ARMÊNIA-BRASIL

Home

Minha História

Alfabeto

Cultura

Contos Épicos

David de Sassun

Dicionário
Armênio-Português

Dicionário
Português-Armênio

Genocídio

História

Khent

Links

Mapa

Publicações

A IGREJA DOS INOCENTES

 

Tamerlão, o conquistador manco, tornou-se o dono da metade do mundo. Sua sede de poder e glória era infinita. Nada parava o avanço das suas hordas. Após sua passagem sobravam somente ruínas e desolação.

Ao chegar na Armênia, Tamerlão e seu bando a invadiram e a conquistaram num piscar de olho. Para não perder o costume massacraram uma boa parte da população. Quanto àqueles que poderiam ser de alguma utilidade, levaram-nos a força, acorrentados.

Tamerlão estava satisfeito. Mais um país conquistado! “E vamos em frente para mais vitórias” dizia ele.

Mas até os conquistadores precisam de repouso. Mandou os soldados acamparem às margens do lago Sevan.

Não longe dali, numa igreja de paredes cinzentas, um velho monge, o padre Ohân, rezava ajoelhado, horrorizado pela crueldade dos homens para com outros homens. Sua alma inocente revoltava-se contra a sorte reservada para seu país e para seus conterrâneos.

Perturbado na sua meditação pelo alarido dos conquistadores, arriscou uma olhadela para fora. A vizinhança dos algozes de seu povo num primeiro instante o transtornou e depois tornou-se insuportável. Saiu da igreja e dirigiu-se para o lago. Foi aí que o milagre aconteceu. Ereto, o tanto quanto a idade permitia, as cãs e a barba ao vento, começou a andar na superfície do lago, com as costas voltadas aos vizinhos indesejáveis.

Tamerlão, testemunho da cena, não acreditava no que estava vendo.

_ “Não é possível, devo estar sonhando”.

Mas seus tenentes afirmaram ter visto a mesma coisa. Era impossível todos estarem enxergando igual.

Levado por um sentimento inexplicável, Tamerlão gritou:

_ “Volte, ancião! Volte, homem de Deus!”.

O padre Ohân ouviu a chamada. Calmamente deu meia-volta e andando sempre nas ondas, parou diante do conquistador manco.

_ “Diga-me o que você mais deseja. Qualquer coisa, santo homem!” disse Tamerlão. “Você quer ouro, riquezas, uma vida faustuosa? Fala! Te darei o que está me pedindo.”

_ “Não preciso nem de ouro nem de riquezas. Conceda-me a liberdade do meu povo. Deixa-os irem para onde bem entenderem! Que vivam como homens livres neste vasto mundo! Será que não há bastante espaço na terra para que os homens possam viver em paz?”

_ “Então você quer a liberdade do seu povo? Muito bem! Que seja! Concedo a liberdade para todos aqueles que puderem entrar na igreja até que ela fique lotada. E agora, vai! E reze por mim!”

Assim falou Tamerlão e ordenou que parte dos prisioneiros fosse levada à igreja.

Estes, em fila, entraram na igreja um após outro. Entraram cem, duzentos, mil, dois mil. E parecia que a igreja poderia conter mais gente ainda.

Tamerlão, boquiaberto, não entendia nada , mas ordenou:

_ “Tragam mais!”

Mais um grande número entrou: centenas, milhares, até não sobrar mais ninguém.

Tamerlão, pasmo, andava de um lado para outro.

_ “Vão rápido ver o que está acontecendo. Que milagre é esse?” gritou ele.

Logo os generais do feroz conquistador penetraram na igreja e se depararam com o padre Ohân, ajoelhado diante do altar, a barba branca banhada de lágrimas. Aparentava ser um homem feliz. Deus tinha atendido suas preces. Os prisioneiros que tinham entrado na igreja tinham se transformado em pombas brancas e voado através dos vitrais quebrados, livres e felizes, na direção de suas montanhas natais.

Na igreja, onde jorrava a luz, restava somente o santo homem ajoelhado diante do altar.

 

Voltar