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CAPÍTULO XVIII

 A luz do lampião irradiava luz difusa no “odá”. Vartan permaneceu acordado por longo tempo, perturbado com a conversa da véspera. Recordava a maneira fria como os filhos de Khatchô tinham reagido diante do discurso do forasteiro. Não entendia como desconfiar de um moço tão gentil e tão espirituoso. Ao mesmo tempo, sentia grande compaixão para com duas pessoas, para ele semelhantes na maneira de ser: o velho Khatchô, oprimido por ser fazendeiro e a linda Lalai por ser mulher.

Ao voltar a cabeça, notou seu companheiro dormindo. Na penumbra, distinguia seu rosto lívido, burilado pelo cansaço, mas  denotando uma determinação férrea, Tinha sono agitado. De tempo em tempo, seus lábios se moviam e ouviam-se palavras desconexas ,ora em francês, ora em armênio: “Camponeses....chegou a hora....a liberdade....devem conquistá-la.... com seu sangue....o presente....o futuro....a nós pertence....mostre.... meus bravos....que a espada....do turco....não conseguiu acabar....com vocês....e nem com o amor pela liberdade....Para frente....meus bravos”.

─“Coitado", pensou Vartan balançando a cabeça, "deve ter lido muitos livros e sonha estar nas barricadas de Paris.” Naquele momento, como se fosse bem de longe, ouviu uma canção suave e melodiosa. De pronto reconheceu a linda voz e saiu do “odá”.

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Havia uma segunda pessoa que não conseguira dormir no casarão do velho Khatchô. Virava-se na cama, para um lado e para outro na imensa sala onde todos dormiam juntos, homens e mulheres mergulhados num sono profundo. Era o resultado do cansaço provocado pelo trabalho intenso na roça.

Somente Lalai não conseguira dormir. Resolveu, então, levantar-se. Vestiu-se e saiu da sala sem fazer barulho. Nem um gato teria conseguido pisar tão levemente, a ponto de atravessar o extenso sala-dormitório sem acordar ninguém. O cachorro, vendo ela adentrar o pátio, começou a latir. “Quieto!” sussurrou Lalai e o cão obedeceu imediatamente. Era uma noite agradável de primavera. Brisa fresca soprava, revigorando e refrescando o corpo febril da moça. Atravessou o pátio e entrou no jardim. Sentou-se na grama, embaixo das árvores, na parte mais escura. Ali ninguém poderia vê-la. Apoiando o queixo na mão, examinou o céu: ”Não se vê a lua. Onde será que ela está? Talvez dormindo, pensou ela”. Ao seu redor, o silêncio reinava, as folhas das árvores absolutamente imóveis. Tudo estava parado: o vento que costumava agitar as folhas e os ramos das árvores, o murmúrio das águas do riacho que se ouvia normalmente na calada da noite. Tudo estava em paz. Somente ela perturbada e sem sono.

Lembrou de uma canção que sua avó lhe ensinara, e de repente, espontaneamente, começou a cantarolar baixinho:

    “A lua está dormindo nas profundezas do céu,

     O pássaro está dormindo no seu ninho fofo,

      O vento está dormindo, as folhas não se movem,

      O riacho está dormindo, não está murmurando.

 

      Mãe! Por que não consigo dormir?

      Quero dormir, mas meus olhos não se fecham,

      Mãe! O que está me atormentando assim?

      Que é que incendeia o meu coração?

 

Ao fim da canção, baixou a cabeça e segurando o rosto ardente com as mãos se pôs a chorar. As lágrimas brotavam mais e mais de seus lindos olhos. Por que estava chorando? Ela desconhecia esse sentimento inexplicável torturando o seu coração de donzela. O choro lhe fez bem. Levantou a cabeça e olhou ao seu redor até seus olhos se fixarem sobre num túmulo, não longe dali. Era o túmulo de sua irmã Soná que não conhecera, mas cuja triste história ouvira centenas de vezes. O povo a considerava como mártir e muitos doentes iam visitá-la pedindo sua graça. A pedido do velho Khatchó, todos os domingos, acendia-se uma lamparina. Nesta noite ela cintilava e iluminava a superfície do jazigo revestido de cal. Lalai fixava aquilo com pavor. A dolorosa história de sua irmã provocava na sua mente transtornada uma impressão de terror. Imaginava ver uma tenda preta na base da montanha. No interior, Soná estava sentada. Seu rosto refletia o desespero. Segurava na mão o copo contendo o veneno aproximava-o por um instante de seus lábios e em seguida o afastava. A Morte e a Vida brigavam ferozmente. Aí, apareceu o curdo, aquele que a tinha raptado. Ao vê-lo aproximar-se, levantou o copo e ingeriu o veneno mortal.

E, de repente, tudo desaparece. Lalai tornou a ver o alvacento túmulo de sua irmã Soná.

A seguir surgiram as imagens de duas pessoas distintas: Tomás Efendi, com seu ar asqueroso e cara de falso e o Bei Fattah com aspecto feroz e selvagem. Sentiu, então o corpo tremer. Estaria ela pevendo a infelicidade que lhe trariam esses tristes personagens? Claro que não! Mas sentia algo atroz que a gelava.

─“Não!” gritou ela.“Não quero que me levem na cova junto à minha irmã, eu tenho medo!”

Uma mão acariciante posou no seu ombro e o seu nome ecoou na noite:

 ─ “Lalai”....

Ela nada ouviu.

 ─“Lalai”, repetiu a voz,”não deixarei que levem você junto a Soná, eu vou te proteger”.

Ela se voltou e percebeu ser Vartan que estava falando.

─ “Por favor”, murmurou ela ainda perturbada,”me leve daqui, para bem longe. Aqui é ruim, muito ruim.”

O moço sentou-se ao seu lado. Por um momento, ficaram em silêncio. Não sabiam o que dizer. A moça estava ainda sob o choque da cena do rapto que tinha se desenhado na sua mente, enquanto Vartan se perguntava qual poderia ser a causa de Lalai querer fugir e afastar-se ao máximo da sua terra natal, da sua casa onde era tão querida. Será que o amava tanto assim? Seria mesmo por amor? Não podia ser. O amor para ela devia ser ainda algo indefinido. Por isso perguntou:

─ “Por que você diz que aqui é ruim?”

─ “É ruim, muito ruim!” respondeu a moça; e mostrando o túmulo disse com uma voz lastimosa: “Está vendo aquele túmulo? você sabe quem está alí?”

─ “Sei.”

               ─ “Sabe como morreu?”

               ─ “Sei.”

─“Não quero morrer como ela! Tenho medo de veneno, tenho pavor de túmulo.

E ela se pôs a chorar novamente.

─”Por que você pensa que terá o mesmo destino de Soná?” perguntou o jovem pegando na mão da moça.” Foi algo terrível que não acontece com todas as moças. Por que irá acontecer justo com você?”

  ─“Desde o dia que comecei a entender porque me vestiam com roupas de menino, penso só nisso. Aqui, nascer menina é castigo de Deus, mormente se for bonita. Escuta Vartan: conheci uma moça da qual eu gostava muito. Era nossa vizinha e muito boazinha. A mãe dela lhe dava uma surra todos os dias gritando:”Por que você nasceu tão bonita? Você vai atrair mil e uma desgraças para nossa família.” Minha amiga, Narkis (era o nome dela), chorava muito. A mãe não deixava Narkis lavar o rosto, pentear o cabelo e a vestia de farrapos. Um dia os curdos vieram e levaram Narkis. Alguns dias atrás cruzei com ela. Como ficou feia! Ela me disse :"Stepanig, como é horrível ser mulher de curdo, e chorava sem parar."

Lalai também se pôs a chorar. Conseguindo se dominar, disse com voz trêmula:

─ “Vartan! Você vai me tirar daqui, não vai?”

─“Claro! Você pode estar certa disso.”

─“Então vamos embora já! Onde você for, irei junto.”

─“Temos que esperar alguns dias. Preciso falar com teu pai.”

Os dois continuaram a conversar noite adentro, até que a onda de tristeza que apertava o coração de Lalai paulatinamente se transformou em ondas de amor.