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A EXTRAORDINÁRIA HISTÓRIA DE MEU POVO

 

 “ ... O mundo inteiro falava a mesma língua, usava as mesmas palavras...

    E disseram uns aos outros, vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo cimo chegue até o céu.
“Então o Senhor Todo-Poderoso disse: vamos descer ali e confundir a língua deles  de modo que um não entenda a língua do outro. E o Senhor os dispersou daí para toda a superfície da Terra...” 
Gênesis XI-1-9.

     Haik tomou a direção do Ocidente em companhia de sua tribo, nos idos de 2350 A.C.. e fincou na Macedônia os alicerces de um povo que possuía seu próprio idioma e seus próprios costumes. A seguir, obedecendo a tradições ancestrais, esse povo atravessou o Bósforo em torno de 1250 A.C. e, quando chegaram ao pé do Monte Ararat, a montanha sagrada, longe das artérias de comunicações, diante destes  planaltos alterosos, cercado de cimos inacessíveis, formando uma verdadeira cidadela, os descendentes de Haik acharam que a região combinava muito bem com o temperamento de sua raça e permaneceram ali para sempre.

     O povo de Haik, o povo haigagán, fundou ali, seis séculos antes de Cristo, um Estado que se intitulou Haiasdán e cujos cidadãos eram chamados de Hai, nome que conservaram até hoje. O último dos quatro filhos de Haik chamava-se Armenag e sobressaíra-se como herói nacional. Em conseqüência, os outros povos começaram a chamar os Hai de “Armênio e seu país de Armênia “.

     O destino colocara o povo armênio numa parte da Ásia Menor que, apesar de ser de acesso difícil, tornar-se-ia para infelicidade sua, a mais importante posição estratégica e a terra cobiçada por todos os conquistadores.

     Primeiro foram os Persas, depois os Gregos com Alexandre o Grande. Porém, os Armênios souberam aproveitar-se do domínio persa, desenvolvendo-se, sem todavia deixar-se absorver ; e a epopéia de Alexandre proporcionou-lhes uma aproximação com a cultura helênica que encontrou ali um terreno fértil e da qual tornaram-se ardentes defensores.

     A seguir, a Armênia conheceu por sua vez seu período de glória, chegando a dominar todo o Oriente Médio, do mar Cáspio até o Mediterrâneo, do Alto Planalto Armênio até a Palestina. Foi o reino de Dikran o Grande, o Rei dos Reis que, oitenta anos antes de Cristo  “ asseguraria para sempre a existência da Armênia, ao optar definitivamente pelo Ocidente. “

`    Dois apóstolos de Cristo, Tadeu e Bartolomeu vieram pregar o Evangelho nos países do Ararat. Depois deles, um monge Armênio, Gregório, prosseguiu a evangelização do país. O rei Drtad III, sensibilizado pela fé do pregador se converteu e apoiou Gregório na conversão do país inteiro. Destarte, a Armênia foi a primeira nação a reconhecer e a adotar o Cristianismo no ano 301, antes de Roma e de Bizâncio. Este evento memorável levaria os Armênios a enveredar por um caminho no qual permaneceriam sempre fiéis, apesar das inumeráveis e inomináveis desgraças que se abateriam nas suas cabeças.

     Drtad ajudou Gregório a erigir a primeira catedral da cristandade e a construir a cidade de ETCHMIADZIN , perto de Erevan , capital da Armênia e que se tornou e permaneceu a cidade santa dos Armênios, sede de uma seqüência de Catolicós, isto é, Patriarca Supremo, que se sucederam sem descontinuidade até hoje, a frente desta primeira Igreja fundada pelos apóstolos.

     Espalharam-se inúmeras igrejas e mosteiros pelo país todo. Os construtores armênios criaram com técnicas e formas diferentes, uma arquitetura original que serviu de modelo à arte bizantina, como o prova a construção de Santa Sofia. A partir de Constantinopla, a sua influência atingiu a Grécia, os Bálcãs, a Itália e subiu do sul da França pelos vales do Ródano e do Reno. “A Armênia foi para a arquitetura do mundo cristão o que a Grécia fora para a arquitetura do mundo antigo“.

     Após terem se apoderado da Palestina, do Egito e da Síria e ter vencido o Irã, os conquistadores árabes tentaram invadir a Armênia. Ficaram surpresos ao encontrar um povo orgulhoso, extremamente patriota, dono de uma cultura avançada, evoluído nas artes, de elevado caráter mora e fisicamente forte, que lhes opôs uma resistência indomável. Foram obrigados a negociar e a reconhecer a autonomia dos feudos armênios. A dominação começada em 645 durou dois séculos sem que os Árabes conseguissem subjugá-los.

     Herdeiro de uma das mais antigas família da Armênia, os Bagraditas, e unificador dos feudos armênios, Achot foi proclamado Reis dos Reis, reconquistando a independência de seu país. Ele e seus sucessores esforçaram-se sobretudo em desenvolver a cultura e em construir uma nova capital, a admirável cidade de Ani, a Cidade das Quarenta Portas e das Mil e uma Igrejas. A catedral já prenunciava, em 989, a passagem da arte românica para a arte gótica e o esplêndido florescer dos monumentos revelava um alto nível de civilização, tal “um portal do mundo ocidental em face da Ásia “.

     Porém, o céu carregava-se de nuvens terríveis vindas do leste. Povos sanguinários e cruéis, turcos Seldjúcidas e mais tarde turcos Otomanos, irromperam no Oriente médio, em hordas sucessivas, sem parar. Golpearam fundo a cultura do Irã, dos Árabes, de Bizâncio, dos Bálcãs assim como da Armênia, cobrindo-os com uma mortalha de aridez e de luto. Seus instintos eram desumanos e os horrores que cometeram nem podiam ser comparadas ás crueldades praticadas pelos Árabes.

     Após esta invasão sangrenta, sobreviventes Armênios que não quiseram abandonar a terra de seus antepassados, aceitaram a escravatura para poderem permanecer no país, refreando a vergonha, sem porém renunciar à sua fé e às suas tradições. Outros continuaram resistindo, lutando com denodo e por fim refugiaram-se, com seus Senhores, nas montanhas do Tauro. Aproveitando-se dos problemas que afligiam também o Império Bizantino, criaram nas suas fronteiras, na Cilícia, pequenos principados armênios. Escolheram um chefe digno e capaz, o príncipe Rupen, da família dos Bagraditas ; logo declararam a própria independência, criando o Reino da Nova Armênia que passou a ocupar a totalidade da Cilícia, com sua orla mediterrânea. Assim, dezesseis anos apenas depois da queda de Ani, Um novo Estado Armênio manteria a continuidade, até o início dos tempos modernos.

     “ Quando os Cruzados da primeira Cruzada chegaram aos desfiladeiros do Tauro, exauridos e extenuados, os Armênios receberam esses cristãos vindo de tão longe, como irmãos. Orientaram-nos, deram-lhes mantimentos e os ajudaram na conquista de Antioquia e de Jerusalém. “ Príncipes Armênios casaram-se com Francesas e vice-versa : quase todas as rainhas do Reino latino de Jerusalém foram Armênias. O rei da Armênia , Leão I , desposara a filha de Amaury de Lusignan e de Isabeau de Plantagenet. Eles só tiveram ma filha . Isabelle. Foi assim que a coroa da Armênia transferiu-se para a família Lusignan da nobreza francesa de Auvergne.

     Entretanto os Armênios eram numerosos e freqüentemente majoritários, na Cicília, no leste da Anatólia e principalmente nos países do Ararat. Até o século XX, apesar da servidão imposta pelo poder islâmico do Império Otomano, que tratava os cristãos como cativos, estes conseguiram manter mediante uma tenacidade e um comportamento às vezes heróico, antigos privilégios e até parcelas de autonomia, e considerarão esses países como sua pátria. Espalhados à mercê dos acontecimentos, implantaram em todos os países da costa do Mediterrâneo, inúmeras comunidades nas quais eram considerados como protegidos da França.

     Em função das relações mantidas com Bizâncio, os Armênios cederam não somente soldados, oficiais e generais, mas também durante três séculos, uns vinte imperadores e imperatrizes ! Tornando-se súditos de um Império onde havia numerosas e diferentes nacionalidades, mostraram-se realistas, admitindo a idéia de uma Armênia englobada neste imenso Estado do qual consideravam-se legítimos cidadãos. A tal ponto que os Turcos lhes outorgaram a denominação de “ nação fiel “. Incansáveis trabalhadores, impulsionando a vida econômica, eram donos de quase todo o artesanato, das fábricas, do comércio. Proveram o Palácio Imperial de funcionários, médicos e arquitetos. Tiveram também no governo, diplomatas, embaixadores, governadores, ministros. Tradicionalmente versados em artes, construíram magníficos palácios e até criaram o Teatro Turco ! Porém não conseguiram se acostumar àquela desigualdade com que todo muçulmano podia impunemente submeter qualquer cristão à servidão, às extorsões e constantes violências. E quando tudo isso chegou a um ponto insuportável, voltaram-se com toda naturalidade para os países da Europa. Estes últimos começaram a preocupar-se com aquilo que se chamaria a “Questão Armênia” e exigiram do poder otomano a promessa de reformas.

     Em resposta, o sultão Abdul Hamid lançou seu exército, ladeado por uma turba ignorante e fanática numa abominável campanha de matança. Várias centenas de milhares de Armênios, absolutamente inocentes, foram horrivelmente massacrados durante meses, principalmente na semana do Natal de 1895.

     Impulsionado por intelectuais turcos refugiados em Paris e contando com a simpatia da França, o governo de Abdul Hamid foi derrubado. Os dirigentes Armênios apoiaram com todas as suas forças o novo governo. Parecia ter chegado a aurora da liberdade, a nova era da reconciliação das nacionalidades, das religiões, das raças, mas durou pouco... Um novo grupo, traindo os ideais dos primeiros, impingiu a turquificação forçada de todos os muçulmanos do Império e a liquidação pura e simples dos cristãos.

     A entrada na guerra ao lado dos Alemães, em 1914, proporcionou aos líderes desta política, a oportunidade de terminar de uma vez por todas com a Questão Armênia, pela eliminação total dos Armênios. “ Apresentava-se uma oportunidade única para fazer desaparecer do Império Otomano uma incômoda raça cristã “. A nação Armênia ia ser aniquilida, seu patrimônio, seus tesouros artísticos, destroçados. Crime excepcional pela sua amplitude, crime impune até hoje, crime tão grande que é impossível entendê-lo a primeira vista. “ O primeiro povo cristão fez uma “via-crúcis” apenas comparável com a do fundador do cristianismo “.

    Um grande lençol iria cobrir todas as províncias de um país que se chamava Armênia, hoje desertas, abandonadas, de acesso difícil e absolutamente inseguras para o forasteiro indesejável. Porém, ninguém poder se esquecer de tantas aldeias com nomes adulterados, etimologias deturpadas, templos violados, cemitérios aviltados e mosteiros convertidos em penitenciários, pois permanecem ainda ai. 

Fonte : Jacques de Morgan ( Histoire du peuple Arménien )
            H.
Pastermadjian  ( Histoire de l’Arménie )
          
René Grousset (Histoire de l’Arménie )

 

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