ARMÊNIA-BRASIL

Home

Minha História

Alfabeto

Cultura

Contos Épicos

David de Sassun

Dicionário
Armênio-Português

Dicionário
Português-Armênio

Genocídio

História

Khent

Links

Mapa

Publicações

UM ARMÊNIO NO BANCO DOS RÉUS

Em Fevereiro de 1980 um acontecimento que diz respeito a nós, Armênios, saiu nos jornais da Suíça e da França. Um certo Max Hrair Kilindjian, de nacionalidade francesa, acabara de ser preso na França dois dias após o atentado contra o embaixador da Turquia em Berna (Suíça), ocorrido no dia 6 de Fevereiro de 1980.

O processo vai do dia 22 a 23 de Janeiro de 1982, na Cour d’Assise d’Aix-em-Provence, que seria mais ou menos o nosso Tribunal do Júri.

Vou citar a seguir alguns trechos do processo que foram taquigrafados e transcrevo-os no mesmo linguajar dos tribunais a fim de preservar, na medida do possível, a autenticidade do diálogo.

  O JUIZ: Kilindjian! O Sr.  nasceu em Marselha, tem 38 anos, é solteiro, de nacionalidade francesa. Seus pais chegaram à França em 1921 vindo da Turquia e tiveram 3 filhos. O Sr.  trabalha como empregado no armazém de secos e molhados do seu irmão Serge.

O Sr.  é acusado de ter atirado várias vezes na direção de um automóvel, que estava estacionado nas imediações da embaixada da Grã-Bretanha no dia 6 de Fevereiro, às 11 horas e 5 minutos em Berna. No interior do veículo estava o embaixador da Turquia, Türkmen Dogan. Um dos tiros passou de raspão pela sobrancelha direita da vítima e dois outros perfuraram o colarinho e a manga, sem todavia atingi-lo. Entretanto, o Sr.  se diz inocente, apesar de estar em Berna e nas imediações do local onde foi visto atirando, nessa data.

Após ter ouvido várias testemunhas, chega a vez do Sr.  Henri Noguère, advogado, chamado a depor pelos advogados da defesa.

O JUIZ: Nome, sobrenome, idade e profissão, por favor.

Dr. Noguère: Henri Noguère, 65 anos, advogado do Fórum de Paris.

O JUIZ: Conhece o acusado?

Dr. Noguère: Não.

 (a testemunha presta juramento).

O JUIZ: Pode depor, por favor.

Dr.Leclerc (advogado da defesa): O Dr. Noguère está aqui presente na qualidade de Presidente da Liga dos Direitos Humanos.

Dr. Noguère: De fato, sou o nono Presidente da Liga dos Direitos Humanos, desde 1975, e um dos meus primeiros atos foi apoiar as manifestações que celebravam o sexagésimo aniversário do Genocídio dos Armênios, perpetrado pelos Turcos. Manifestações essas, ocorridas em Paris naquela época,

Acontece que sou também historiador, e por uma espécie de deformação profissional, ao assumir em 1975 minhas funções, estudei o dossiê armênio da Liga dos Direitos Humanos que, por sorte, escapara à destruição durante a ocupação da França pelos Alemães. Constatei que desde o começo a Liga, fundada em 1.898, interessou-se ao que foi chamado de “A Questão Armênia”. Primeiro foi a solidariedade manifestada para com os Armênios após os massacre de 1.895; porém, logo em seguida, os dirigentes da Liga com seu fundador Ludovic Trarieux e seu Primeiro Secretário, multiplicaram as petições junto ao Governo Turco. A partir de 1915, quando aconteceu o verdadeiro Genocídio, a “Questão Armênia” tornou-se de fato um dos problemas cruciais da Liga.

Em 1917, em plena guerra, o Congresso da Liga dos Direitos Humanos se interessou sobremaneira pelos problemas dos Armênios e a seguir, nunca mais deixamos de nos preocupar com eles.

Mais recentemente, em 1973-1974, quando foi apresentado nas Nações Unidas o problema do reconhecimento histórico dos acontecimentos ocorridos na Turquia e na Armênia em 1915, a Liga dos Direitos Humanos estava querendo, por uma questão de justiça, reconhecer esta realidade histórica. Fomos absolutamente contra a posição do governo francês que acedeu ao pedido dos Turcos que queriam e conseguiram suprimir o parágrafo 30 da declaração da O.N.U.

Antes de continuar transcrevendo o depoimento do Dr.Henri Noguère, quero explicar aos que não sabem, em que consiste este parágrafo 30.

Em 1971, a Comissão dos Direitos Humanos das nações Unidas, nomeou um perito para redigir um relatório sobre a prevenção e a repressão ao crime de Genocídio. O relatório deveria ser analisado por uma subcomissão denominada: “Subcomissão da luta contra as medidas discriminatórias e a favor da proteção das minorias”. Um primeiro relatório apresentado pelo Sr.  Ruashyankiko (Ruanda), relator geral, foi publicado e aprovado.

O parágrafo 30 estipula:”Chegando à época contemporânea, podemos lembrar da existência de uma documentação bastante volumosa que se refere ao massacre dos Armênios, considerado hoje em dia como o primeiro Genocídio do século XX”.

Em Março de 1974, o relatório é submetido à apreciação da Comissão dos Direitos Humanos. O representante da Turquia (Sr. Oclay), primeiro sozinho, a seguir aprovado pela maioria dos representantes, pede a supressão do parágrafo 30 e exige a devolução do relatório para a subcomissão. Em Setembro de 1978, o documento final é apresentado à subcomissão: o parágrafo 30 havia desaparecido!

Por coincidência, a Turquia fazia parte da subcomissão e o relator-geral declara que não existe nenhuma prova do genocídio dos Armênios. Apesar da intervenção dos representantes da Liga Internacional dos Direitos Humanos e da Minority Right Group, não se fala mais do parágrafo 30. O relatório volta novamente em 1979 para ser apreciado pela Comissão dos Direitos Humanos. Não há menção do Genocídio armênio, graças a uma dupla intervenção da Turquia: primeiro em 1974 perante a Comissão, depois em 1978 perante a Subcomissão.

Em Março de 1979, o Sr. Felix Ermacora, representante da Áustria, abre os debates estranhando a supressão do parágrafo 30: "Não quero de maneira nenhuma expressar qualquer animosidade contra a Turquia. Mas quero declarar aqui minha simpatia para com um fato histórico no qual o governo atual da Turquia não teve nenhuma participação. É um fato muito significativo , pois pela primeira vez na História, encontramos um Parlamento independente, isto é, o Parlamento Turco de 1919 a 1920 , por em discussão um crime tão hediondo contra a humanidade. Sei que hoje, com a visão que os senhores têm da responsabilidade do Estado, não poderão compreender este fato histórico. Pois, realmente foi um holocausto e como representante de um governo e como jurista que sou, não entendo que um fato histórico de tamanha importância possa ser simplesmente esquecido. Por fim os representantes de Chipre, Estados Unidos, Austrália, França e URSS apoiaram o nosso parecer, isto é da Áustria.” Após a votação, ficou patente que a Comissão desejava que o parágrafo 30 constasse na versão definitiva do estudo do relator principal, Sr. Ruhashyankiko”.

Em 1982, a versão definitiva do relator principal ainda não tinha sido publicada!

Volto a transcrever o processo .

Dr. Noguère: A seguir, durante vários anos, a liga dos Direitos Humanos manifestou também a sua reprovação diante das manifestações fomentadas pelos representantes diplomáticos da Turquia na França, ao querer impedir de qualquer jeito a homenagem da comunidade Armênia da França às vítimas do genocídio  de 1915. E os exemplos não faltam: numa das nossas cidades, Viena, pude constatar que o prefeito tinha sido pressionado ao querer dar o nome de “24 de Abril – Genocídio dos Armênios” a uma das ruas da cidade. Questionei então meu amigo Louis Mermoz, Presidente da Assembléia Nacional, perguntando-lhe: ”É verdade que em 1975, a Câmara Municipal sofreu pressões?” “É verdade, disse ele. Tínhamos dado esse nome a uma rua e sofremos todas as pressões possíveis e imagináveis para trocarmos esse nome”.

A Liga dos Direitos Humanos não pode tolerar esse tipo de pressão e de ingerência em nosso país. Todo mundo sabe que existe na França uma comunidade Armênia que nós estimamos e respeitamos, e achamos normal que esteja perfeitamente integrada ao nosso modo de viver e ao mesmo tempo apegado à sua identidade cultural, à sua identidade nacional. É por isso que estamos sempre ao lado deles em todas as circunstâncias.

Como historiador tive a oportunidade de escrever sobre os últimos instantes de Manuchian.

Tomo a liberdade de interromper mais uma vez a leitura do processo para falar de Manuchian.

Missak Manuchian, vulgo “Manuch” nasceu no dia 15 de Setembro de 1915 em Adyaman (Turquia). Em Novembro de 1942 entrou para a Resistência (o maquis), e de imediato tornou-se um dos chefes da mesma, graças às suas qualidades morais e a sua coragem. Fustigando os Alemães sem lhes dar trégua, deixou-os transtornados. Não conseguindo apanhá-lo a Gestapo, enraivecida, colocou enormes cartazes vermelhos em todas as estações de metrô de Paris, prometendo um prêmio substancial para quem o denunciasse. Traído, foi preso e fuzilado com 22 de seus companheiros em 21 de Fevereiro de 1944.

 Continuemos com o processo:

O Juiz: Como Presidente da Liga dos Direitos Humano, o senhor é uma das maiores autoridades morais de nosso país. Como o Sr.  não conhece o réu, vou lhe citar fatos mantendo-me no nível de seu depoimento.

Há algumas semanas foi colocada uma bomba num restaurante israelita em Berlim: um bebê de dois meses morreu. Há uma semana um adido militar americano foi morto com um tiro na cabeça. Há alguns dias, um edifício público foi atacado a bomba aqui na França. Há pouco, alguém disse que deveriam matar muito mais embaixadores. O Sr.  que é uma autoridade moral neste país, com o que nos nós congratulamos, o Sr.  acha que a violência seja a resposta certa às solicitações de nossa época?

Dr. Noguère: A violência, eu a pratiquei pessoalmente sob a forma a mais exacerbada durante um certo período da minha vida: foi na Resistência, durante a Segunda Guerra Mundial. Fui, por isso mesmo, condecorado várias vezes. Não condeno a violência em si. Condeno a violência em certas circunstâncias. Consegui que o Comitê Central da Liga dos Direitos Humanos aprovasse uma resolução que faz a distinção entre a violência que tende a desestabilizar os países de estruturas democráticas e a violência que representa o  reflexo legítimo das pessoas que querem lutar contra países de estruturas ditatoriais. Em outras palavras é preciso distinguir, primeiro, a violência que é reflexo de legítima defesa e legítima raiva e segundo, as condições em que devem exercer-se as reivindicações nos países democráticos.

Com estas palavras o Dr. Noguère termina o seu depoimento. Após mais um testemunho, chega a vez do Sr.  Gerard Chaliand.

O Juiz: Nome, sobrenome, idade e profissão, por favor.

Sr. Chaliand: Gerard Chaliand, 48 anos, escritor e professor na Escola Nacional de Administração. Moro em Paris.

O Juiz: Conhece o réu aqui presente?

Sr. Chaliand: Não

(a testemunha presta juramento)

 O Juiz: Estamos ouvindo o seu depoimento.

Sr. Chaliand: Meu testemunho enfoca especificamente o terrorismo armênio pelos fato de ser professor da matéria: “Guerrilha, terrorismo e movimento de libertação nacional.”

Outrossim, quero frisar que o terrorismo armênio não é nem social, nem ideológico, nem do tipo desestabilizador. Trata-se antes de uma reação de moços revoltados pelo silêncio e pelo escândalo que representa este silêncio; pelo crime contra a humanidade perpetrado entre 1915 e 1917 pelo Estado Turco que persiste em não querer reconhecê-lo até hoje. Isto significa de certa maneira ser massacrado duas vezes.

Portanto, esses terroristas são dominados por uma imensa indignação, uma raiva alimentada pela mentalidade de hoje, pois estamos falando de um terrorismo que chega depois de 60 anos do Genocídio. Isso tem uma explicação. Estamos vivendo numa época em que esse terrível Genocídio é amplamente conhecido pela consciência universal, numa época em que o conceito de crime contra a humanidade e a imprescritibilidade de crime contra a humanidade é reconhecida pela O.N.U.

Nesta mesma época em que se fala tanto do direitos humanos, uma comissão dos Direitos Humanos da O.N.U, encarregada de redigir um relatório sobre a prevenção e o castigo de crime de genocídio, mencionou no seu parágrafo 30 a existência de Genocídio dos Armênios. Ora, entre 1973 e 1980, a Turquia usou de todas as artimanhas jurídicas para fazer desaparecer esse parágrafo. E conseguiu!

Voltando especificamente ao terrorismo armênio, digamos que esse terrorismo é um terrorismo de propaganda. Com efeito, não existem outros recursos para fazer ouvir a nossa voz nesse silêncio absoluto, de um lado da Turquia, do outro, infelizmente, de nosso próprio conceito ocidental das mídias, nas quais um acontecimento só existe se for de atualidade. É inútil dizer, Meritíssimo, que ninguém prestaria atenção ao clamor dos Herreros da Namíbia, se viessem aqui relatar o massacre de seu povo.

Namíbia, protetorado alemão do início do século, é o nome oficial dado pela O.N.U em 1966 ao sudoeste africano. Uma das etnias dessa região, os Herreros, sofreu sangrentos massacres perpetrados pelo então general Von Trotha.

 Em outras palavras, queiram ou não, o fato que o Genocídio Armênio seja conhecido hoje se deve ao terrorismo Armênio contra os diplomatas turcos. Isto decorre – e agora reitero o que já disse, porém com pesar – que o nosso conceito de mídia fala somente em acontecimentos recentes, privilegiando de preferência o espetacular e a violência.

Gostaria de acrescentar que um terrorista que ataca um representante de um Estado pode ser coerente. De fato, em nosso caso, o diplomata representa a política de seu Estado, um Estado que pratica à sua maneira o terrorismo da negação até dentro da O.N.U, por não querer admitir de ser culpado de um crime contra a humanidade. Em contrapartida, acho que qualquer tipo de terrorismo praticado contra outros alvos senão o Estado Turco (por exemplo franceses ou suíços) é estrategicamente contra-producente e politicamente frágil. Estou explanado esses fatos como profissional e gostaria de acrescentar que, pessoalmente, não tenho nada contra o povo turco, tendo, eu mesmo, traduzido e publicado em francês três de seus poetas clássicos. Por fim, quero homenagear aqui de público, alguns dignitários do Império Otomano como Djelal Bei, governador da cidade de Alepo que se negou em compactuar com a ordem de deportação.

Concluindo, senhores jurados, à margem deste caso que terão de julgar, creio que devemos levar em consideração o fato que o Genocídio dos Armênios pertence e deve pertencer à consciência universal e à nossa memória coletiva. Tenho dito, Meritíssimo.

O veredicto foi uma condenação de princípio, que levou à liberação imediata do réu. Um ato qualificado de terrorismo pelo Estado e considerado como ato de Resistência pelo júri popular.

Infelizmente, este processo não mudou em nada a atitude da Turquia que persiste em ignorar o Genocídio de 1.500.000 de Armênios.

Como podemos constatar esse processo ocorreu há mais ou menos 20 anos. Porém, mesmo hoje, lemos nos jornais notícias que podemos taxar de cômicas se não fossem trágicas. Acabo de ler que o embaixador da Turquia na Alemanha disse durante o enterro de duas mulheres e uma menina turca mortas por uma bomba, que foi um ato contra a humanidade: dois pesos, duas medidas. O cúmulo do cinismo!