan; Nubar Paxá o chamava de “meu ilustre amigo”; tinha um palacete às margens do Bósforo alugado ao Consul da Inglaterra; seus avôs tinham doado uma importância considerável à Catedral de Jerusalém e, por esse motivo , missa era celebrada todos os dias na Igreja de Santo Hagop pelas almas de toda sua família; aconteceu uma rusga entre ele e Odian, pois este último lhe oferecera a filha em casamento e  ele  recusara, etc..etc...

Porém Vartan estava completamente alheio e somente o velho Khatchô ouvia atentamente, maravilhado, as lorotas de Tomás Efendi.

Como minha filha vai ficar feliz quando casar com um homem desse que recusou a mão da filha de Odian e tem um palacete às margens do Bosforo!

A seguir, começou a falar de política. Era tempo de grandes distúrbios na Península dos Balcãs onde o povo levantara-se para conquistar a liberdade, livrando-se do jugo otomano. Mantinha-se uma conferência em Istambul sob a presidência do astuto diplomata Mithad para tentar resolver a situação. E Tomás Efendi, sentado à mesa de um camponês, discutia e dava opiniões definitivas sobre a situação dos Armênios no seio do Império Otomano.

Dissertando sobre a revolta dos Eslavos que tiveram a ousadia de se rebelar contra os Turcos, tão gentis e bondosos, Tomás Efendi enveredou seu discurso para a situação atual dos Armênios. Disse existir alguns compatriotas absolutamente idiotizados falando de “jugo otomano”, de liberdade, de independência. Acrescentou, se isso acontecesse, os armênios não teriam a capacidade de formar um governo.

Vartan não agüentou mais ouvir tantas sandices e disse :

_ São pessoas iguais a você que sugam o sangue dos armênios, aproveitando-se da desordem reinando atualmente no governo. Para vocês, coletores de imposto, isso é ótimo. Vocês gostam de pescar em águas turvas . Vocês não gostam do claro e transparente. Vocês gostam das trevas porque  larápios não gostam da luz.

_ Senhor, respondeu o fiscal, o Sr. não se esqueça estar aqui presentes dois soldados da Polícia Militar.

_ Você pode assustar os pobres camponeses com teus dois capangas, a mim não. Camponeses tão ignorantes que acreditam piamente que você tem palacete às margens do Bósforo, recusou a mão da filha de Odian, e na Igreja de Santo Hagop rezam todos os dias uma missa pela salvação se sua alma. Gente como vocês deveriam ser eliminados. Você é o digno representante dessa gentalha que faz de tudo para arruinar o pobre camponês. Vocês são iguais àqueles que vivem na Capital, na Sublime Porta, e enchem os bolsos, roubando as riquezas do Império.

Tomás Efendi, apesar de estar profundamente irritado, era do tipo de homem que grita, berra, e ameaça somente àqueles que curvam a cabeça. Mas conhecia sobremaneira o Vartan e sabia que com ele não ia levar vantagem. Em conseqüência, preferiu levar as palavras do moço na brincadeira:

_ "Estou vendo que você bebeu demais e está falando bobagens. Quando uma pessoa não sabe beber deve saber parar. É uma lástima!"

Vartan encarou o farsante com olhar de desprezo, e nada respondeu.

O ancião também nada falava. No fundo, sabia Vartan ter razão, mas, ao mesmo tempo, reprovava sua maneira de dirigir-se com tanta ousadia para um homem do Governo. Por isso, ficou muito contente quando levantaram da mesa, mas não esperava que algo pior acontecer.

Logo após a refeição serviram o cafezinho, sem açúcar, conforme o costume da terra. Tomás Efendi, durante todos esses anos fazia questão que, depois do café, o seu narguilé fosse preparado por Stepanig. Que sina estranha, a dessa moça! Fatah Bei, quando vinha, queria que somente Stepanig lhe servisse o café, pois o dela era :”muito melhor e muito mais gostoso”; e Tomás Efendi, seguindo a mesma linha exigia que fosse Stepanig a preparar o seu narguilé. Fatah Bei sabia ser Stepanig uma moça e a amava, Tomás Efendi também descobrira esse segredo e também a amava.