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CAPÍTULO XVI

Mas a era de felicidade parecia estar  terminando na fazenda do velho Khatchô. Nuvens negras se aproximavam de todos os lados e prenunciavam inúmeras ameaças.

O bate-boca entre Vartan e Tomás Efendí provocara certo mal-estar na família de Khatchô. Alguns deles elogiavam a diatribe de Vartan e caçoavam da atitude covarde do fiscal. Outros o condenavam dizendo ser louco e não saber segurar a língua. Sobretudo Ohán e Hagô estavam extremamente aborrecidos com as críticas de Vartan. Diziam :”Como é possível se comportar dessa maneira com um representante do governo.” Na opinião deles ninguém poderia denegrir desse modo um funcionário do governo.

O velho Khatchô também estava contrariado. Não condenava a atitude de Vartan, mas achava inoportuna sua explosão de cólera. Conhecia bem a alma negra do Efendí e sabia que faria de tudo para se vingar de Vartan. Se não conseguisse, a sua vindita iria recair sobre o velho Khatchô e sua família. Sabia que Tomás Efendí poderia acusá-lo e delatá-lo perante o Governo, alegando Khatchô receber em sua casa Vartan, o famoso contrabandista.

O ancião dizia adeus a todas as suas esperanças.  Seu desassossego começara a partir do momento quando soube ter Tomás Efendí se casado inúmeras vezes e ter esposas em várias cidades do país. Isso significava ter o casamento de Lalai com o fiscal ido água baixo. Como poder-se-ia provar que Vartan dizia a verdade?" Apesar de saber Vartan não ser mentiroso, sabia também que numa discussão acalorada, num momento de raiva, uma pessoa pode dizer qualquer coisa. Afinal por quê o velho Khatchô se interessava tanto por Tomás Efendí , um homem abjeto e sem vergonha, que proferia tantas mentiras? É por que quando se tratava de homem do governo, fosse ele simples subalterno, vereador ou deputado, o velho Khatchô esquecia todas essas ignominias e reverenciava essa pessoa : o cargo apagava todas as falcatruas. Seu desejo ardente era casar sua filha com pessoa importante diante da qual todo mundo se curvaria. O ancião, por mais simples e modesto fosse, possuía, assim como qualquer humano, uma ponta de vaidade : afinal era prefeito da aldeia e dono da maior fazenda da região. Não se conformava em casar sua filha com um qualquer, mormente levando em conta todo o cuidado que tivera para esconder o verdadeiro sexo da menina. Entretanto, sua preferência por Tomás Efendi tinha também outro motivo. Ele, como grande fazendeiro, estava sempre em contato com homens do governo ou com bancos governamentais; e, nesses casos, Tomás Efendi poderia ajudar muito. Agora tudo tinha desmoronara.

 Soubesse ele da história de Fattah Bei, que também  desejava Lalai, tornando-a uma de suas inúmeras concubinas, teria certamente um ataque do coração que o levaria ao cemitério. Seus filhos guardavam cuidadosamente esse segredo que corroia feito traça a mente deles; mormente Hairabed e Abo, os quais não tendo chegado a um acordo com os irmãos não sabiam o que fazer para salvar Lalai. Não podiam imaginar a irmã deles raptada pelo Bei e transformada em muçulmana; não queriam nada semelhante à tragédia da irmã mais velha acontecendo a Lalai. Lalai, livre dessas preocupações se sentia feliz como nunca. Depois de ganhar o lindo cofre das mãos do rapaz, o traje que vestia lhe queimava o corpo. Era moça e queria se vestir como tal: queria ser mulher. E quando presenciou a altercação entre Vartan e Tomás Effendi, uma pessoa temida por todos, culminando com a vitória esmagadora do primeiro, o prestígio de Vartan subira mais um degrau em seu conceito. A maioria das moças tem admiração especial por aqueles com aptidão que elas não possuem. Por isso Lalai apreciava a força e a grandeza de Vartan. Este último tornou-se herói aos olhos de Lalai a partir do momento que ele aniquilou seu adversário, o Tomás Efendi, que ela tanto odiava. Lalai agüentara muito as vilezas do fiscal e toda vez que aparecia, ela tratava de se esconder; mas logo o pai a chamava para preparar o famoso tchibuk.[1]

Lalai, ao se encontrar com seu irmão Hairabed contou o acontecido durante a refeição, destacando a atuação brilhante de Vartan perante o seu antipático contendor.

  "É preciso esmagar como um verme esse infame personagem que, acostumado a espezinhar os pobres camponeses, pensa poder agir assim com todo mundo", disse Hairabed.

Lalai aproveitando essa oportunidade quis contar ao seu irmão mais velho, o quanto ela amava Vartan. E não era de hoje. Outrossim, gostaria que ele tocasse nesse assunto com o pai. Mas Hairabed saiu antes que contasse a sua história, alegando afazeres muito importantes. Sua esposa Sara marcara encontro com Khurchite, a favorita do Bei. Na véspera, de manhã cedo, Tchavô aparecera e dissera ter vindo se encontrar com Sara naquele local, pretextando uma peregrinação para o lugar santo de O ..... a fim de cumprir promessa, pois seu filho estava tossindo sem parar,.

Hairabed, ao deixar Lalai saiu correndo ao encontro de sua esposa para saber o resultado da entrevista. Saiu da aldeia e parou no meio do caminho sentando ao lado de um grande rochedo, esperando impacientemente a volta de Sara que forçosamente iria passar por ali.

           Lindo cenário se descortinava diante de seus olhos. Estava sentado no pé da montanha e o solo, devido à erosão, estava coberto de seixos. A sua volta havia mato cerrado e, aqui e acolá, apareciam algumas árvores. Uma delas em particular, uma macieira, chamou-lhe a atenção. De fato, havia enrolado nela, uma planta parasita, espécie de cipó que partindo lá de baixo a envolvia lenta e inexoravelmente. Parecia querer estrangulá-la, secá-la e estava alcançando seu objetivo pois a parte superior da macieira já estava esquálida e sem folhagem.

Há momentos na vida que qualquer um de nós se torna filósofo: “Eis aí um belo exemplo, pensou Hairabed. Uma planta parasita que nem raízes tem, nada fez para crescer por si, se aproveitando de uma bela árvore, está se alimentando de graça, sem fazer nenhum esforço, sugando a sua seiva com avidez, deixando-a exaurida e seca.

Essa parasita não é o retrato do Turco e do Kurdo que nem pensam em trabalhar e se aproveitam dos pobres Armênios, sugando-os,  roubando-os, maltratando-os? Hairabed era homem sensível sem grande cultura. Como conseguira tão bem essa comparação? É verdade que se não tivesse viajado, ficando na fazenda, com certeza cresceria no seu microcosmo com seus preconceitos como seus vizinhos da aldeia. Com efeito, quando jovem, tivera uma séria desavença com seu pai e , como era praxe naquelas bandas, deixara a casa familiar e partira. Viajara assim por vários países. O destino o levara a Constantinopla, encruzilhada entre a Europa e a Ásia. Lá, apesar de não se fixar em nada concreto, adquirira vasta experiência que, com certeza, seus compatriotas não possuíam.

Hairabed, sentado debaixo das rochas, esperava sua esposa. O sol estava se pondo e seus últimos raios iluminavam lindamente os cimos das montanhas. E de repente despontou Sara. De longe Hairabed reparou no rosto jovial de sua mulher e sentiu que as novas eram boas.

¾ "Menino ou menina?" gritou Hairabed de longe.

¾ "Menino", respondeu Sara sorrindo e, após caminhar pouco mais, sentou-se ao lado do marido pois estava cansada.

Esta singela pergunta e sua resposta significavam estar tudo bem; para os camponeses a nascença de menino era alegria, a de menina, tristeza.

Sará enxugou o suor do rosto, tomou fôlego e começou a contar o acontecido na entrevista com a mulher curda. Eis o resumo dessa narração:

Khurchit dissera que no momento o Bei não pensava muito em Stepanig, tinha outras preocupações. Recebera instruções do governador de Erzerum e começara os preparativos. Tinha distribuído armas para todos seus homens e também dinheiro para comprar cavalos, roupas e todo o necessário. Mas a que propósito se destinava tudo isso? Khurchit não sabia. Porém aconselhara fortemente levar Stepanig longe daqui ou casar logo, pois tinha certeza que mais cedo ou mais tarde o Bei voltaria à carga : “Apesar de ter contado tudo isso ao meu pai", acrescentara ela, "apesar de ele ter prometido pôr um freio a sua cobiça, sei que o Bei não respeitará a sua palavra e procurará Stepanig para se casar com ela e me abandonar.”

Hairabed escutava com muita atenção o término da narrativa . Ponderou:

"Não podemos considerar que não haja mais perigo. Nisso tudo há somente uma coisa de boa; temos um pouco de tempo pela frente  e podemos pensar na maneira de salvar Lalai."

  "Eu também penso assim", respondeu Sara.

"Então, o que vamos fazer?"

"Vamos casar Lalai!"

  "Isso não vai a salvar de todo. O Bei é capaz de raptá-la assim mesmo."

  "Precisamos casá-la com alguém que a leve daqui para um outro país", disse Sara.

  "É uma ótima idéia, mas onde vamos achar alguém assim? Não vejo ninguém na nossa aldeia que possa casar com Lalai; pois teria medo. Se o Bei soubesse da fuga para outro país, mataria toda a sua família pondo fogo a sua casa."

  "Eu conheço alguém", disse Sara sorrindo.

  "Quem?"

  "Vartan!"

O rosto tristonho de Hairabed mudou. Um largo sorriso apareceu em sua face. E Sara lhe contou como surpreendera os dois no jardim, à sombra das árvores, abraçando-se,  beijando-se, trocando juras de amor.

“Formidável”, disse Hairabed, “somente ele é capaz de salvar  Lalai.”

A noite chegara. Os dois, marido e mulher, levantaram-se e apressaram-se em voltar para casa. Durante o trajeto, Hairabed tentava entender o porquê da distribuição de armas e de dinheiro pelo Bei, e qual seria o motivo dessa movimentação toda.

Seria prenúncio de algo terrível?


[1] Cachimbo cujo tubo é comprido, comum na Turquia.